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Toma lá, dá cá e outros quiprocós: encrencas para Trump

Pressionar governo estrangeiro para investigar adversário político e condicionar ajuda em troca desse inquérito são vias para abrir caminho ao impeachment

Por Vilma Gryzinski - 20 nov 2019, 15h28

Não existem inocentes em política.

E o destino de Donald Trump depende de como os não-inocentes vão avaliar o que é melhor para eles: votar, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, pela saída de um presidente impichado ou engolir em seco as estripulias trumpianas, talvez passar uma censura formal, e seguir a vida.

Os não-inocentes nesse caso são os vinte senadores republicanos dos quais Trump depende para sobreviver ao julgamento político no Senado, onde é necessária maioria de dois terços.

Ou não.

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A aprovação do impeachment, com seu caráter temporário até a votação final no Senado, já estava garantida desde antes da abertura das sessões, preparatórias uma vez que a primeira fase do processo acontece na Câmara dos Representantes, a maioria dos deputados é da oposição democrata e todos querem degustar o fígado do presidente com uma gana como nunca existiu antes naquele país.

Os republicanos mudarão de opinião se suas bases – tradução: os próprios eleitores – mudarem também.

Isso ainda está muito longe de acontecer: 88% dos eleitores republicanos são contra o impeachment e acham que tudo é uma armação política de seus adversários.

Ou se aparecerem fatos devastadores no Ucraniagate.

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O caso tem duas subdivisões, elas próprias subdivididas.

Uma, são as pressões de Trump para que o novo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, investigasse a empresa que analisou a invasão do sistema do Comitê Democrata quando Hillary Clinton foi sua adversária.

A suspeita persecutória é que o servidor foi escondido pela empresa, cujo fundador é um ucraniano com cidadania americana.

Ninguém fala nisso porque não interessa aos democratas e a suspeita não tem nenhuma sustentação formal.

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A outra pressão, mais grave do ponto de vista político e potencialmente criminal, foi para que Zelensky mandasse investigar a atuação de Joe Biden e do filho dele, Hunter, em troca de ajuda militar e de uma visita à Casa Branca.

Para a Ucrânia, ter simpatia, proteção e armamentos dos Estados Unidos é questão de sobrevivência, uma vez que seu inimigo é a infinitamente mais poderosa Rússia.

DAR PARA RECEBER

A “troca de favores” é definida pelos americanos em latim: quid pro quo. Isso por aquilo, uma coisa por outra (o quiprocó, significando encrenca ou briga na linguagem popular brasileira, derivou daí).

O troca-troca ficou conhecido aqui como a notória escola política do toma lá, dá cá ou do é dando que se recebe, um uso hediondo da frase que refletia a bondade sobre-humana de São Francisco de Assis.

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No Brasil, a troca de “favores” aconteceu em escala interna e por motivos conhecidos: garantir os votos no Congresso para que um presidente conseguisse o que queria – reeleição, aprovação de projetos, permanência no poder e um longo etc.

Sua consagração como mecanismo formal de corrupção, chegando ao ponto dos pagamentos mensais fixos, foi o devidamente chamado mensalão.

No caso dos Estados Unidos, cujo presidente ainda é o homem mais poderoso do mundo, embora limitado pelos mecanismos democráticos que não tolhem um Xin Jinping, por exemplo, o toma lá, dá cá é mais complicado por envolver a maior superpotência da história e um país praticamente impotente como a Ucrânia.

E o caso não começa com Donald Trump.

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Quando era vice-presidente de Barack Obama, Joe Biden assistiu sem “nunca falar no assunto” a incrível ascensão do filho no mundo dos negócios, beneficiado por contratos milionários na Ucrânia e na China.

Na Ucrânia, Hunter Biden foi contratado pelo dono da maior empresa de gás do país, já como membro do conselho, com direito a pagamento mensal de 50 mil dólares, um assombro.

O problema é que Biden, mesmo desfavorecido pelo óbvio conflito de interesse, se tornou o candidato democrata, por enquanto ainda mais cotado, para disputar a Casa Branca no ano que vem.

