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Sabe quem é ‘Karen’? Veja no novo dicionário politicamente correto

O nome próprio usado para designar - e ofender - mulheres brancas cheias de si é uma das novidades do jargão que acompanha os tempos atuais

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 20 jul 2020, 14h05 - Publicado em 20 jul 2020, 08h58

“Ei, Karen. Segura a língua”. Assim a prefeita de Chicago, Lori Lightfoot, respondeu à porta-voz presidencial Kayleigh McEnany.

Como aconteceu no Brasil muitos anos atrás com a palavra “patricinha” para designar uma garota rica mimada, uma “karen” nos Estados Unidos define mulher branca, de classe média alta, arrogante e mandona.

Uma ofensa, portanto. E agora frequentemente usada quando brancas e negros têm uma discussão.

A loira Kayleigh, sempre maquiada, penteada e produzida ao estilo preferido pelo patrão, Donald Trump, e a negra Lori, sobre a qual ninguém diria que se preocupa com aparência, sempre vestida com roupas extraordinariamente parecidas com ternos e casada com uma mulher (branca), não poderiam encarnar melhor os estereótipos.

A prefeita se arrepiou quando a porta-voz disse que o governo municipal de Chicago pode ser enquadrado em descumprimento de dever funcional por não aceitar ajuda federal para controlar a situação de criminalidade galopante na cidade.

“Karen” já está no dicionário urbano há um bom tempo, mas ganhou novo destaque com a mais recente onda de protestos raciais.

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A seguir, outros termos e acrônimos em voga no dicionário politicamente correto, alguns no inglês original para facilitar a comunicação e outros em português.

BLM – praticamente todo mundo já sabe que designa o Black Lives Matter, tanto a organização específica que assumiu o comando dos protestos depois da morte de George Floyd quanto o sentimento difuso de que é preciso valorizar a vida dos negros.

Outro acrônimo idêntico identifica o slogan Blue Lives Matter, a valorização da vida de policiais, que nos Estados Unidos sempre usam uniformes azuis.

Confundir uma coisa com outra pode acabar numa encrenca enorme.

ALM – esse ainda é mais complicado. Dizer que “All Lives Matter”, ”todas as vidas são importantes” equivale, no mundo cada vez mais orweliano do momento, a uma manifestação de racismo.

A Miss Swimsuit do Reino Unido, Jasmine Archer-Jones, perdeu o título, embora não a oportunidade de se fotografar de maiôs e biquínis, ao fazer a seguinte declaração:

“Isso é ridículo. Tem que acabar. Todas as vidas são importantes. Se você olhar a fundo as estatísticas, mais pessoas brancas do que negras foram mortas no ano passado”.

Ela está certa, mas quem quer saber de estatística no atual ambiente de alta toxicidade?

FTP, Acab, F12, 1312 – todas estas pixações reproduziram-se rapidamente durante os protestos violentos que seguiram à morte de Floyd por um policial branco.

Significam basicamente a mesma coisa: todos os policiais devem se danar. O verbo usado, obviamente, é outro.

As letras usadas em Acab (“All cops are bastards”), são representadas por números equivalentes a sua ordem no alfabeto em “1312”. 

Este último virou tendência no TikTok.

Os mais velhos (”supremacistas brancos” e “karens” se forem do tom de pele errado) sentirão um pouco de saudade do “Seja realista, exija o impossível” e outras pixações um pouco mais elaboradas do Maio de 1968 na França.

Fragilidade branca expressão inventada em 2011 pela professora universitária Robin DiAngelo para designar o que ela considera recursos patéticos de pessoas brancas quando dizem , veementemente, não se importar com a cor da pele de quem quer que seja.

Discussões sobre racismo provocam “raiva, medo e culpa”, apontando assim para a fragilidade emocional, e possivelmente moral, dos brancos que não aceitam ser sistemicamente racistas.

E não batem no peito e se ajoelham para confessar pecados imaginários.

O argumento é ruim por dois motivos.

Primeiro, peca pela falta de consistência e coerência ao incidir em falsa atribuição de uma culpa indiscriminada e coletiva.

Segundo, alimenta os racistas de verdade e ativos, aqueles  que pescam nas águas turvas dos que se sentem ignorados ou humilhados por esse tipo de atribuição de culpa.

Racismo sistêmico ou estrutural – o praticado pelos portadores de preconceitos acima descritos, segundo a interpretação dominante nos círculos universitários de elite.

Recentemente foi revelada uma inacreditável lista de indícios de supremacia branca que seriam estudadas num curso de inclusão administrado pelo Exército americano.

Entre elas: comemorar o dia de Cristóvão Colombo (derrubado da praça pública em vários atos recentes de vandalismo), o slogan Make America Great Again, mascotes racistas (de times esportivos), presumir que boas intenções ajudam em alguma coisa, excepcionalismo americano (nessa, até Barack Obama cairia), currículo eurocêntrico, mito da meritocracia, dizer que só existe uma raça, a humana, e por aí vai.

