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Qual ministro da Economia está se saindo melhor na pandemia?

O britânico criou o programa mais popular, o francês vai planificar tudo, ninguém ouve falar no alemão e o argentino, claro, se acha

Por Vilma Gryzinski - 4 set 2020, 13h00

Desde 1799, quando o primeiro-ministro William Pitt criou uma medida temporária chamada imposto de renda para financiar a guerra contra Napoleão, os contribuintes aprenderam a lição: as únicas coisas certas na vida são a morte e os impostos. Adicionalmente, nunca acredite na palavra “temporário”.

As duas lições tornaram-se especialmente relevantes no momento excepcional que todos os países afetados pelo novo coronavírus vivem.

Como cobrir o rombo do que já foi gasto? Qual a hora de cortar os coronavouchers que estão mantendo o mundo acima da linha d’água? Como incentivar a recuperação da qual todos dependemos? É possível retomar a sanidade fiscal sem escorchar os infelizes que sempre pagam a conta?

E qual ministro da Economia, entre todos os que assumiram o cargo pensando que os problemas normais já eram uma encrenca danada, está se saindo melhor no enfrentamento com tantos problemas anormais?

Os brasileiros que levantam todo dia acendendo uma vela simbólica pelo ministro Paulo Guedes – geralmente os que têm algo a perder ou entendem como todos podem sair no prejuízo – estão eximidos de votar.

Quando não há outra opção de sobrevivência, só resta a “oração” de Arya Stark em Game of Thrones: “Só existe um deus e Seu nome é Morte. E só existe uma coisa que dizemos para a Morte: hoje não”.

Entre os países normais, um conceito que hoje está todo revirado, o mais popular ministro da Economia provavelmente é Richi Sunak.

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O título mais tradicional ele já tem: chanceler do Exchequer e segundo lorde do Tesouro. Exchequer é o nome de uma espécie de tábula de cálculo de taxações existente há quase um milênio.

Richi, chamado pelo primeiro nome, um caso relativamente raro na Inglaterra, sendo o exemplo mais conhecido o de seu chefe, Boris Johnson, também tem “aura, um fenômeno que acontece há cada dez anos na política”, como disse, num raríssimo elogio, o Guardian, depositário de todas as ortodoxias de esquerda.

E tem o comando da pasta vermelha, o objeto simbólico do poder dos guardiães do Tesouro, da qual jorrou dinheiro como se não houvesse amanhã para cobrir todos os salários dos funcionários que ganham até 2 500 libras por mês e ficariam sem nada na grande paralisação coletiva causada pela epidemia.

Curiosamente, foi um programa populista e relativamente barato que disseminou o viés de alta de Richi: o desconto de até 10 libras por refeição feita em estabelecimento comercial de segunda a quarta-feira durante o mês de agosto.

Os “Richi’s dishes” foram um sucesso notável. Os restaurantes que estavam à beira da falência mesmo depois da reabertura ganharam um fôlego extra. E o público adorou.

Pontos para o ministro.

Os descontos em 64 milhões de refeições custaram 336 milhões de libras, uma ninharia perto dos 100 bilhões de libras dos salários assumidos pelo governo.

Richi agora tem dois problemas – fora, evidentemente, arranjar dinheiro para cobrir todos os fenomenais rombos do corona.

Primeiro, convencer o beneficiados de que está na hora de voltar aos locais de trabalho e que a ajuda de emergência não pode ir além de outubro.

Os beneficiados gostaram até demais da ideia de ganhar salário integral ou mesmo parcial para ficar em casa.

Segundo, driblar a ciumeira que sua gestão e sua facilidade de comunicação estão provocando. Não faltam prognósticos de que ele poderia ser o sucessor de Boris Johnson, cuja bipolaridade política não está fazendo nada bem aos índices de aprovação do governo.

Richi seria o primeiro chefe de governo de origem indiana. E um dos mais ricos também, com fortuna avaliada em 200 milhões de libras – ainda atrás do conde de Derby, Edward Stanley, primeiro-ministro em três períodos do século 19 e o mais abonado de todos, com uma fortuna, em valores atualizados, de 440 milhões de libras.

