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Quem assume na era do vírus? Até monarquia tem problemas

Garantir a continuidade institucional é vital em tempos de grande perigo e potencial caos que afetam desde a sucessão na Inglaterra até a potência americana

Por Vilma Gryzinski - 22 mar 2020, 08h30

“Minha família e eu estamos prontos para fazer nossa parte”, disse a rainha Elizabeth num comunicado à nação.

E desapareceu: ela tem quase 94 anos e o filho e sucessor, 71. Estão ambos no grupo de risco. Portanto, em isolamento.

Para complicar, Charles esteve em contato com Albert de Monaco, o príncipe reinante que se tornou a primeira cabeça coroada com o corona.

Os isolados ficam sem poder exercer um dos papéis mais importantes da monarquia: o de confortar a população, visitar vítimas de grandes tragédias e representar, ostensivamente, a continuidade de uma  instituição feita, sobretudo, de simbolismo.

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Sobra, claro, William. Ele e a mulher, Kate, visitaram um telecentro de atendimento a suspeitos de casos leves de Covid-19.

Nem pensar em chegar perto de profissionais de saúde ou dos próprios doentes, propagadores do “inimigo invisível”, o vírus de alto contágio que já colocou um bilhão de pessoas em quarentena no mundo e está na curva ascendente para fazer coisas muito piores.

Pensar no pior é  uma das obrigações mais dolorosas em horas de grande crise. Mas indispensável.

Um example: o que aconteceria na falta de Elizabeth, Charles e William?

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O príncipe de 37 anos tem três filhos, portanto três sucessores garantidos. Mas o mais velho e número três na sucessão, George, tem apenas seis anos.

Pela regra habitual, o filho número dois do príncipe (ou talvez rei) Charles seria nomeado regente até o sobrinho completar 18 anos, quando poderia ser coroado.

Problema: o filho estepe é o príncipe Harry, que acabou de renunciar como membro ativo da família real, ou seja, dos que cumprem funções de Estado.

Está trancado em autoisolamento no Canadá, com a mulher, Meghan, e o filhinho de um ano, Archie. Também está temporariamente impedido de acessar a grande quantidade de dinheiro que pretendia fazer por conta própria, como palestrante global de altíssimo luxo.

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O mundo não está para palestras e as avaliações da duração da crise começam a entrar no campo do pavor: um ano, um ano e meio ou até mais.

Em termos de sucessão governamental, é mais fácil. O sistema parlamentarista vigente na Grã-Bretanha facilita a continuidade: quem é eleito é o Partido e seus representantes.

Eles só precisam escolher um novo líder.

Um detalhe: a mulher do atual, o primeiro-ministro Boris Johnson, está grávida. Portanto, fora de circulação.

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Também tiveram que se isolar por Covid-19 confirmado a mulher de Justin Trudeau, o primeiro-ministro canadense, Sophie Grégoire, levando o marido junto. E a do espanhol Pedro Sánchez, Begonã Gómez.

Begoña foi à agora controvertida marcha da mulheres do oito de março que deixou duas ministras infectadas.

Por ter tido contato com uma delas, a rainha Letizia e, consequentemente, o rei Filipe, tiveram que fazer o teste.

Filipe está na mesma situação que reis mais jovens da era atual: tem filhas menores, que não poderiam ascender ao trono sem um período de regência.

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Muito mais vital, para o mundo inteiro, é a situação dos Estados Unidos.

Donald Trump escapou, quase que misteriosamente, do segundo governo mais infectado do mundo, o do Brasil, atrás apenas do Irã.

A festa em seu luxuosíssimo hotel-clube de Mar-a-Lago quase fez um strike no governo americano.

A preocupação atual é com o vice-presidente Mike Pence: um integrante de sua equipe está com o novo coronavírus.

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Pence, de 60 anos, é um rapagão comparado com o topo da liderança americana.

Trump tem 73 anos.

