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Vale tudo na guerra cultural, até pedir para bater em menores

Nem em imagens dá para acreditar: estudantes são linchados pela mídia e pelas redes sociais por confronto que não existiu com índio americano

“Tóxico” foi a palavra do ano de 2018 pelos critérios do dicionário Oxford. Em português, ela foi muito empregada no lugar do habitual “envenenado”.

Os dois adjetivos são usados no sentido metafórico para descrever personagens e ambientes políticos e culturais.

No mundo anglo-saxão, “tóxica” foi muito associada a “masculinidade”, geralmente para descrever o que os homens fazem de errado ou, principalmente, por serem apenas homens que ousam sentar de perna aberta no metrô ou olhar para mulheres bonitas em qualquer ambiente.

Qual o adjetivo que definirá 2019 ainda não dá para saber. Mas alguns episódios já mostraram que o índice de toxicidade vai subir mais ainda. A seguir, três exemplos.

1. BONS MENINOS VÃO PARA O INFERNO

Segundo uma piada clássica sobre o comportamento feminino, “garotas boazinhas vão para o céu, as perigosas vão para todos os lugares”.

A turma de estudantes que saiu lá do Kentucky e foi de ônibus até Washington para participar de uma manifestação contra o aborto inverteu o ditado: mereceria ir para um profundo círculo do inferno.

Isso segundo um vídeo que capturou alguns instantes em que os alunos da escola católica de Covington supostamente ridicularizavam Nathan Philips, um indígena de biografia algo nebulosa.

Ainda por cima, vários usavam o boné vermelho com o slogan de Donald Trump, Make America Great Again. Pronto, desçam mais um círculo.

O Washington Post fez uma reportagem acusando o grupo de estudantes de zoar com o veterano de guerra do Vietnã  uma mentira rapidamente exposta.

Phillips diz em seu perfil que foi fuzileiro naval “na era da guerra do Vietnã”, uma maneira esperta de insinuar algo que não aconteceu sem dizer que aconteceu mesmo. A reportagem do Post não se deu ao trabalho de checar.

O mundo progressista caiu em cima dos secundaristas. O estudante no centro do episódio, Nick Sandmann, que aguenta com olhar divertido (zombador, quase satânico segundo os linchadores virtuais) Phillips batendo um tambor a poucos centímetros de seu rosto, virou o vilão número dois (o 1 todo mundo sabe quem continua a ser) dos Estados Unidos.

Jack Morrissey, produtor de nada menos que filmes da Disney, publicou no Twitter uma paródia do filme Fargo em que os “MAGA kids” são colocados “gritando, com os bonés primeiro” num triturador de madeira.

Depois, teve a decência de pedir desculpas. “Foi um tuíte rápido e profundamente idiota. Preferiria jogar meu telefone no mar do que fazer isso de novo.”

“Agora entendo que foi de mau gosto e que eu ofendi muitas pessoas.”

Pelo menos, não se dirigiu aos que “se sentiram ofendidos”, uma expressão habitual que parece jogar a culpa nos objetos da ofensa.

O jornalista Erik Abriss foi demitido de uma empresa digital por tuitar: “Eu simplesmente quero que essa gente morra. Simples assim. Cada um deles. E os pais também.”

A direção da escola particular, com muita ênfase nos esportes  daí os cantos e o haka, a dança maori celebrizada pelos jogadores de rúgbi da Nova Zelândia  disse que ia tomar as providências rigorosas, entre as quais se incluía expulsão.

Quando uma série de vídeos mostrou um “um quadro mais completo”, segundo o eufemismo do New York Times, inclusive Nathan Phillips tomando a iniciativa de ir bater bumbo na cara dos manifestantes, os estudantes já estavam identificados e recebiam, juntamente com seus parentes, ameaças de morte.

Na terça-feira, a escola suspendeu as aulas por motivos de segurança.

Difamar e ameaçar menores não é exclusividade da esquerda. Muita gente da direita sentiu vontade de esmurrar David Hogg, estudante da escola da Flórida onde 17 alunos e funcionários foram fuzilados em fevereiro do ano passado.

Hogg virou um militante do desarmamento e estrela da mídia. Esta é uma diferença importante da guerra cultural que opõe direita e esquerda no mundo desenvolvido e que esteve praticamente no centro da eleição presidencial no Brasil.

De forma geral, pessoas que encarnam ideias do campo progressista, como a proibição de armas, a ideologia de gênero e a revisão histórica, são tratadas de forma elogiosa na maioria dos meios de comunicação, onde predomina a mesma visão.

As críticas e ataques a David Hogg e outros alunos partiram das redes sociais ou de sites conspiracionistas que habitualmente promovem uma versão odiosa desse tipo de episódio: são encenações, dizem eles, usando atores para promover o desarmamento dos americanos, uma impossibilidade enquanto o segundo artigo da Constituição continuar valendo.

