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Trump tem um problema com mulheres. A começar pela dele

Rejeição do eleitorado feminino beira os 70% e a beleza de Melania não ajuda, pelo menos por enquanto

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h21 - Publicado em 5 Maio 2016, 20h31
Abram alas: Trump vem chegando, com Melania rebolando na frente

Abram alas: Trump vem chegando, com Melania rebolando na frente

“Viram só o jeito que ela anda? Andar de passarela. Meu Deus, como é bom.” O microfone estava aberto e Chris Matthews, um jornalista loiríssimo e desbocado, como uma espécie de Donald Trump dos canais de notícias, revelou não só seus sentimentos como os de muitos espectadores masculinos. Melania Trump, deslizando num vestido branco que deveria evocar Jacqueline Kennedy, a mulher mais elegante da história recente, mas lembrava mais o que ela foi – modelo treinada na arte de andar provocantemente –, estava de derrubar a internet no discurso em que o marido celebrou, com inesperada e esperta magnanimidade, sua posição como candidato a presidente pelo Partido Republicano.

A beleza de Melania, com seus inacreditáveis 46 anos, é mais um problema dos muitos que Trump enfrenta. Mulheres bonitas, como a filha e as noras de Trump, todas loiras, altas e de seios grandes, são um trunfo para qualquer candidato. Mulheres deslumbrantes como Melania, ex-modelo nascida na Eslovenia, atrapalham. Ainda mais um candidato que enfrenta rejeição na casa de quase 70% entre o eleitorado feminino, que preferiria um candidato mais conservador e religioso, no caso das republicanas; um sujeito boa praça como Bernie Sanders ou uma mulher que agora só anda de casacos compridos, para disfarçar os quadris, como Hillary Clinton, no caso das democratas.

Pelas pesquisas atuais, Trump tem por volta de 40% dos votos e Hillary, 47%. Não é uma diferença enorme, mas esbarra na faixa dos “nunca, jamais” – votantes do sexo feminino, negros ou hispânicos que nem consideram a hipótese de cravar o nome dele. Sem contar os republicanos da mesma turma.

Hillary também tem rejeição, embora menor, principalmente entre o eleitorado jovem que prefere Bernie Sanders e a considera, com razão, uma candidata comprometida com “tudo o que está aí” – nos Estados Unidos, dizem Wall Street –, de caráter duvidoso, mentirosa consumada e enrolada no extraordinário enriquecimento do casal Clinton.

Com um candidato como Trump, que quebra todos os paradigmas, é possível apostar em qualquer hipótese: ele vira o jogo ou Hillary ganha de lavada. Mas não é honesto simplesmente chamar de burros os eleitores que preferiram Trump no ciclo das prévias. As legiões de comentaristas que passaram os últimos meses teorizando sobre a iminência da derrocada de Trump atestam os perigos do wishful thinking, ou o desejo de que algo se transforme em realidade por simples ato de volição. O fato de que a maioria dos jornalistas odeie Trump não o transforma, magicamente, em derrotado.

Ao contrário, o eleitorado que vê a imprensa desde sempre comprometida com políticos democratas mais à esquerda, como Barack Obama e Sanders, apoiou Trump com entusiasmo crescente, à medida que as críticas aumentavam. Pesquisas com grupos selecionados mostraram que, mesmo quando não gostavam do que Trump dizia, como seus comentários grotescos sobre a aparência de mulheres, seus simpatizantes elaboravam desculpas do tipo “queremos um bom presidente para o país, não um presidente perfeito”.

Tendo sido desmentidos pelos fatos em todos seus prognósticos, analistas de diversos tipos, inclusive os que acertaram em eleições anteriores como o estatístico Nate Silver (“Basicamente, entendemos errado a disputa republicana”, reconheceu ele), agora estão dedicados a dizer o que Trump deve fazer se quiser ganhar de Hillary. O perigo é que, como sempre, ele faça exatamente o oposto do que bom senso político recomende, inclusive aumentando a insinuante participação – e aquele andar rebolativo – de Melania. E que dê certo.

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