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Terror, glória e debates daqueles que vão nos salvar do vírus

As lições dos médicos e profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao corona e, como humanos normais, discutem os melhores meios

Por Vilma Gryzinski - 16 mar 2020, 07h48

Nunca, em gerações recentes, foi tão perigoso ser médico. E tão emocionante, desafiador e até heroico.

Existe uma outra categoria profissional, a dos operadores de mercado, que também está sofrendo – e vai sofrer mais ainda –, diante do derretimento que está tirando trilhões de dólares da economia.

Mas ficam para depois (dica: “Eu estava vomitando debaixo da mesa”, resumiu um operador americano na semana passada. O que fará esta semana?).

Primeiro, alguns números. Um levantamento do começo do mês na China, deu 3.300 profissionais de saúde contagiados.

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Treze médicos morreram, inclusive Li Wenliang, praticante de uma das especialidades consideradas mais tranquilas, a oftalmologia.

Tinha apenas 34 anos e virou um herói nas redes sociais por ter sido advertido pela polícia chamar a atenção para um tipo de pneumonia que parecia provocado por um novo vírus.

Ele e outro oftalmologista que também morreu, Mei Zhongming, trabalhavam no Hospital Central de Wuhan, a cidade onde tudo começou.

A experiência dos chineses é importantíssima porque, como precursores, foram os primeiros que tiveram que aprender fazendo.

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Inclusive detalhes aparentemente banais, mas que podem fazer a diferença entre a vida e a morte, como os cuidados na hora de tirar as máscaras e os macacões protetores, infectados depois de um dia inteiro de uso em lugares onde se concentram os casos mais graves – e as mais fortes cargas virais.

No começo, havia profissionais chineses que desmaiavam de desidratação porque não queriam tirar a proteção para tomar água.

O tsunami de coronavírus se transferiu para a Itália, onde na última sexta-feira morreu o socorrista Diego Bianco, de 47 anos, considerado a segunda vítima mais jovem da epidemia.

Um sindicato da categoria contabilizou 700 médicos, enfermeiros e socorristas infectados.

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Na quarta-feira, morreu o presidente da Associação Médica de Varese, a linha cidade de montanha da Lombardia, a região onde a população mais idosa está sendo devastada pelo vírus, com os casos ainda subindo (1.809 mortos segundo o balanço de domingo, um salto de 345 em um único dia).

Roberto Stella tinha 67 anos. Em fevereiro, quando já se formavam as dimensões assustadoras da epidemia na Itália, ele disse a um amigo que recomendou pegar mais leve: “Estamos aqui para trabalhar e lutar”.

Resumiu, em duas únicas palavras, a missão dos médicos no teatro de operações.

Aplaudidos em janelas e sacadas por moradores confinados em casa, numa das várias explosões espontâneas de patriotismo do bem, estão recebendo um reconhecimento que não tem preço.

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Desgaste, desespero e até lágrimas, diante da sensação de impotência que o excesso de doentes e a escassez de meios para atendê-los provoca, são a contrapartida.

“É impensável ver uma geração inteira de moradores de Bergamo se ir dessa maneira”, disse ao Telegraph um médico de uma das cidades os idosos estão sendo dizimados pelo vírus às dezenas por dia.

“Todos os dias, eu e meus colegas nos perguntamos até onde vamos aguentar”, resumiu Pier Eugenio Gobatto, de Cremona.

Fora das UTIs, os médicos, principalmente especialistas em infectologia e saúde pública, têm uma missão igualmente importante: informar e esclarecer.

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Vários estão se tornando celebridades pela presença constante em programas de televisão.

Como são humanos, surgem aí as disparidades de avaliação – e tentações como vaidade e até politização.

O mais conhecido, e talvez imune a isso tudo, é Anthony Fauci, o infectologista que aparece ao lado de Trump em entrevistas coletivas – e muito possivelmente nos bastidores, com um papel importantíssimo para convencer o presidente a parar de tuitar besteiras e se dar conta da gravidade da crise.

