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Trump tem salvação ou está na hora de temer aos céus?

Filho encrencou pai de forma estrondosa ao admitir e provar de que queria ouvir proposta dos russos para encrencar Hillary, mas ainda não é o fim

Por Vilma Gryzinski 12 jul 2017, 14h38

Os mais otimistas diriam que foi uma estratégia para neutralizar os adversários.

Mas está difícil encontrar otimistas depois que Donald Trump Jr. revelou, de moto próprio, a sequência de e-mails em que se dispõe a ouvir uma emissária russa com “provas” de falcatruas de Hillary Clinton, na época da campanha.

Também está difícil entender o papel exato da advogada Natalia Veselnitskaya, que compareceu ao encontro, em junho do ano passado, e não entregou nada do prometido.

E mais difícil ainda explicar a intermediação de um empresário artístico, Rob Goldstone, que invocou o nome de seu cliente, um cantor do Azerbaijão, e o pai dele, conhecido de Trump da época do Miss Universo em Moscou.

O primeiro contato foi feito através da secretaria de Trump, Rhona Graff. Não é preciso ter formação jurídica para saber que, uma vez envolvida a secretária, as agendas eventualmente aparecem.

Bem, este é um resumo rápido e, como certas cargas de cavalaria, mal feito. Interessa mais, para os efeitos atuais, o que vem depois.

ROUBADA OU CILADA

Trump Jr. vai enfrentar inquéritos, no Congresso e possivelmente na Justiça. Mas não ocupa nenhum cargo no governo, ao contrário da irmã, Ivanka, e do cunhado, Jared Kushner. Este participou do encontro com a russa – saiu no meio, depois de uns dez minutos.

Provavelmente  Kushner percebeu que era uma roubada. Foi o suficiente, porém, para se encrencar: sabia do assunto que havia sido prometido, embora não concretizado.

Portanto, concordou em ouvir alguém que falaria, segundo Goldstone, de provas quentes vindas de Moscou, da parte da promotoria-geral, envolvendo contribuições russas para o comitê democrata.

Portanto, participou de um conluio. Mesmo que sem consequências e mesmo que, juridicamente, não seja um crime.

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Politicamente, é um desastre. A única possível e mesmo assim fraca alternativa seria provar que, além de uma roubada, o encontro foi uma cilada, uma armação tramada para envolver a família, preventivamente, na hipótese considerada improvável, à época, de que Trump fosse eleito presidente.

Trump se encontrará assim numa situação clássica: nomear alguém da família é fácil, difícil é demitir. Se ficar, o genro enfraquece o sogro. Se sair, não melhora muito as coisas para ele. É uma situação que outro presidente, muito mais próximo, de nós, já viveu com numerosos assessores.

“Furação classe 5” foi o termo usado, com grande alegria, pelo Washington Post para descrever o clima na Casa Branca.

Alegria porque o Post, juntamente com o New York Times e mais 90% da grande imprensa, vê a possibilidade de que o sonho se torne realidade: um crescendo de revelações que leve o Partido Republicano a perder a maioria, nas eleições legislativas do ano que vem,  ou a se convencer a votar pelo julgamento político e eventual afastamento do presidente.

VICE CERTINHO

A sequência de reviravoltas dramáticas desde que Trump estreou com extraordinário estrépito na cena política americana não faz prever nenhum roteiro certinho.

Em todo caso, só para lembrar: Trump tem um vice aparentemente à prova de escândalos. Mike Pence, vindo de uma família de irlandeses católicos, é evangélico.

Do tipo que leva ao pé da letra os princípios mais estritos. Um exemplo: foi ridicularizado pelos antitrumpistas quando disse numa entrevista que evitava marcar almoços ou jantares de trabalho a sós com mulheres, para não correr o risco de vulnerabilizar  seu casamento.

Ex-locutor de rádio e ex-governador de Indiana, ele basicamente não tem bens: declarou patrimônio na faixa de 110 mil a 245 mil dóiares, composto na maioria por um fundo de aposentadoria. O filho dele é tenente dos Fuzileiros Navais.

Mais recentemente, Pence tem tido uma série de reportagens relativamente favoráveis, uma espécie de provocação da imprensa antitrumpista para irritar seu chefe – mas nada rechaçadas pelo vice.

Trump já disse várias vezes que Pence foi a surpresa mais agradável que teve como presidente. Até sobre religião os dois falam.

A cena de pastores evangélicos fazendo uma oração em torno de Trump, com imposição de mãos, pode ser atribuída a Pence. O vice aparece na foto enormemente simbólica, de cabeça abaixada em oração, logo atrás do pastor de camisa azul. A reza tem que ser forte. Seja qual for.

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