Já as pessoas que gostam de Trump e desgostam do aborto, como os estudantes de Covington, entram direto no triturador de reputações da maioria dos jornais e canais de televisão. Quando os fatos são reconstituídos e mostram “um quadro mais completo”, já era.

2. A EXPULSÃO DE COLOMBO

Indígenas americanos e padres de esquerda também estão no centro de outro arroubo politicamente correto.

A Universidade de Notre Dame, uma das principais dos Estados Unidos  um honroso décimo-oitavo lugar no ranking das melhores  decidiu que vai cobrir a série de doze pinturas murais mostrando a chegada de Cristóvão Colombo à América e outras cenas.

Só para lembrar: Colombo fez o que todos os descobridores faziam e a terra firme na qual desembarcou foi a ilha de Guanahani, que chamou de São Salvador “em homenagem a sua Alta Majestade, à qual maravilhosamente tudo isto dou”.

Muitos murais lembram a Primeira Missa no Brasil, embora sem a pujança tropical de Victor Meirelles, com “gente despida” misturada aos descobridores.

Ao contrário do que aconteceu no Brasil, os católicos foram uma minoria discriminada nos Estados Unidos e os painéis de Notre Dame, pintados no século 19, como o quadro de Victor Meirelles, pretendiam exaltar o passado glorioso dos imigrantes que chegavam à América protestante quase sem nada na mão.

É lógico que o passado glorioso teve muito de violento e catastrófico para as populações nativas. Fez parte dos descobrimentos e da colonização, propagados pela cruz e a espada, a gradual imposição de mudanças sociais e religiosas de consequências tectônicas.

Como é proibido fazer qualquer comparação entre culturas e especular sobre hipóteses, nunca saberemos se algum dos povos nativos desembarcaria na Europa e implantaria sacrifícios humanos em massa, canibalismo e infanticídio ou aboliria a roda.

Ou se ensinaria a viver em harmonia com a natureza, indiferentes aos bens materiais, sem propriedade nem cobiça.

Múltiplas culturas existiam nas Américas antes que se tornassem as Américas. Muitas, tragicamente, desapareceram. Outras se fundiram e sobreviveram, alimentando nossa original e única composição étnica, social e cultural.

Por isso, é importante estudar, conhecer e entender a imensa complexidade do “choque dos mundos”, colocando-o no contexto histórico em que se desenvolveu.

Cobrir os murais, evidentemente, não faz uma única contribuição para isso. Só cede, covardemente, a um abaixo-assinado feito por 340 alunos em 2017 pedindo que a direção desse um jeito nas pinturas “altamente problemáticas”, comparadas aos monumentos aos confederados sulistas da época da Guerra Civil americana.

A direção da Notre Dame, instituição fundada pela Congregação da Santa Cruz, com tradição de ensino em vários países, inclusive no Brasil, finalmente cedeu à exigência para não “marginalizar” estudantes de origem indígena.

3. BARBA, CABELO E BIGODE

Nesse mundo politicamente correto, nada é mais perigoso do que ser um homem branco e viril. “Masculinidade tóxica” virou a descrição de metade dos pecados do mundo.

Atenção: consideramos masculinidade um sinônimo de características nobres como o impulso automático de ajudar desconhecidos em perigo, proteger os mais fracos, modular o desejo sexual conforme a o engajamento da parte correspondente e dar lugar a mulheres e crianças nos botes salva-vidas do Titanic. Um ou outro momento ogro não muda isso.

Sem contar que homem que é homem gosta da companhia de mulheres, da tensão e da vibração entre masculino e feminino, mesmo que não seja para os objetivos de sempre.

Espancadores e abusadores, obviamente, têm grandes problemas em administrar a própria masculinidade. Devem ser tratados, primeiro, pelo código penal, e segundo, se quiserem, por profissionais da saúde mental.

Colocar uma fileira de machões tóxicos, de barba e braços cruzados, na frente de churrasqueiras foi o que fez um novo anúncio da Gillete, sinônimo de lâmina de barbear, provocar o maior barulho.

Os mal comportados perseguem os diferentes, rolam no chão brigando, agarram empregadas e silenciam mulheres. Mas aí os bonzinhos entram em ação e corrigem tudo.

“Podemos ajudar a criar uma mudança positiva que fará a diferença durante anos à frente”, autoelogiou-se o presidente de higiene pessoal da Procter & Gamble, à qual pertence a marca criada em 1901 por King Camp Gillete para vender, com enorme sucesso, as primeiras lâminas de barbear descartáveis.

Pois é: agora a gilete está no ramo de ensinar os homens a ser homens. Bonzinhos e bem barbeados, claro.

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