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Detalhe: o sogro de Richi, o indiano N. R. Narayama Murthy, que fez fortuna com tecnologia da informação, está na casa dos 2,5 bilhões de dólares.

Pagar a conta do corona e tirar a economia da UTI também é a tarefa de Bruno Le Maire, com um complicador tipicamente francês: o chefe, Emmanuel Macron, ressuscitou um cargo chamado Comissário Geral do Plano de Retomada da Economia.

Um nome formidável com um orçamento à altura: o governo planeja colocar 100 bilhões de euros para não somente reativar a economia como modernizá-la, orientando-a para a requalificação energética.

Bruno Le Maire, um diplomata chique de cabelos grisalhos que contrastam com os traços jovens (“Baby Bruno”, dizia o ex-presidente Nicolas Sarkozy), terá assim a concorrência do novo comissário, François Bayrou, um político com nome forte que já foi candidato a presidente, além do primeiro-ministro Jean Castex, cuja principal missão é a recuperação econômica, e o próprio Macron, que já foi ministra da Economia.

É um bocado de gente e um bocado de problemas. Cada vez que alguém do governo fala que a saída da crise passa por trabalhar mais, os sindicatos deliram. Em resposta a um balão de ensaio sobre o fim da semana de 35 horas, a CGT propôs diminuir mais ainda a carga horária.

Le Maire pelo menos não vacila em matéria de autopromoção. Quando Macron foi eleito, ele se candidatou sem hesitação: “Sou um político de direita e assumo. Mas existe uma incompatibilidade maior com o projeto de Emmanuel Macron? Não. Deixemos de lado as querelas partidárias”.

“Ele é uma máquina fria e analítica”, resumiu um amigo ao site Politico.

A metáfora da máquina também é frequentemente feita em relação a Martín Guzmán, uma raridade no emotivo universo político argentino. O ministro argentino está bem cotado depois de conseguir um acordo com os credores privados da Argentina. As negociações foram todas feitas virtualmente.

“Tivemos que negociar simultaneamente com uns trinta fundos pelo Zoom”, disse o ministro.

“Entrevistar Martín Guzmán é como conversar com a Siri”, comparou o jornal El País. “A mesma exatidão, a mesma ausência de emoção”.

Cabeça fria é mesmo um requisito importante para quem enfrenta o estado catastrófico reinante em todos os outros aspectos da economia argentina.

Guzmán, de 37 anos, é um discípulo e também amigo de Joseph Stiglitz, o Prêmio Nobel que elogiou a gestão econômica de Cristina Kirchner.

Que os deuses da Economia tenham piedade da Argentina é o mínimo que qualquer ser humano com um mínimo de compaixão pode desejar.

Sem amigos tão chiques, o mais importante de todos os ministros de pastas econômicas, Steve Mnuchin, vai fazendo um feijão com arroz para manter os Estados Unidos à tona – e, portanto, o resto do mundo.

É um PF caro: seis trilhões de dólares já saíram da caixinha mágica de Mnuchin, um ex-Goldman, ex-fundos privados, ex-produtor de cinema e, principalmente, o único sobrevivente do alto escalão original do governo Trump.

Como seu cargo exige, ele negocia os pacotes cada vez mais estonteantes com a oposição, uma vez que o Partido Democrata tem maioria na Câmara.
Num ano que pandemia, calamidade econômica e eleição presidencial confluem para formar o maior período de excepcionalidade que todos os humanos hoje conscientes e com memória jamais viveram, Mnuchin passa quase ileso pelas fogueiras que ardem, literal ou simbolicamente, em outros campos do governo Trump.

Se a economia melhorar e houver uma perspectiva próxima de vacina, os mercados vão delirar – e Trump provavelmente estará reeleito.

Em agosto, o nível de emprego – o fator mais crítico a curto prazo – subiu com 1,4 milhão de postos. O total ainda está abaixo do nível de quatro anos atrás. E muito longe do fantasticamente baixo índice de 3,5% de desemprego de fevereiro.

Setembro e outubro vão definir a recuperação – e, claro, a eleição.

Mesmo quem torce pela derrota de Donald Trump deveria acender uma vela metafórica também por Steve Mnuchin.

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