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Serão os aposentados a categoria mais egoísta do planeta?

A história das pensões começou com o romanos e, agora, está dando rolo com franceses que se aposentam aos 52 anos e os velhinhos chilenos revoltados

Por Vilma Gryzinski - 6 dez 2019, 16h26

Tirar 170 milhões de sestércios do próprio bolso, por assim dizer, foi apenas um dos gestos que contribuíram para a divinização de Augusto, Caio Otávio para os íntimos, o primeiro imperador romano.

Como todos os grandes romanos da época, ele era um populista, mas da ala que dava certo. O dinheiro foi para financiar o Erário Militar e bancar as pensões dos veteranos.

Depois de servir vinte anos nas legiões, mais cinco em atividades de retaguarda, um legionário aposentado podia ganhar um pedaço de terra – populismo, populismo , reclamavam os grandes proprietários que tinham que abrir mão do tal pedacinho – ou uma proposta interessante para colocar alguém mais generoso no poder.

A ideia da pensão paga numa bolada só – o praemium – foi mais um lance de gênio de Otávio.

O dinheiro do próprio bolso foi simbólico. O Erário seria mesmo financiando com os métodos de sempre: impostos.

Contribuiu para que, já promovido a Augusto pelo Senado, sempre louco por uma bajulação, o imperador morresse de morte morrida aos 76 anos, no mês que levava seu nome, no ano 14 da era cristã.

Mesmo com um intervalo de quase dois milênios, a ideia colou.

Quem pensaria em discordar da justiça de pagar, primeiro aos acidentados, depois aos mais idosos, um dinheirinho para manter a vida?

Principalmente se a expectativa de vida era de 48 anos para os homens e 55 para as mulheres quando as pensões pagas pelo estado foram introduzidas pela primeira vez no Reino Unido, em 1909.

A idade para a aposentadoria era 70 anos.

Individualmente, indústrias alimentadas pela Revolução Industrial já faziam seus fundos, principalmente para viúvas jovens com filhos pequenos de mortos em acidentes de trabalho, um conceito já vigente nas fileiras militares.

Nos Estados Unidos, o fôlego capitalista levou à criação do primeiro fundo privado de pensões. Foi da American Express Co., em 1875.

O trabalho exaustivo e de risco, com locomotivas alimentadas por carvão ou lenha, deu aos ferroviários franceses, organizados em sindicatos fortes, a aposentadoria precoce, aos 52 anos.

Hoje, eles estão botando para quebrar nas ruas para manter as vantagens de uma época há muito superada pelas novas tecnologias – estas aliás dispensariam até os próprios maquinistas da SNCF, a ineficiente estatal que custa 215 euros por ano a cada cidadão, mas quem tem coragem de falar isso para os franceses?

O governo de Emmanuel Macron pretende reformar não apenas o sistema dos ferroviários, sempre os mais ativos nas greves, com a capacidade de paralisar o país, como o da previdência social em geral.

Se não tivesse chamado um certo presidente de mentiroso, poderia pedir ajuda à equipe econômica dele.

Não que os técnicos franceses não saibam montar um projeto de reforma da previdência, e até escrevê-lo em algo que não seja muito parecido com babilônio antigo, mas não está fácil entender.

De qualquer maneira, os franceses captam muito bem o espírito da coisa: para manter o sistema de benefícios sociais, precisarão trabalhar mais e, em alguns casos, receber menos.

Como existe, o sistema é insustentável.

CHAMA O TARO

É claro que poucas coisas provocam reações tão figadais quanto mexer em aposentadorias e pensões.

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Quem trabalha e contribui, tem certeza absoluta que está pagando por suas garantias futuras. Nem adianta argumentar que os futuros trabalhadores é que terão que sustentar os fora da ativa.

Muitas vezes, mesmo sabendo perfeitamente bem das condições de aposentadoria, as pessoas protestam mesmo assim.

Na Grã-Bretanha, existe um grupo de mulheres – nenhum cabelo tingindo, nenhuma roupa elegante, nenhum sentimento que não seja adoração por Jeremy Corbyn – que não aceita o aumento da idade de aposentadoria feminina de 60 para 65 anos.

Pedem justiça e tratamento igual, além de alegarem não terem sido suficientemente informadas sobre as mudanças de faixa etária. Detalhe: a mudança foi anunciada em 1995.

O grupo tem uma sigla divertida, Waspi, ou Mulheres Contra a Desigualdade das Aposentadorias do Governo.

Querem, obviamente, um tratamento desigual para si próprias.

São aposentadas, ou a caminho disso, de esquerda.

Já os de direita viraram a encarnação de todos os males nacionais depois do referendo aprovando um Brexit.

Como os OAP – Old Ages Pensioners, ou aposentados por idade – votaram mais solidamente pelo Brexit, transformaram-se, na narrativa dos derrotados, de bons velhinhos em egoístas malvados, seduzidos por ilusões de soberania nacional e indiferentes ao brilhante futuro europeu de filhos e netos.

Realmente, quantas pessoas mais velhas não ligam para o que vai acontecer com filhos e netos?

Desde que Taro Aso, então ministro das Finanças, disse que a melhor coisa que os japoneses idosos deveriam fazer seria “se apressar e morrer” para não sobrecarregar o Estado com custos médicos, nunca os aposentados foram tão desprezados.

Claro que quando se alinham com ideias de esquerda, os aposentados são heróicos.

“Velhos sim, bobos não”, diziam os cartazes dos velhinhos chilenos na grande explosão de protestos que começou no fim de outubro.

Com um sistema perfeitamente lógico onde os que mais contribuem têm aposentadorias melhores, os chilenos mais pobres estavam muito prejudicados por pensões magras, bem inferiores ao salário mínimo.

Já levaram um bônus do governo.

Se alguém imagina que estão agradecidos a Sebastián Piñera, definitivamente não sabe como funciona cabeça de aposentado.

Não existem respostas fáceis para fazer justiça aos que trabalharam durante décadas – e graças aos avanços da medicina ainda têm décadas para desfrutar de benefícios que, em sua concepção, mal durariam poucos anos.

A melhor opção seria que houvesse atividades remuneradas compensadoras para todos, em ritmo compatível com a idade e a saúde.

Quem ama o que faz não quer se aposentar.

Exceto, naturalmente, se for um marajá brasileiro, desfrutando de pensões inexistentes em qualquer outro país do mundo.

Para estes, só mesmo chamando um Taro Aso.

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