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Puxa-se uma pena e vem uma galinha inteira, a história de Hillary

A candidata está numa fase positiva. É claro que nessa hora afloram mais casos de suspeita de tráfico de influência

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h22 - Publicado em 11 jun 2016, 10h32
As mulheres mais velhas favorecem Hillary, as mais jovens preferem Sanders (Jonathan Ernst/Reuters)

 (Jonathan Ernst/Reuters)

Os últimos dias foram gloriosos para Hillary Clinton. Tendo fechado o número necessário de delegados para ser escolhida candidata a presidente, ela usufruiu de uma vitória sofria. O irritante e surpreendente Bernie Sanders não tem mais como desestabilizá-la e todos os meios de comunicação do universo enfatizaram a quebra de precedentes que é ter a primeira mulher a disputar a Casa Branca .

Hillary está em alta em todas as pesquisas, favorecida pelo efeito unificador do fim da primeira parte da campanha e pela enorme cobertura, maioritariamente favorável. Na CNN, por exemplo, apareceu envolta numa luz dourada – criada no computador -, como uma deusa descida dos céus.

Mas os demônios do passado, distante ou recente, não lhe dão sossego. O caso dos e-mails não vai acabar por milagre e o porta-voz da Casa Branca, num lapso, mencionou o “inquérito criminal” que o FBI está conduzindo sobre a ocultação de comunicação oficial conduzida por Hillary na época em que foi secretária de Estado. “Inquérito” e “criminal” são as duas palavras que Hillary mais odeia, depois de Donald Trump.

Outro caso da época em que era a chefe da política externa do governo Obama também está embaçando seus momentos de glória. A poder de informações arrancadas na base da lei de transparência, a televisão ABC saiu do clintonismo arrebatado e mostrou como Hillary interferiu para colocar um estranho no ninho do Conselho Consultivo de Segurança Internacional, uma comissão formada por especialistas em armas nucleares que fazem estudos sobre o tema para orientar o Departamento de Estado.

Surpresa, surpresa: o integrante do Conselho indicado por Hillary também fez doações generosas à campanha dela e à Fundação Clinton. O nome dele é Rajiv Fernando, 44 anos, milionário descendente de indianos do Sri Lanka, pioneiro do uso de algoritmos para negociar na bolsa de mercadorias e futuros. Foi investigado a respeito, vendeu o negócio e está no ramo de informações estratégicas. Surpresa, surpresa: ter feito parte do Conselho do Departamento de Estado não atrapalha em nada o novo empreendimento.

Em e-mails obtidos pela ABC, funcionários de carreira do Departamento de Estado comentam não fazer ideia do motivo que levou Fernando a integrar um conselho para o qual não tinha qualificações. Exceto, claro, pelo QI. Ah, sim, ele também é delegado à convenção democrata que vai consagrar a candidatura de Hillary.

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O caso é complicado e dificilmente se traduz em manchetes de fácil compreensão. Serve como mais um elemento para reforçar o sentimento de desconfiança de boa parte do eleitorado em relação a Hillary. Caciques democratas estão indignados com uma pesquisa indicando que um quarto dos simpatizantes de Bernie Sanders não votará de jeito nenhum em Hillary – e pode até preferir Trump.

A nuvem de suspeitas bem fundamentadas de tráfico de influência e enriquecimento incompatível, pelo menos eticamente, ajuda a explicar por que Hillary não está muito mais à frente de um candidato de cabelo amarelo, pele laranja, círculos brancos em volta dos olhos – a marca dos óculos usados no bronzeamento artificial – e linguajar incontrolável.

Enquanto Hillary desfrutava de momentos de consagração, Donald Trump passou quase toda a semana sendo espancado, merecidamente, por ter dito que o juiz encarregado de um processo contra ele não é imparcial por ter origem mexicana.

Hillary lidera as pesquisas nos oito estados cujos votos são essenciais para que vença no colégio eleitoral. Se a tendência for mantida, poderá vencer por 400 dos 538 votos – mais do que Barack Obama, um feito extraordinário. Tem uma máquina fenomenal. São mais de 800 pessoas só na sua campanha direta, em boa parte aqueles magos que assistimos nas séries sobre presidentes americanos. E, incontestavelmente, é mulher, numa campanha em que quase sete em cada dez eleitoras rejeitam o candidato rival.

O comitê eleitoral de Trump tem apenas 80 integrantes e nenhum plano de propaganda política, fora as mensagens pelo Twitter do candidato. O pessoal de finanças também não parece preocupado em como pagar as contas de uma campanha até agora sem doadores. Eleições presidenciais americanas já passaram da casa de 1 bilhão de dólares.

Mas como essa campanha parece operar numa dimensão do universo bizarro, Hillary recebeu ataques aparentemente impensáveis. Julian Assange, o ídolo dos apaixonados pelo WikiLeaks, endossou a acusação de que o Google “está diretamente envolvido na campanha de Hillary Clinton”. Exatamente o que sites à direita do espectro político vinham dizendo, ao apontar uma aparente manipulação nas buscas com o nome da candidata: o que é bom vem na frente, o que é ruim fica bem escondido.

Considerando-se que Assange e sua tribo sempre defendem tudo o que enfraquece os Estados Unidos, talvez Hillary não seja uma candidata tão ruim assim. Barack Obama disse que não existe pessoa mais preparada do que ela para ser presidente. Muitos brasileiros podem se arrepiar de pavor ao ouvir um elogio assim, tão parecido com um caso de nossa história recentíssima. Para os americanos, conta muito.

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