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Rojão para a presidente boliviana: “blanquita” contra “índios”

As tensões étnicas, difíceis de entender para quem é de fora, são componente explosivo para governo interino que caiu no colo de uma senadora desconhecida

Quem é branco, quem é mestiço e quem é indígena na Bolívia?

No Brasil, com o adicional do grande ramo africano, as fronteiras são mais fluídas e as proporções mais distribuídas. .

Mas não é difícil colocar a presidente interina boliviana, Jeanine Áñez, na nossa paisagem humana. 

De traços evidentemente miscigenados, ela é uma mulher bonita de 52 anos com todos os acessórios de aprimoramento estético que se pode “comprar na clínica”, como brincam tantas adeptas que podem bancar os custos.

Dentes perfeitamente alinhados, cabelos  longos e aloirados, sobrancelhas impossivelmente arqueadas, entre outros atributos. 

Fora a maquiagem extensa,  incluindo cílios postiços no meio de uma crise que deixaria muita gente sem tempo nem cabeça sequer para se olhar no espelho.

Jennifer Lopez poderia interpretá-la, numa versão aumentada da realidade.

Na Bolívia, a presidente que assumiu no vácuo deixado pelo dominó de renúncias, terminando em Evo Morales, é uma “blanquita”. 

E isso é uma das muitas encrencas que caíram no colo de Jeanine, senadora por Beni, o estado amazônico que faz fronteira com a Rondônia. 

Até então, era conhecida por defender causas como o combate à violência contra a mulher. É também uma católica tradicional, não daquelas que dão crucifixo com foice e martelo para o papa como fez Evo com um deslumbrado Francisco. 

Levar uma Bíblia para prestar seu  juramento presidencial, para um mandato precário mesmo em sua interinidade, foi considerado praticamente um ato fascista pela esquerda.

Catolicismo aceitável e até desejável, desse ponto de vista ideológico, é o que venera a Pachamama, como fez o argentino Francisco.

As tensões entre religião tal como era ensinada pela Igreja e os ritos indígenas, passando por todo o sincretismo intermediário, também indicam a oposição entre “blancos” e “índios”.

A ascensão e a permanência no poder de Evo foram construídas, em grande parte, sobre a imagem de defensor dos povos nativos, na maioria aimarás como ele, além de quíchuas e outros, num mosaico de 36 etnias.

Evo refundou – ah, palavrinha – o país como Estado Plurinacional da Bolívia e adotou uma bandeira adicional, a dos quadrados em diagonal com as cores do arco-íris, chamada Wiphala.

É esta bandeira, com seu design elegante remontando à era pré-colombiana, que aparece nas manifestações contra o novo governo, entre gritos de guerra civil e de furor contra os “blancos”.

Cenas que circularam pelas redes sociais de policiais cortando a Wiphala das insígnias nas fardas, deixando apenas a bandeira tradicional, insuflaram a fúria dos protestos que inverteram a onda: manifestações enormes contra Evo deram lugar ao movimento oposto, com mais de 20 mortos, na soma dos atos, e bloqueio total de cidades importantes..

Quando Evo foi eleito, em 2006, o escritor Mario Vargas Llosa usou nada menos que a expressão “novo racismo, o de índios contra brancos” para definir a onda bolivariana que se expandia pela Bolívia, a Venezuela chavista e o Peru onde assomava Ollanta Humala, também envolto na bandeira indigenista.

Vargas Llosa havia conhecido diretamente o assunto durante sua campana a presidente, em 1990. Orgulho nacional e voz iluminada da razão, foi derrotado por um quase desconhecido chamado Alberto Fujimori. 

CAUDILHOS BÁRBAROS

“El Chino”, como era chamado o engenheiro agrícola descendente de japoneses, explorou bem ressentimentos dos “cobrizos andinos” contra a elite branca. Tradução: o escritor que depois ganharia o Nobel de Literatura.

“Até há não muitos anos, parecia um axioma que o racismo era uma tara perigosa, que deveria ser combatida sem contemplações, porque as ideias de raças puras, ou de raças superiores e inferiores, haviam mostrado com o nazismo as apocalíptica consequência que esses estereótipos ideológicos podiam provocar”, escreveu Vargas Llosa.

“Mas, de um tempo para cá, graças a personagens como o venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales e a família Humala no Peru, o racismo ganhou de novo protagonismo e respeitabilidade, e fomentado e abençoado por um setor irresponsável da esquerda, se transformou num valor, num fator que serve para determinar a bondade e a maldade das pessoas, ou seja, sua correção ou incorreção política.”

Eram os novos “caudijhos bárbaros”, acrescentou, numa referência ao livro do historiador Alcides Arguedas sobre a formidável coleção de ditadores broncos, quando não delirantes, que inauguraram no século XIX a tradição lamentável de golpes, responsável por transformar a Bolívia na campeã mundial da categoria. 

Foram 190 golpes, quarteladas e revoluções em 191 anos de história republicana. Motivo mais do que suficiente para Jeanine Áñez nem tirar os cílios postiços quando vai dormir.

O mais brutal e alucinado desses caudilhos foi Mariano Melgarejo, filho não reconhecido de um espanhol e uma indígena – uma das muitas ironias da unção de Evo Morales como o primeiro presidente autenticamente nativo da Bolívia, como se todos os outros tivessem sido puros arianos.

O episódio anedótico mais conhecido de Melgarejo foi sua reação à guerra franco-prussiana de 1871. 

