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Regime cubano consegue sufocar manifestação, mas não as vozes

Os gritos de “liberdade” e “Abaixo a ditadura comunista” são um testemunho de que o espírito de resistência está vivo e ativo

Por Vilma Gryzinski 16 nov 2021, 07h54

“A partir do decreto-lei 35, os cubanos não poderão falar nem bem nem mal do governo. Mal é desprestígio e bem é fake news”.

O senso de humor dos cubanos, praticamente a única válvula de escape na vida de um regime que controla tudo, sobrevive. O decreto número 35 foi baixado em agosto para apertar mais esses controles, principalmente nas redes sociais. Tem até uma cláusula sobre posts que possam prejudicar o “prestígio do país” – categoria que inclui praticamente tudo.

Não funcionou, embora as manifestações pacíficas de ontem estado muito longe das  proporções que tanto assustaram a cúpula comunista, em julho.

Surpreendido pelas dimensões e a disseminação dos protestos de quatro meses atrás, o regime se preparou com todos os recursos das ditaduras, desde a tática da inundação – forrar os pontos principais de Havana com policiais antidistúrbios com equipamentos que muitos cubanos nunca tinham sequer visto antes de julho -, até os métodos mal disfarçados com uma mãozinha de tinta, para dar a impressão de que existe uma reação popular de apoio ao sistema.

O mais visado de todos, nada surpreendentemente, foi Yunior García, o ator e dramaturgo de 39 anos que emergiu como a liderança mais visível de um movimento bem horizontalizado de reivindicação de liberdades democráticas ancorado na plataforma Arquipélago.

A casa muito modesta onde mora foi ontem cercado por “populares”, as brigadas populares do regime. As janelas cobertas por grandes bandeiras cubanas deixaram entrever García, atrás de persianas, com um cartaz escrito à mão: “Minha casa está bloqueada”.

Desmoralizar García virou um projeto existencial para o regime, que encomendou um vídeo para retratá-lo como um “operador” a serviço dos Estados Unidos. Como ocupa todos os espaços da comunicação pública, exceto pelas incontroláveis redes sociais, o regime cubano provavelmente acha que fez um bom serviço, uma obra de propaganda que os antigos mestres soviéticos da inteligência cubana aprovariam.

“Que coisa ridícula esse vídeo, 62 anos enganando o povo cubado com mentiras deslavadas”, foi uma das reações provocadas pela peça de contrainformação.

Ser classificado de ridículo é talvez a maior das ofensas. Com um único adjetivo, o leitor que fez esse comentário simplesmente desmoralizou o monumento erguido pelo regime.

E o monumento é baseado no princípio de que todos os opositores são contrarrevolucionários, operadores a serviço dos Estados Unidos, cooptados por organizações “neoliberais”, vendidos,  traidores. Um desses centros irradiadores de maldades, segundo os donos do poder, é a Universidade de Saint Louis, uma instituição jesuíta – como o papa Francisco, tão sensível ao regime cubano, tão insensível aos cubanos que penam sob seu jugo.

Yunior García participou em 2019 de um evento da Saint Louis em Madri, com a presença do perigosíssimo Felipe González, o primeiro-ministro socialista da época da transição da Espanha para a democracia.

Para comprovar a natureza pérfida do debate, o regime deu um tiro no pé: mostrou o depoimento de um dos dois agentes de segurança enviados para seguir García em suas atividades na Espanha. O agente “Fernando” , nome verdadeiro Carlos Leonardo Vásquez, aparece no tal vídeo  afirmando que no seminário foi discutido o papel das Forças Armadas em processos de transição. Uau, a coisa deve ter sido perigosa mesmo.

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A pergunta para a qual todos, à esquerda e à direita, querem uma resposta clara, obviamente não a tem.

Qual a capacidade de mudança que  essa nova dissidência traz em relação a um regime que detém todos os instrumentos do poder e sabe que não existe algo como uma abertura democrática parcial?

Um dos mais batidos argumentos dos  conservadores é que ditaduras de direita caem, mas as de esquerda se eternizam. O desmoronamento do bloco soviético comprovou o lado fraco dessa tese, mas a capacidade de resistência do autoritarismo de esquerda é notória.

Tal como está hoje a situação, a fortaleza criada por Fidel Castro parece inexpugnável. As condenações a penas pesadas de manifestantes que simplesmente foram às ruas no 11 de julho com toscos cartazes escritos à mão (um exemplo comovente: “Era tanta a forme que comemos o medo”) cumpriu seu papel de intimidação..

Muitos cubanos comuns, submetidos literalmente a um regime de fome, desconfiam da doutrinação oficial, mas também não se arriscam a pegar dois ou três anos de cadeia por se manifestar contra esta situação insuportável.

A verdade é que sempre dá para suportar mais um pouco quando a alternativa é uma repressão impiedosa. O fenômeno da nova dissidência,  no entanto, foi criado e está implantando.

As redes sociais criaram um espaço que não existia, conectando pessoas e dando vazão a expressões que mal eram sussurradas.

“O governo cubano perdeu o monopólio na criação de mensagens hegemônicas”, escreveu no site La Jovem Cuba a historiadora Alina Bárbara López Hernández. “Novos agentes políticos podem se comunicar diretamente com os cidadãos”.

Com pedaços de pau e bastões de beisebol na mão, a “tropa” civil do regime foi para as ruas, o acesso à internet foi cortado, líderes como Junior García e outros viram-se sitiados em sua próprias casas.

“Queremos liberdade”, gritaram pessoas que pretendiam participar da Marcha Cívica pela Mudança e depararam com os cordões humanos que os impediam de se locomover.

Em outra cena, filmada à distância, uma van para numa rua da cidade de Holguin e arrasta manifestantes para o veículo. Vozes desesperadas – e também desafiadoras – de homens e mulheres gritam: “Abaixo a ditadura comunista”.

“Abaixo a ditadura”. Como qualquer pessoa que tenha ouvido isso em outros países pode não se solidarizar com este brado?

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