O Exército alegou que o e-mail tinha circulado sem permissão e não tinha validade. O estrago já estava feito.

Homens Brancos Mortos – todos os grandes escritores de língua inglesa, de Shakespeare e Chaucer aos contemporâneos. Fora a ampla gama de gregos e romanos que, pela distância histórica, não se qualificam como não-brancos. 

Incluir no “currículo eurocêntrico” mulheres e pessoas de outros escritores de etnias variadas, como aconteceu em Harvard e Oxford, não basta.

Todos têm que ser expurgados. E assim acontece.

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Exemplos da vida real: o curador de pinturas e esculturas do Museu de Arte Moderna de São Francisco, Gary Garrels, pediu demissão depois de um abaixo-assinado exigindo que fosse despedido, por um gravíssimo “crime”.

Disse que artistas brancos continuariam a ser selecionados para o museu e que uma exclusão total deles implicaria em “racismo em sentido inverso”.

Incidiu, claro, na categoria “supremacista branco”.

Na Inglaterra, a tradicionalíssima editora Penguin Random House anunciou que passará a publicar apenas autores que reflitam a composição populacional britânica pelos critérios de “etnicidade, gênero, sexualidade, mobilidade social e deficiências”.

Publicar escritores bons deixa, assim, de ser o objetivo da editora.

Teoria Crítica das Raças – conjunto de afirmações o que justificam atitudes como as acima descritas. 

Está sendo disseminada até em cursos ministrados a instituições americanas do setor financeiro como o Fed, ou banco central, o Departamento do Tesouro, o Serviço de Proteção ao Consumidor e outras.

Primeiro preceito: “Todas as pessoas brancas são virtualmente racistas”.

Os responsáveis em posições de chefia devem criar “espaços seguros” para que funcionários das minorias expliquem “o que significa ser negro”.

Durante essas sessões, os funcionários brancos não devem manifestar seus sentimentos ou suas impressões.

Exemplo da vida real: David Shor, cientista político que trabalhava com a consultoria democrata Civic Analytics, retuitou estudo de um pesquisador de Princeton analisando como protestos pacíficos conseguiam mais resultados do que os violentos.

Seu objetivo era mostrar como as demandas progressistas das manifestações do BLM e similares seriam mais produtivas. 

Ou seja, estava tentando colaborar para a aprovação de políticas que combatam a violência racial como terrivelmente retratada na morte de George Floyd.

Foi acusado de usar sua “fragilidade” e seu “intelecto” como “veículos para a antinegritude”.

Acabou sumariamente demitido.

Liberdade de expressão um conceito antiquado que aparece na constituição americana, escrita no século 18 por homens brancos mortos, incluindo senhores de escravos que merecem ser julgados pelos padrões contemporâneos e riscados, derrubados ou apagados da história.

Em seu lugar, entram os “espaços seguros”, os ambientes onde estudantes podem ter certeza que suas certezas jamais serão confrontadas por ideias opostas, sofrendo com isso “microagressões”.

E nas as expressões entre aspas constavam do antigo dicionário politicamente correto e continuam valendo para a edição atual.

Goya não é o prodigioso artista espanhol, mas a marca de um feijão enlatado. 

Seu proprietário, de origem mexicana, Robert Unanue, participou recentemente do encontro empresarial na Casa Branca, por ocasião da visita do presidente Andrés Manuel López Obrador .

Cometeu o gravíssimo crime de elogiar Trump. Imediatamente começou uma campanha Goyaaway.

Ivanka Trump publicou uma foto dela com a lata de feijão da marca e o slogan: em inglese e espanhol: “If it’s Goya, it has to be good”, e em “Si es Goya, tiene que ser bueno”.

Está sendo ameaçada de processo por uso indevido do cargo de assessora não remunerada do pai.

E agora os cidadãos de origem mexicana que apoiam Trump , os goyas, têm mais uma ofensa a suportar.

TERF Acrônimo em inglês de “Feminista Radical Trans Excludente”.

Ou, em outras palavras, JK Rowling, a mais recente acusada dessa prática.

A autora de Harry Potter entrou na categoria por ter defendido que abrigos para mulheres agredidas não acolhessem transexuais indiscriminadamente, incluindo os que não fizeram mudanças hormonais e outras.

Ela ressaltou com o destaque devido que entendia e se solidarizava com os preconceitos e sofrimentos infligidos aos trans.

Foi massacrada nas redes, experimentando em dose cavalar o veneno progressista que administrava regularmente em suas contas com 13 milhões de seguidores.

Detalhe: existem realmente militantes TERF, feministas que contestam a igualdade plena entre mulheres biológicas e mulheres trans, com base na argumentação de que a mudança de gênero não substitui o amplo leque de vivências biológicas e sociais femininas.

Formam um grupo bem  pequeno na Inglaterra. Em suas manifestações, são regularmente espancadas por mulheres trans que mudaram de gênero, mas não de musculatura.

Nenhuma “Karen” apareceu nesses episódios, nem de um lado nem de outro.

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