Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Quem ganhou e quem perdeu mais no conflito entre Israel e Hamas?

Com a proximidade de um cessar-fogo dos ataques mútuos, as contas já começam a ser feitas e nem sempre são o que parecem ser

Por Vilma Gryzinski 20 Maio 2021, 08h34

Se os céus ajudarem, haverá um cessar-fogo na fase atual do conflito entre Israel e Hamas. O que dá para ser avaliado até agora:

1- Israel ganha no campo de batalha e perde a guerra da opinião pública. É um fato da vida. Tem sido assim há muitos anos e não vai mudar agora.

Torcer contra Israel virou moda, entre outros meios, no TikTok – um aviso para os israelenses, tão hábeis no mundo digital, que precisam ficar mais ligados.

2- As Forças de Defesa de Israel tiveram entre seus objetivos táticos e estratégicos decapitar a liderança dos grupos armados em Gaza, desmantelar pelo menos uma parte da rede de túneis de uso militar que se entrecruzam no território e garantir alguns anos de trégua. Foram objetivos apenas parcialmente alcançados.

Dos mais de 220 mortos em Gaza, os militares israelenses dizem que 120 eram combatentes do Hamas e 35 da Jihad Islâmica Palestina. É impossível confirmar estes números, mas as perdas foram pesadas.

Pelo menos cinco líderes do alto escalão tiveram suas casas bombardeadas – e sem aviso prévio, como Israel faz em outros ataques a edificações.

3- Mas o alvo mais procurado escapou. Israel tentou pelo menos duas vezes, na semana passada, eliminar o mais importante comandante da ala militar do Hamas, Mohammed Deif. Sem sucesso.

Quanto mais sobrevive, mais ele se torna uma figura legendária. Em ataques anteriores ao conflito atual, Deif perdeu um olho e os movimentos das pernas e de um braço. Também perdeu uma esposa e dois filhos pequenos.

Quando explodiram os choques entre palestinos e policiais israelenses na Esplanada das Mesquitas, os manifestantes gritavam: “Deif, exploda Telavive”.

Bem que ele gostaria, mas não tem os meios. Por enquanto, só o fato de continuar vivo o torna um vencedor.

4- “Explodir Telavive” e outras cidades onde os israelenses judeus são maioria, ou pelo menos inflingir danos maiores,  seria mais fácil se Israel não tivesse a Cúpula de Ferro, as baterias de mísseis que calculam onde os foguetes disparados de Gaza vão cair e, se a trajetória indicar um lugar habitado, os interceptam no ar.

Com 90% de acerto – o que explica o fato de que mais de quatro mil ataques com projéteis terem provocado o lamentável, mas reduzido número de doze mortes -, os mísseis são uma defesa cara. Cada bateria – composta por um caminhão com o lançador, outro com o sistema de radar e um terceiro com a estação de comando, cobrindo uma área de 60 quilômetros quadrados – custa 50 milhões de dólares. Israel tem dez baterias. O custo por míssil é 40 mil dólares. 

É claro que proteger a população e a infraestrutura nacional não tem preço.

A Cúpula de Ferro é também uma garantia de que o conflito não se torne uma guerra total. Caso os militantes islâmicos matassem dezenas de israelenses por dia, seria inevitável que Israel lançasse uma invasão por terra de dimensões muito maiores do que tudo o que foi visto até agora, com um índice aterrador de mortes e destruição.

Dessa maneira, o bem sucedido sistema de defesa também garante, estranhamente, a sobrevivência do Hamas em Gaza.

Continua após a publicidade

5- Vários analistas dão o Hamas como vencedor numa esfera vital: a opinião pública dos palestinos, tanto os moradores dos territórios ocupados como os que têm cidadania israelense.

O perdedor, obviamente, é Mahmud Abbas, o presidente quase vitalício da Autoridade Palestina, mais uma vez desautorizado pelos fatos e reduzido a um papel irrelevante.

Numa das muitas ironias desse conflito, Abbas, que está com 85 anos e sem nenhuma vontade de largar do poder – cancelou a eleição que haveria agora em maio, a primeira desde 2005 -, está sendo punido por ser, comparativamente, uma força moderada.

Árabes-israelenses atacaram vizinhos judeus em cidades onde havia uma convivência relativamente equilibrada, como Lod, e fizeram carreatas com bandeiras do Hamas. 

É um desdobramento no qual Israel tem muita coisa a perder, no curto, médio e longo prazos.

6- No prazo curtíssimo, Benjamin Netanyahu saiu ganhando. Uma coalizão de oposição estava a 24 horas de firmar um acordo que o tiraria do governo quando começaram os bombardeios.

Foi tudo suspenso e o primeiro-ministro passou a negociar, para trazer para seu lado, com um dos partidos que antes estava fechando com a frente oposicionista.

Em momentos de crise, Bibi sempre se sai bem: demonstra liderança e firmeza, exibe uma unidade inabalável entre governo e establishment militar, toma decisões tendo em vista a defesa da nação e não seus interesses pessoais.

Tudo isso, obviamente, se esvai assim que a guerra acaba e a política volta para o estado de conflagração que já dura anos, alimentado pela indefinição eleitoral que não dá a nenhum dos possíveis blocos maioria para formar um governo.

7- O Irã também sai como vencedor. Conseguiu reconstituir os arsenais do Hamas em níveis que surpreenderam até o comando israelense, geralmente amparados por volumes avassaladores de inteligência sobre o inimigo – muitas críticas já estão rolando nesse meio, antes mesmo da suspensão das hostilidades.

Os mísseis iranianos não são nenhuma maravilha tecnológica, mas têm quantidade suficiente para intimidar a população e funcionar, também, como arma de propaganda. Num dos piores ataques, o Hamas disparou 130 mísseis contra Telavive e imediações em questão de minutos. 

O papel incendiário do Irã, sobejamente conhecido, não abalou o governo de Joe Biden, disposto a fazer concessões para conseguir reconstituir o acordo que procura limitar, sem muitas garantias, o desenvolvimento de armas nucleares iranianas.

O próprio Biden apoiou, com razão, o direito de Israel a se defender e responder a ataques indiscriminados contra a população civil, manteve a “muralha americana” na ONU e resistiu à ala mais de esquerda do Partido Democrata que queria sangrar Israel. Sem grande estardalhaço, pressionou Netanyahu a aceitar um cessar-fogo. 

Não teve uma atuação decisiva, longe disso, mas poderia ter sido pior.

A quarta guerra de Gaza será lembrada pelas cenas impressionantes mostrando as salvas de foguetes disparadas pelos militantes islâmicos e os mísseis da Cúpula de Ferro interceptando-os no céu noturno. 

Parecem ficctícias, como num game, mas a realidade é triste e brutal. E está fadada a se repetir. Nesse sentido, as expectativas de uma solução de amplo alcance do conflito palestino-israelense são as maiores perdedoras.

Continua após a publicidade
Publicidade