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Tudo ou nada na eleição americana: ninguém segura Bernie?

A onda a favor do candidato de esquerda parece definida e a Super Terça vai dar a palavra quase final sobre uma candidatura arriscada e sem precedentes

Por Vilma Gryzinski - 2 mar 2020, 16h17

A maior potência de todos os tempos não tem um candidato com estatura, propostas, perfil e visão para ser presidente.

Inclui-se aí o incumbente, Donald Trump, que está detonando seu principal capital – o desempenho econômico – na atitude birrenta, instável, repleta de conflitos desnecessários (diminuindo assim a importância das brigas necessárias).

E qual a resposta da oposição a um presidente que, em seus sonhos, seria o mais fácil de ser derrotado em todos os tempos?

Bernie Sanders.

Coitados dos americanos que se desiludiram, ou nunca tiveram ilusões, com Trump e gostariam de votar num candidato equilibrado, capaz, com cabeça para manter a economia no rumo e coração para abrandar o estado de beligerância política no país.

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Esse candidato não existe. Ou não apareceu entre os pretendentes. O figurino, que supostamente caberia a Joe Biden, não serviu no ex-vice-presidente, apesar da sobrevida que ganhou recentemente.

Os dois outros mais centristas, nos termos atuais, acabaram de cair fora: Pete Buttigieg e Amy Klobuchar. Não tinham mais fôlego – nem dinheiro.

Um problema que não existe para Michael Bloomberg, o multibilionário que está sustentando a mais cara campanha do próprio bolso. Ainda sem chances.

A eleição primária em catorze estados, amanhã, definindo um terço dos delegados que votarão na convenção do Partido Democrata, em julho, deve abrir o caminho para a vitória de Bernie.

O senador de 78 anos (e um enfarto) é um candidato tão à esquerda que Trump nem precisa levantar um dedo, no Twitter, naturalmente, para explicar o que ele defende.

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S-o-c-i-a-l-i-s-m-o. Pronto, acabou.

E não adianta os defensores de Biden na imprensa tentarem disfarçar, dizendo que o modelo defendido por Sanders é o da Dinamarca e não da Venezuela.

Comparar um país escandinavo de cinco milhões de habitantes, alta homogeneidade cultural e nenhuma pretensão hegemônica, pelo menos desde a época dos vikings, com os Estados Unidos não vai colar.

Quem está levantando dedos, e arrancando os cabelos, são os quadros tradicionais do Partido Democrata, apavorados com a possibilidade de um candidato Sanders espantando exatamente o tipo de eleitor que precisam para derrotar Trump.

Não que Sanders esteja mal nas pesquisas. Ao contrário, a média indica que ele tem uma vantagem de 4,8% sobre Trump, hoje.

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Eleição presidencial americana, evidentemente, é uma coisa muito mais complicada do que votação popular. Sem falar na instabilidade das pesquisas.

Mas a onda, sem dúvida, é favorável a Bernie Sanders. Até a oposição interna do partido conta pontos a favor, pois reforça a imagem de candidato contra o establishment, perseguido pelos poderosos e a favor dos fracos e oprimidos.

Ou os que se imaginam assim.

“Fight the power” dizia o cartaz do último comício dele antes da Super Terça. Assinado: Public Enemy.

O grupo de hip hop entrou na campanha de Bernie, como vários outros nomes do show business.

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E não sem alguma polêmica. Um dos mais conhecidos integrantes do grupo, Flavor Flav (William Jonathan Drayton Jr., o nome original nada cool) foi contra a associação e acabou expulso.

Pois é. Os mercados derretendo, o novo coronavírus se disseminando, a economia mundial encolhendo e a discussão do momento foi o racha no Public Enemy.

“Em mais de 30 anos de política, nunca vi um ambiente tão catastrófico”, disse ao site Politico um dos raros profissionais do Partido Democrata, Matt Bennett, a dar declarações em on, sem medo das reações virulentas dos “Bernie’s Bros”, a brigada digital do candidato.

“Existe um sentimento generalizado de que estamos indo para o abismo. E também acho que podemos perder a Câmara. Daí, nada poderá segurar Trump”.

Os sanderistas, obviamente, acham o exato oposto: só um candidato fora do padrão pode mobilizar a massa para derrubar a inabalável base trumpista, sempre acima de 40%.

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Entra aí o fator entusiasmo. Um candidato que incendeia seus partidários, como Sanders, pode espalhar o contágio e levar mais gente a sair de casa para votar, um fator vital numa eleição presidencial.

Foi esse entusiasmo, completamente ignorado ou desprezado pela grande imprensa e pelas elites pensantes, que produziu a surpresa Trump.

Por enquanto, os jogos ainda estão sendo feitos. Se Bernie continuar na boa onda, outros nomões do Partido Democrata serão obrigados a aderir, à medida em que os outros concorrentes desistem, mesmo apavorados.

E torcer desesperadamente para que Trump, como outros da mesma linha, seja seu pior inimigo.

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