O próprio Fauci foi mudando o tom à medida em que o tsunami se aproximava.

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Começou com recomendações simples e até bem humoradas “Pense duas vezes antes de viajar e, pelo amor de Deus, não entre num navio de cruzeiro”, dizia quando havia algumas dezenas de casos nos Estados Unidos.

Ontem, avaliou: “Se parece que estamos exagerando na reação é porque estamos agindo certo”.

Entre estas reações, ele aprovou uma das mais criticadas, a de impedir viajantes da China, primeiro, e depois de toda a Europa. Vários outros países tomaram iniciativas similares, mas é claro que só Trump levou pancada.

Fauci também recomendou a quarentena nacional de 14 dias que se tornou padrão, ainda não incluída no plano americano.

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Com 79 anos, ele já viu de tudo em matéria de epidemias, incluindo a aids e ebola (foi o médico que abraçou uma enfermeira americana contaminada, depois que ela recebeu alta).

Muito menos conhecido, mas com uma experiência similar, o virologista árabe-israelense Jihad Bishara é da corrente antipânico e explica: “As pessoas estão achando que existe um vírus no ar, que vai atacar todos nós e que quem for atacado vai morrer”.

Espalha-se assim um pânico desnecessário e exagerado, segundo o médico.

“Não é assim. Ele não se espalha pelo ar. A transmissão se dá por gotículas. Nem todos os infectados vão morrer. Ao contrário, a maioria nem vai ficar sabendo”.

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Bishara disse que a desinformação e o pânico apavoram o público e criam um círculo vicioso, através dos meios de comunicação, resultado em medidas cada vez mais drásticas dos governantes.

“Estou nesse ramo há 30 anos. Passei por mers, sars, ebola, a primeira Guerra do Golfo e a Segunda Guerra do Golfo e nunca vi nada igual. Existe um pânico exagerado, precisamos acalmar as pessoas.”

“Existe uma outra força letal e ela se chama pânico”, concordou outro médico, o britânico Karol Sikora.

“As reações exageradas e a distorção de nossas prioridades podem afetar milhares de pessoas que já dependem do serviço de saúde, aquelas cujas chances de sobrevivência seriam comprometidas ou eliminadas se seu tratamento fosse interrompido.”

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Sikora é oncologista e expressa a preocupação do lado dos doentes que estão sendo ou podem ser relegados pela crise do corona.

Ele deu uma das melhores definições, para leigos, do novo agente: “O coronavírus é uma máquina minúscula e otimizada, que engolfa as células dos alvéolos pulmonares, sequestra seus mecanismos de comando e controle, mata-os e passa a vomitar mas vírus infeccioso”.

“Pessoas diferentes reagem de maneiras diferentes.”

“Até agora, apenas um em cada 20 dos infectados requer algum tipo de apoio médico”.

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Numa linha exatamente, ou extremamente, oposta, a instituição governamental Public Health England fez uma avaliação apavorante.

Segundo o documento sigiloso, divulgado pelo Guardian, a PHE disse o seguinte: “Espera-se que até 80% da população seja infectada pelo Covid-19 nos próximos doze meses e que até 15% (7,9 milhões de pessoas), possam precisar de hospitalização”.

Em sigilo, médicos do SUS britânico, o NHS, já fizeram um cálculo com base nessa projeção de infectados: 531.100 mortes.

Note-se que muitos profissionais do NHS não são nada imunes à politização e, adivinhem só, odeiam o governo de Boris Johnson.

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Repetindo, médicos são humanos, têm preferências políticas e, como todo mundo, estão no meio da crise.

No caso deles, física e literalmente no meio.

Um lugar difícil e, ao mesmo tempo, fascinante.

Fora das zonas de guerra, poucos, nas últimas décadas, remontando talvez aos últimos cem anos, tiveram esse desafio. E esse privilégio.

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O “complexo de Deus” que pode criar tanta arrogância entre médicos é eliminado em momentos assim, quando a doença ensina humildade aos que a sofrem e aos que a curam.

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