Nancy Pelosi, a presidente da Câmara e terceira na linha de sucessão, na falta do presidente e do vice, vai fazer 80 no fim do mês.

O quarto, Chuck Grassley, presidente interino do Senado (o permanente é o vice, Mike Pence), tem 86 anos.

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Seguem-se depois cada um dos membros do ministério, começando pelo secretário de Estado, atualmente Mike Pompeo.

Como os Estados Unidos têm mais de 70 anos de convivência com inimigos nucleares (primeiro a União Soviética, depois a China também), os planos para a extinção em massa da cúpula não só do executivo como dos outros poderes, são extensos, detalhados e revistos a cada nova crise.

Em resumo, num caso de quebra da cadeia de comando e do sistema democrático representativo, sem possibilidades, obviamente, de novas eleições em curto ou médio prazo, o poder passaria para os militares.

Uma reportagem do site da antiga Newsweek diz que as ordens de mobilização já foram dadas, há três semanas, contemplando três possibilidades: decretação de lei marcial por levantes em massa causados por desabastecimento, quebra extensiva na cadeia de comando civil ou ambas juntas.

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Todo mundo já viu filmes parecidos e os nomes dos três documentos mencionados poderiam estar neles: Octagon, Freejack e Zodiac.

Diz a Newsweek que o nome a ser levado em conta é quase desconhecido do público civil: Terence O’Sauhgnesssy, general quatro estrelas (equivalente a brigadeiro-do-ar no Brasil ) da Força Aérea.

Ele é o comandante operacional, ou de combate, das Forças Armadas americanas no momento, na qualidade de chefe do Comando Norte (Northcom), criado depois do Onze de Setembro.

Como os militares não estão isentos aos efeitos do corona, os baseados nos Estados Unidos já estão com viagens restritas desde a semana passada. Os responsáveis por tarefas essenciais também receberam ordens na sexta-feira de ficar próximos de suas bases, diz a Newsweek.

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Os planos de contingência seguem vários níveis. Começam com a proteção e, se necessário, transferência, da cúpula dos três poderes, instalando-os num bunker à prova de armas nucleares e biológicas.

O corona pode ser enquadrado na categoria arma biológica, mesmo tendo origem natural.

Como é natural, as emergências extremas foram planejadas para caso de um ataque nuclear. Segundo os regulamentos, dão autonomia a comandantes militares para declarar a lei marcial em áreas específicas que tenham sido bombardeadas de maneira apocalíptica.

O risco mais imediato, no momento, é considerado o de colapso social, com saques e distúrbios em massa.

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Mark Esper, o secretário da Defesa, já está seguindo a primeira fase das instruções de emergência e não tem mais proximidade física com seu vice, David Norquist. Isso deve se repetir em outras instâncias do governo.

Evacuar o presidente da Casa Branca teria que levar em conta a manutenção de uma das “funções essenciais” dos planos de contingência: preservar uma “liderança visível para a nação e o mundo”, capaz de garantir a “confiança do povo americano”.

Comparativamente, as oito horas que o presidente George Bush teve que passar, contra a própria vontade, voando no Air Force One depois dos ataques do Onze de Setembro, para preservá-lo de novos atentados, começam a parecer um passeio.

Um complicador: da mesma forma que ninguém, do público comum, “pode” ficar doente agora, diante da sobrecarga nos serviços de saúde, nenhuma alta autoridade “pode” morrer.

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Para as monarquias, tão ou mais importantes do que os casamentos reais, por exemplo, são as cerimônias fúnebres. A pompa, os convidados importantes e os atos religiosos contribuem para o clima de continuidade nacional.

No Reino Unido, pela ordem natural, o maior candidato seria o príncipe Philip, que está com 97 anos e saúde bem frágil.

Como a família parece ter um lado highlander, o príncipe tem que se segurar.

A rainha está para falar a qualquer momento, pedindo calma ao país.

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Tudo o que não existe no momento.

 

 

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