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Sangue de porco tem poder: caso do general citado por Trump

Americanos usaram, sim, carcaças dos animais proibidos para muçulmanos como forma de intimidação durante a terrível guerra nas Filipinas

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 30 jul 2020, 20h47 - Publicado em 18 ago 2017, 11h35

De repente, todos os jornalistas americanos, e suas cópias em outros países, tornaram-se especialistas não só no general John J. Pershing, um herói da I Guerra Mundial, como nas minúcias de uma longínqua e quase esquecida guerra, a das Filipinas, que aconteceu entre 1899 e 1902.

Em reação tuitada ao atentado terrorista em Barcelona, Donald Trump recomendou: “Estudem o que o general Pershing dos Estados Unidos fez com terroristas capturados.”

Como ele já havia falado no mesmo caso, durante a campanha presidencial, voltou à tona uma história apócrifa sobre Black Jack Pershing, um general com cara de mau que, depois de morto, veio a batizar os mais conhecidos mísseis com ogivas nucleares dos Estados Unidos.

Segundo a história, relatada em carta por um veterano das Filipinas quase cinquenta anos depois, Pershing ainda era capitão quando foi para o país, “herdado” pelos americanos ao vencer a Espanha – juntamente com Cuba e as Ilhas Marianas, onde fica Guam, aquele lugar que Kim Jong-Un resolveu dar um tempo antes de um prometido foguetório marítimo.

Esperando a independência que não veio, muitos filipinos rebelaram-se. Uma minoria dos filipinos, da Ilha de Mindanao, é muçulmana. São os “moros”, como se diz em espanhol.

Há mais de um século existe um estado de rebelião intermitente na ilha, transmutado em movimento esquerdista quando era moda, a Frente Moro de Libertação Nacional, e agora em jihadismo à la Estado Islâmico. Costumam decapitar, quando podem, filipinos católicos e estrangeiros incautos que se arriscam nas matas de Mindanao.

PRÁTICA ESTABELECIDA

Pershing, segundo a história mencionada por Trump, mandou fuzilar 50 rebeldes muçulmanos que haviam atacado forças americanas com balas mergulhadas em sangue de porco. Mas só matou 49.

Poupou um para disseminar e, assim, tentar dissuadir outros rebeldes através do vilipêndio inominável para fiéis de uma religião que, como o judaísmo, proíbe não só comer como ter qualquer tipo de contato com o animal considerado impuro.

“E por 25 anos não houve problemas”, concluiu Trump, num salto bastante apressado.

Praticamente todos os jornalistas usaram o Politifact, um site de verificação de informações (bom, mas nem sempre confiável, como tudo nesse mundo), para concluir que o caso nunca aconteceu. O Politifact havia feito entrevistas com oito historiadores.

Na pressa inerente à profissão, ainda mais quando é para detonar Trump, talvez muitos tenham esquecido de ler a informação até o fim. Em sua biografia, Pershing menciona que o coronel Frank West mandou, pelo menos uma vez, enterrar corpos de rebeldes muçulmanos com uma carcaça de porco junto.

“Não era agradável tomar medidas assim, mas a perspectiva de ir para o inferno em vez do céu às vezes dissuadia assassinos em potencial”, escreveu Pershing.

Um veterano da mesma guerra escreveu que o próprio Pershing fazia isso. Método confirmado pelo comandante americano da época, general J. Franklin Bell, em carta a Pershing.

“Entendo que é uma prática estabelecida enterrar (rebeldes) com porcos quando matam americanos”, escreveu Bell. “Pode contar comigo para apoiá-lo nessa prática. É a única coisa que podemos fazer para desencorajar esses loucos fanáticos.”

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SUPLÍCIO DAS FORMIGAS

A guerra nas Filipinas, que foi colonial por excelência e denunciada como tal por políticos e intelectuais americanos, incluindo o escritor Mark Twain, teve aspectos especialmente perversos.

Como tomou, em muitos aspectos, a configuração de guerra de guerrilha, na selva, como viria a acontecer no Vietnã, houve abusos bárbaros contra a população civil. Entre eles, confinamento em campos de internação, fuzilamentos sumários a qualquer suspeita de colaboração com os rebeldes e outras represálias, alimentados por um sentimento de inferioridade racial em relação as filipinos.

As represálias muitas vezes aconteciam em reação a atrocidades cometidas por rebeldes. Soldados americanos capturados eram estrangulados e pendurados de cabeça para baixo em árvores, com o abdômen cuidadosamente aberto de forma a espalhar os intestinos sobre o rosto.

Pior ainda era o “suplício das formigas”. Enterrado vivo até ficar apenas com a cabeça de fora, o capturado ficava com a boca aberta à força, com um graveto. Uma trilha de açúcar atraía as formigas.

As Filipinas só conseguiram a independência depois da II Guerra Mundial. A insurgência em Mindanao continua. Depois de um ataque em abril, Rodrigo Duterte, o presidente mais desbocado e descontrolado do mundo, ameaçou: “Eles são animais. Mas eu posso ser cinquenta vezes pior.”

“Tragam um terrorista para mim. Com sal e vinagre, posso comer o fígado dele. Posso mesmo.”

FAKE NEWS

O uso, voluntário, involuntário ou imaginário , de animais incluídos em dogmas religiosos tem uma longa história. Uma das mais conhecidas é a da Revolta dos Cipaios, os indianos recrutados como tropa para servir às forças coloniais britânicas.

Havia muitos motivos para uma rebelião anti-colonial, mas o gatilho, sem trocadilhos, dos levantes de 1857 foi uma onda de fake news. Os cipaios acreditaram no boato de que os cartuchos de um novo modelo do mosquetão Enfield eram envoltos em gordura de porco ou sebo de boi.

Para usar o Enfield, era preciso morder fora a tampa do cartucho de papelão, colocar a carga de pólvora no cano, acomodar a bala e socar tudo.

O cartucho era impermeabilizado com cera de abelha e sebo de carneiro, mas o boato de que tinha outro tipo de gordura animal revoltou os cipaios.

Para os hinduístas, que veneram as vacas como animais sagrados, o contato com sebo bovino faria imediatamente com que fossem excluídos do sistema de castas. Tornavam-se, assim, literalmente párias. Para os muçulmanos, o porco é haram, completamente proibido.

Todos viam no cartucho proibidão uma sórdida manobra dos ingleses para conspurcá-los ou levá-los a se converter ao cristianismo. Para variar, houve atrocidades hediondas dos dois lados.

“A cada guerra, existe a tendência a proclamar como algo novo os princípios sob os quais eram foi conduzida”, escreveu o general Pershing, que deu início à nossa história. “Não apenas os que nunca estudaram ou viveram as realidades da guerra, mas também muitos militares profissionais caem frequentemente nesse erro. Mas os princípios da guerra, tal como os estudei em West Point, permanecem imutáveis.”

Black Jack Pershing, que além dos mísseis nucleares também deu nome a uma avenida em Paris e inúmeras instituições nos Estados Unidos, foi o primeiro general de quatro estrelas dos Estados Unidos. Recebeu muitas críticas pela tática de ataques frontais, uma das formas mais eficientes de matar os próprios soldados, muito usada na I Guerra Mundial.

Será que os monumentos que o homenageiam vão ficar de pé na atual onda revisionista nos Estados Unidos? Ser citado por Trump, de forma não totalmente certa nem totalmente errada, não ajuda muito.

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