Empenhado em “salvar Paris”, cuja fama de centro mundial da elegância conhecia, embora não conseguisse localizar a Franca num mapa, inclusive porque não sabia ler, chamou um general para comandar uma tropa que pretendia enviar para ajudar os franceses.

O general argumentou que seria impossível atravessar o Atlântico e ouviu: “Não seja burro, pegaremos um atalho”.

No começo de seu surreal governo, foi chamado para uma conversa no Palácio Quemado com um ex-presidente, Manuel Izidoro Belzú, que havia voltado para a Bolívia à frente de um movimento de resistência e retomado o controle de parte do país.

Uma multidão favorável a Belzú começou a se juntar em frente ao palácio. Lá dento, Melgarejo já havia rapidamente despachado o rival para o além. 

Diz a lenda que quando a multidão começou a dar vivas a Belzú, Melgarado levou o corpo ainda quente até o balcão do palácio e provocou: “Belzú está morto. Quem vive agora?”

“Viva Melgarejo”, respondeu o populacho.

Diz a lenda também que Melgarejo entregou o Acre ao Brasil, seduzido por um cavalo branco que ganhou do embaixador brasileiro.

É fake news histórica. Foi José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão de Rio Branco, o futuro patrono do Itamaraty, que negociou o acordo, precipitado pelos brasileiros que ocupavam o território amazônico e se rebelavam contra a autoridade boliviana.

O cavalo foi um presente dado depois do acordo, que envolveu pequenas concessões territoriais e pagamentos em dinheiro mais altos.

A perda do Acre para o Brasil e, principalmente, a do corredor territorial que dava uma saída ao Pacífico através do Chile ainda são traumas nacionais. 

Folcloricamente, para quem está de fora, mas como uma questão de honra nacional para quem está dentro, a Bolívia mantém uma Marinha e um comandante da Marinha, embora não tenha mar.

A “resistência” masista – referência ao MAS, o partido de Evo Morales, Movimento para o Socialismo – se concentra em Cochabamba, a base do ex-presidente, e em Al Alto, a cidade interligada e ao mesmo tempo separada de La Paz.

Um estudo do acadêmico Rafael Loyada, da Universidade Católica de La Paz, citado pelo jornal El País, mostra que nos “fundões” de El Alto, 90% dos habitantes se identificam como aimaras. Em determinadas áreas de La Paz, 90% não se identificam com nenhuma etnia.

Como um espelho praticamente perfeito, essas categorias definiam quem é a favor e quem é contra Evo Morales.

Como a vida é mais complicada, as manifestações arrasadoras que levaram à renúncia de Evo, depois que militares e policiais se aquartelaram, tiveram participação de indígenas, especialmente jovens.

A própria prefeita de El Alto é de um partido de oposição ao MAS.

O que vai acontecer com a Bolívia é um enigma. 

A AMANTE DO PRESIDENTE

Com sua história de golpismo crônico e de horrenda escravização dos aimaras, uma “tradição” que começou com o império inca e foi ressuscitada pelos colonizadores espanhóis, quando o apelo das montanhas de prata foi maior que os princípios morais e religiosos, a Bolívia tem complicadores diferentes dos brasileiros.

Evo Morales governou num período de estabilidade, mas se deixou contaminar por um dos mais poderosos vícios, o da embriaguez pelo poder.

Nascido num casebre paupérrimo, foi uma inspiração para nativos, mestiços e “blancos” quando chegou ao governo, com roupas típicas, sapatos de mineiro e um espanhol perfeito, além de habilíssimo no manejo do jogo duplo verbal.

Agora no México, continua a explorar essa habilidade, falando cordatamente em paz e conciliação e ao mesmo tempo em resistência e guerra civil.

Está “hospedado” em lugar desconhecido, proporcionado e pesadamente guardado pelo governo mexicano, mas dá entrevistas sem parar.

Sempre em companhia da bela e superesquerdista Gabriela Montaño, a médica que foi presidente do Senado e da Câmara.

Gabriela era ministra a Saúde quando renunciou, com Evo e todo alto escalão de seu governo e do Congresso. Abriu-se assim o caminho para a posse de Jeanine Áñez, que ocupava a desimportante segunda vice-presidência do Senado.

Por uma incrível coincidência, a ex-ministra é quase uma xará de Gabriela Zapata Montaño. Ex-namorada de Evo depois de passar por um “make over” que incluiu várias cirurgias plásticas e uma longa cabeleira platinada, num típico processo de “branqueamento”, Gabriela se comportava como “primeira-dama”. 

Entrava em qualquer prédio público que quisesse, munida de uma certidão de nascimento do “filho do presidente”, uma história até hoje mal contada.

Um bebê realmente foi registrado tendo Gabriela e Evo como pais e o inconfundível nome de Ernesto Fidel. Quando escândalo estourou, Evo, “casado com a Bolívia” como todo bom caudilho, disse que realmente tinha tido um filhinho, mas a criança havia morrido.

É possível que Gabriela Zapata tenha usado um bebê da família para uma impostura. 

Em 2017, ela foi condenada a dez anos de prisão, por corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, falsidade ideológica, uso de documentos falsificados, vantagens ilegítimas e uso indevido de bens e serviços públicos.

Seu patrimônio era incompatível com o cargo de gerente comercial de uma grande construtora chinesa.

O ser humano não falha, seja lá qual for o DNA ou o tom de pele.

Comentários
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  1. Paulo Bandarra

    A ilusão pelo fim do racismo.

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