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Theresa May pelo menos não se faz de mulher perseguida

Teimosa, difícil ou sem noção, entre derrotas e vitórias passageiras, a primeira-ministra tem o mérito de não usar a carta da vítima discriminada pelo sexo

Por Vilma Gryzinski - 16 jan 2019, 17h50

Existem poucas, pouquíssimas vozes fazendo algum esforço para defender Theresa May. E certamente nenhuma das que se ergueram para atribuir a derrota de Hillary Clinton ao machismo perverso dos eleitores americanos – inclusive a própria derrotada.

Como política de direita, ela provavelmente não se enquadra na categoria “mulher” tal como definida pelo manual do progressista identitário.

Angela Merkel só entrou para categoria depois que conquistou todo o espectro à esquerda ao abrir as fronteiras da Alemanha a mais de um milhão de estrangeiros vindos de países muçulmanos. Margaret Thatcher continua fora dela até hoje.

O silêncio da ala progressista, sempre disposta a gritar “discriminação”, com ou sem motivo, provavelmente tem pouco efeito sobre a obstinada – teimosa, cabeça dura ou formidavelmente autoiludida, escolham – primeira-ministra e quase inacreditável sobrevivente.

Com todos os seus conhecidos defeitos, e outros que continuam a aparecer, Theresa May não se faz de vítima.

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No começo de seu governo, prestigiada como a salvadora do Partido Conservador, na maioria estarrecido quando seu próprio eleitorado votou em massa pelo Brexit, a primeira-ministra tentou usar a seu favor a definição “mulher difícil”.

No original, “bloody difficult woman”, uma expressão do às vezes excessivamente inspirado Ken Clarke, um veterano político conservador que conhecia May de longa data.

Durou pouco, inclusive porque ela não se mostrou suficientemente difícil para arrancar da liderança da União Europeia um acordo de desfiliação um pouco menos subserviente.

É preciso considerar que ela entrou no jogo com um 2-7, a pior mão possível, e não progrediu muito nos últimos dois anos.

Possivelmente, nem se começasse com um par de ases conseguiria coisa muito melhor da frente unida de 27 países decidida a fazer do Brexit um caso exemplar para qualquer outro membro que cogite sair do clube.

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Alguém com mais visão, mais ímpeto ou mesmo mais convicção nas vantagens potenciais do voo solo faria diferente? Uma Thatcher, por exemplo?

Uma das pedradas constantemente jogadas contra Theresa May é que ela era contra o Brexit e ficou em cima do muro durante toda a campanha do referendo apenas por esperteza política.

Com o surpreendente resultado do referendo, o cavalinho do poder passou por ela quando outros candidatos mais fortes a substituir o arrasado David Cameron começaram um processo de canibalismo e a esperteza compensou.

Confiante e confiável, com seu jeito algo excêntrico de se trajar, ela fez um discurso triunfante falando sobre justiça social e prometendo que seu governo seria voltado para os que têm menos, não para “os interesses da minoria privilegiada”.

Basta comparar a Theresa May de 13 de julho de 2016 com a de hoje para ver como o poder pesa. Envelhecer dez anos em dois não é raro para quem chega ao topo.

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A máquina de envelhecimento acelerado funciona em turno duplo nas circunstâncias enfrentadas por ela, únicas na história política em suas peculiaridades.

Mas longe de ser a crise existencial de dimensões frequentemente exageradas, inclusive pela teatralidade das sessões do Parlamento britânico, com seus performáticos debates cara a cara – a uma distância um pouco maior do que o comprimento de uma espada, precaução do tempo em que adversários irados podiam se espetar literalmente.

Os golpes hoje são retóricos e foi doloroso ver o deputado trabalhista que defendeu o voto de não-confiança em Theresa May dizer que ela “provoca pena”, mas isso não basta para chefiar um governo.

Um dia depois de ver seu projeto para o Brexit ser derrotado por uma massacrante maioria de 230 votos, inclusive os 118 de seu próprio partido, Theresa May levantou-se imediatamente depois da derrota do voto de não-confiança e falou como se isso acontecesse todos os dias – o que pode vir a ser não tão absurdo assim.

Entusiasmados com o poder do império no século 19, muitos britânicos redescobriram como heroína nacional a rainha celta Boadicea, ou Boudica, líder de uma rebelião contra o domínio romano.

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Segundo a tradição histórica – legada por quem sabia escrever, pesquisas e contar, ou seja, os romanos –, a rainha viúva de um líder tribal foi vergastada em público e viu as filhas ser estupradas pelos conquistadores, em punição por contestação, e chefiou uma revolta na busca de vingança.

Alta, ruiva e com voz poderosa, segundo a descrição de Tácito, foi impiedosamente derrotada e tomou veneno ao fim da batalha final.

Muitos turistas passam pelo monumento do século 19 em que Boadicea e suas filhas avançam eternamente numa biga, bem em frente a Westminster, sem se dar conta de quem é a personagem e de que caminha para a derrota.

Ser vencido é praticamente o destino de qualquer herói. Perder com honra é considerado melhor do que ganhar com ignomínia, por este código.

Theresa May não é nenhuma heroína, está com o prestígio no chão e só não cai porque os colegas ainda não encontraram um jeito vantajoso de fazer isso.

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Não se fazer de coitadinha é um mérito em quaisquer circunstâncias. Mas não deixa de impressionar quando quem se recusa a entrar nesse jogo leva tanta paulada quanto Theresa May.

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