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Trump ganha de dez a zero: investigação não encontra crimes

Promotor especial revelou apenas contatos de baixo nível, Incompetência, trapalhadas, assessores ambiciosos e um plano russo para melhorar o mundo

Por Vilma Gryzinski - 18 abr 2019, 18h23

É fácil resumir o relatório produzido pelo durão Robert Mueller sobre suspeitas de uma conspiração entre Donald Trump e os russos: nada, zero, bulhufas.

O ex-diretor do FBI, um grandalhão que poderia passar por uma versão contemporânea de Torquemada, levantou todas as pistas, olhou debaixo de todas as pedras, escavou e-mails, reconstituiu reuniões, interrogou quase 500 pessoas, levou umas poucas a acertar contas com a Justiça por motivos alheios ao inquérito.

Ou seja, fez o seu trabalho. Praticamente tudo do que investigou já tinha vazado para a imprensa, mas vale repetir sua conclusão: “A investigação não estabeleceu nenhum entendimento entre membros da campanha – ou entre estes funcionários e indivíduos ligados à Rússia – para interferir ou obstruir uma função legítima de um órgão governamental durante a campanha ou o período de transição.”

E mais: “A investigação não identificou evidência de que algum membro da campanha ou indivíduo relacionado a ela participou conscientemente e intencionalmente de uma conspiração” para praticar os crimes que se enquadrariam no caso.

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A investigação certamente expôs um nível de incompetência que chega a ser cômico. Vladimir Putin e Donald Trump queriam se aproximar e melhorar as relações entre a Rússia e os Estados Unidos. Mas não sabia como fazer isso ou usaram intermediários quase patéticos.

Entre eles, Carter Page, um assessor periférico da campanha que havia trabalhado na Rússia e até sido sondado como eventual colaborador do serviço de inteligência. Segundo o recrutador, só estava interessado em ganhar dinheiro com o fabuloso sistema energético russo.

George Papadopoulos queria vender uma mercadoria que não tinha: altos contatos na cúpula russa. Teve uns encontros estranhos que deram em nada, inclusive por sua ingenuidade: acreditou que a mulher apresentada por um professor universitário de Malta com fama dúbia era sobrinha de Putin. Foi avisado, inclusive, para sair fora e não criar situações comprometedoras.

Personagens do Quirguistão e do Azerbaijão com muito dinheiro e nenhuma noção de como explorar os contatos com Trump entram e saem da história sem que haja tempo para fixar seus nomes.

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Um dos casos mais bizarros envolveu Rob Goldstone, um empresário artístico britânico que representava um cantor pop filho de um milionário do Azerbaijão e levou uma russa suspeita para um encontro com Donald Trump Jr.

Supostamente, ela tinha informações sobre doações ilegais de russos para a campanha de Hillary Clinton, mas não entregou.

Goldstone reclamou num e-mail ao cantor que, diante da repercussão negativa, sua reputação tinha sido “basicamente destruída por causa dessa reunião idiota que seu pai insistiu para fazer”. Ainda por cima, o empresário agora estava sendo “pintado como um elo misterioso com Putin”.

A campanha de Trump não tinha ideia de como montar um programa de política externa. Quando Trump ganhou a eleição, uma assessora de imprensa não sabia se acreditava ou não numa mensagem congratulatória de Putin. Aliás, o todo-poderoso russo tinha mencionado num encontro com um banqueiro russo que gostaria de melhorar as relações com os Estados Unidos e principalmente reverter as sanções vigentes desde a intervenção na Ucrânia. Mas não sabia como chegar a ninguém do entorno de Trump.

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O único contato em potencial foi um desastre. Paul Manafort, agora recolhido ao sistema prisional por trambiques variados, tentou contrabandear posições favoráveis ao partido ucraniano pró-Rússia, ao qual havia prestado serviços milionários como lobista não declarado. Acabou demitido como diretor de campanha.

Kirill Dmitriev,  presidente do fundo soberano russo que tentou fazer contato com o entorno de Trump,  apresentou o rascunho para um plano de reconciliação entre Rússia e Estados Unidos.

Entre os cinco pontos, constavam: lutar em conjunto contra o terrorismo, ação comum pela eliminação, de armas de destruição em massa, investimentos mutuamente benéficos e diálogo “honesto, aberto e constante”. Poderia existir coisa melhor?

E o pior? Trump realmente disse que estava ferrado, numa versão amena, com a abertura da investigação oficial. Medo de ser pego em contravenções? Não, era porque “todo mundo” dizia que um inquérito assim não acaba nunca e o manteria de mãos amarradas.

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Golden shower? Michael Cohen, o advogado que se tornou um delator premiado, recebeu de um contato russo, o empresário Giorgi Rtskhiladze, uma mensagem dizendo que havia “interrompido o fluxo de tapes da Rússia, mas não tenho certeza se tem mais coisa”.

Estaria se referindo à suposta sessão em que duas prostitutas praticaram o ato bizarro para deleite de Trump num hotel de Moscou? O empresário de nome impronunciável disse ter ouvido falar que os tapes eram falsos.

O relatório é longo, existe uma nuvem de suspeição que os adversários de Trump jamais deixarão de explorar e são impressionantes os detalhes sobre a campanha suja feita via redes sociais pelo serviço militar de inteligência da russa para insuflar ânimos durante a campanha presidencial, geralmente em favor de Trump.

O uso do Wikileaks do santo Julian Assange para “desovar” e-mails da campanha de Hillary hackeados pela inteligência russa é amplamente confirmado.

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Os russos queriam que Trump ganhasse? Estavam só treinando as artes negras da propaganda política? E no que se beneficiaram com isso tudo, visto que as relações bilaterais andam péssimas?

As dúvidas vão perdurar por muito tempo. No mais, dez a zero para Trump, que entra na campanha pela reeleição do ano que vem com uma ficha limpa assinada pelo homem que poderia simplesmente massacrá-lo.

Por enquanto, claro.

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