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Sem Dracarys: Trump não vai incendiar o Irã, nem o mundo

Como qualquer presidente americano, ele tem que proteger o petróleo – sem o qual, afundamos todos – e discutir a relação com o regime teocrático

“Liguem para mim”, propôs Donald Trump, dirigindo-se ao governo iraniano. “Podemos fazer um acordo, um bom acordo.”

Contrastando com a cabeça fria do presidente, um bocado de gente, incluindo políticos e imprensa movidos exclusivamente a antitrumpismo irracional, tocavam o terror: “Guerra, guerra”. Ou, nas inesquecíveis palavras do diretor maluquete Michael Moore: “Esse homem vai acabar matando todos nós”.

Esse tiquinho de ironia não significa que estamos menosprezando o potencial bélico da presente situação, cujos principais elementos são:

. O Irã vive uma situação peculiar, na qual a tremenda vitória obtida através de sua intervenção militar na Síria é contrabalançada pela ruptura do acordo nuclear promovida por Trump e o aperto nas sanções econômicas. O sufoco só vai ficar pior.

. É claro que não existe um “Irã”, mas forças contraditórias e até oponentes dentro do próprio regime. Os mais radicais, em geral representados pela Guarda Revolucionária Islâmica, defendem uma saída pela força, tão bem sucedida na Síria. O raciocínio é: “Se nos boicotam, vamos detonar o petróleo deles”.

. Detonar literalmente. Qualquer tipo de ataque contra um dos produtores árabes, mesmo que usando um dos múltiplos subterfúgios habituais, afetaria ou até fecharia o Estreito de Ormuz, o funil geográfico que Alá colocou na boca do Golfo Pérsico para lembrar a seus fiéis quem é que manda nos infinitos mares de petróleo sob as areias do deserto.

Não é uma ameaça genérica ou aleatória. “Se formos impedidos de usá-lo, vamos fechar tudo. No caso de qualquer ameaça, não teremos a menor hesitação”, especificou o chefe do braço naval da Guarda Revolucionária, Alireza Tangsiri.

. Passam pelo Estreito cerca de 30% do petróleo transportado por via marítima no mundo. Se mesmo o maior produtor de energia do mundo – os Estados Unidos , um país tropical, subtropical, oceânico, alpino e subártico abençoado mais ainda do que os da tribo de Alá –, levaria um baque com a disparada do preço do petróleo, imaginem os outros. Para alguns de nós, a contagem regressiva começaria em dez, nove, oito, sete, seis…

. Preparativos para ataques iminentes a alguma instalação petrolífera da Arábia Saudita foram captados pelo Mossad, transmitidos aos Estados Unidos e traduzidos no deslocamento da força de ataque liderada pelo porta-aviões Abraham Lincoln.

.Verdade, exagero, manipulação? Talvez um pouco de tudo. Mas o bichão está chegando lá. Um porta-aviões é como uma base aérea móvel que projeta poder e corporifica o ensinamento de Sun Tzu: a verdadeira vitória consiste em obter a rendição antecipada do inimigo.

Ou, em termos mais amenos, a paz através da força, um slogan que remonta ao imperador Adriano, recuperado por Ronald Reagan e, agora, por Trump.

O Lincoln acabou de passar por uma revisão e modernizacão de sete anos. Mede 333 metros de comprimento, desloca arqueação de cem mil toneladas, é movido por dois reatores nucleares e tem poder de fogo maior do que o da maioria dos países.

Leva nove esquadrões aéreos, lançados e laçados de volta no deque de 20 mil metros quadrados. Sem contar os cruzadores e outras embarcações auxiliares que criam um escudo antimísseis e tornam piada a ameaça do turbante iraniano de que “um único míssil” afundaria o Lincoln.

É claro que pode dar um SNAFU, como dizem os militares americanos desde a Guerra da Coreia. Ou seja, o acrônimo em inglês de “Situação normal: tudo ferrado”. Principalmente se estiver envolvido um país tipo “caixa de areia” (Iraque),” tanque de areia” (Afeganistão) e correlatos.

. Finalmente: a torcida, dentro e fora dos Estados Unidos, para que Trump se dê mal e não consiga fazer um novo acordo com o Irã, envolve muito mais do que a necessária dose de realismo exigida pelas circunstâncias. A ideia é comprovar que tudo que Trump faz dá errado.

Desde Bill Clinton, todos os presidentes americanos tentam em algum momento se acertar com o Irã.

Nenhum fez mais concessões do que Barack Obama. Ele chegou a mandar aviões carregados de bilhões de dólares em dinheiro vivo (para compensar fundos bloqueados que não podiam ser liberados por lei) e assim incentivar a assinatura do acordo nuclear.

Acima de tudo, concordou que o Irã continuasse a enriquecer urânio, num grau abaixo do necessário para armas nucleares, mas que mantém a infraestrutura e permite seu redirecionamento.

Perguntado sobre o que achava dos gritos de “Morte à América” que continuaram alegremente a fazer parte do vocabulário político iraniano, Obama disse que entendia.

Obviamente, achava que a ala pró-acordo nuclear, chefiada pelo presidente Hassan Rouhani, não tinha condições de reprimir os radicais e, no fundo, no fundo, ninguém desejava a morte dos Estados Unidos.

Ah, como se iludem os grandes do mundo.

Estaria Trump caindo na mesma armadilha, a de desejar, por meios diferentes, um acordo impossível de estabilização com o Irã?

Um estudo da revista Foreign Affairs com 75 políticos e acadêmicos de dez países concluiu – surpresa, surpresa – que a tática de Trump de negociar através da força tem apenas 20% de chance de dar certo.

Vários consultados destacaram as contradições internas do governo americano: Trump quer negociar, enquanto que John Bolton, o conselheiro de Segurança Nacional, e Mike Pompeo, o secretário de Estado, querem briga.

É, evidentemente, uma tolice. Nenhum deles vai gritar “Dracarys” e tocar fogo no mundo, como fez Daeneyrs no episódio de ontem de Game of Thrones.

Muito menos à revelia do presidente, inclusive porque é fortíssima a oposição entre a direita trumpista a qualquer intervenção militar em que os americanos entram com os custos e as vidas em conflitos embaçados.

Repetindo: não vai ter uma guerra que praticamente ninguém quer.

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