Imaginem se um presidente brasileiro, em pré-campanha pela reeleição pedisse a um governo amigo, Angola, digamos, para investigar um adversário eleitoral cuja família tivesse se beneficiado de negócios mútuos quando ele estava no poder.

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Nossa, parece difícil imaginar um absurdo desses.

A observação acima é, evidentemente, sarcástica.

Mas a situação de Donald Trump não está para brincadeiras.

Com a abertura das sessões públicas, os democratas trouxeram depoentes de dentro do governo Trump. O resultado foi bem ruim para o presidente.

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O pior depoimento provavelmente foi de Gordon Sondland, embaixador na União Europeia.

Sondland disse que trabalhou no caso Ucrânia em conjunto com Rudy Giuliani, advogado de Trump para questões particulares.

Fez isso por recomendação expressa do presidente.

E Giuliani especificou que a investigação sobre Biden era a condição para que o presidente Zelensky fosse recebido na Casa Branca em visita oficial.

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Ao contrário de outros depoentes, Sondland não pode ser acusado de antitrumpismo.

Ao contrário. Como milionário dono de hotéis, ele deu dinheiro para a campanha de Trump e foi recompensado com a embaixada.

Isso é comum – embora altamente discutível – nos Estados Unidos e presidentes de ambos os partidos costumam mimar assim os doadores graúdos.

Mas Sondland não foi um “embaixador de vitrine”, só para enfeitar recepções e fazer bonito com seus bons contatos.

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Os adversários democratas dizem que se integrou ao esquema da “diplomacia paralela”, um esquema tocado por Rudy Giuliani para tirar do novo governo ucraniano o que Trump queria.

E Trump queria, como deixou claro no telefonema que ele próprio revelou, fatos comprometedores sobre os Biden, pai e filho, e informações sobre a participação do governo anterior em acertos também nada declarados para favorecer Hillary e prejudicar a sua candidatura.

OBRIGADO, PAI

A zona cinzenta entre esses “favores” é um dos complicadores. Como presidente, ele não estava errado, em princípio, em pedir para investigar supostas irregularidades do governo anterior.

Mas também estava longe, bem longe, de certo ao usar o cargo para prejudicar um adversário político.

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Outro depoimento ruim para Trump, embora sem a contundência do conhecimento direto declarado por Sondland, foi o de Alexander Vindman, um remanescente do governo Obama no Conselho de Segurança Nacional.

Com farda completa de tenente-coronel e exigindo ser tratado como tal, Vindman deu detalhes sobre o comportamento “imprópio” de Trump no caso.

Ele é um especialista em assuntos ucranianos e prova viva da vantagem dos Estados Unidos como imã de imigrantes qualificados. Orfão de mãe, conseguiu ser tirado da Ucrânia, ainda criança, pelo pai, usando um programa que ajudava judeus a emigrar da antiga União Soviética

Fluente em ucraniano e russo, fez carreira no Exército, ganhou um Purple Heart – a medalha em forma de coração roxo – por ferimentos sofridos no Iraque e, depois, seguiu utilizando seus conhecimentos em assuntos envolvendo Ucrânia e Rússia.

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Terminou o depoimento na Câmara agradecendo ao pai, já falecido, por tê-lo levado a um pais onde “posso viver sem medo pela minha segurança e da de minha família”.

Apresentar uma queixa sobre o presidente, por canais privados, e prestar depoimento contra ele numa comissão da Câmara “custaria minha vida” se fizesse isso na Rússia.

Num péssimo sinal, reflexo do fenômeno mundial da transformação da política em guerra por outros meios, o dos ataques e linchamentos virtuais, o Exército americano disse que poderia colocar Vindman e sua família sob proteção numa base militar devido às ameaças sofridas depois de seu depoimento.

É um sinal ruim também para Trump, pois pode pesar na consciência – ou autoavaliação eleitoral – de senadores republicanos que vão votar se tiram ou não um presidente de seu próprio partido da Casa Branca.

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Ou talvez os democratas, sabendo perfeitamente que o impeachment não vai passar, estejam fazendo uma enorme encenação para deixar Trump sangrando durante um ano, até uma derrota massacrante na eleição presidencial de novembro de 2020?

Imaginem que horror: políticos nada inocentes que só pensam nos próprios interesses.

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