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Prostrado: na briga do Brexit, governo inglês fica emparedado

Imagem do esnobe Rees-Mogg mostra como a “guerra civil” dentro do próprio Partido Conservador está brava; saída será nova eleição?

A estratégia do confronto com os parlamentares que querem bloquear o Brexit sem acordo explodiu no colo do primeiro-ministro Boris Johnson.

Sob a perspectiva de terem de suspender as sessões até meados de outubro, a arriscada jogada de Boris, os “rebeldes” somaram-se aos partidos de oposição para detonar Boris.

Assim, decidiram votar o projeto que impede o Brexit a seco, sem um acordo com a União Europeia. A votação será amanhã e a perspectiva é autoevidente.

O primeiro-ministro fica assim com as mãos amarradas. Talvez os pés também: não pode apelar para a “bomba atômica”, a convocação de novas eleições, sem a aprovação de dois terços dos parlamentares.

A imagem de governo nocauteado foi transmitida por Jacob Rees-Mogg, o bizarro parlamentar apelidado de “ministro para a integração ao século 19” por causa da linguagem deliberadamente esnobe, o jaquetão, os seis filhos e o castelo da família.

Como líder do governo, ele tem que ficar presente durante as intermináveis sessões, mesmo quando colegas de igual importância caem fora.

Quando esticou seu 1,88 de altura bem no banco da frente da Câmara dos Comuns, onde ficam o primeiro-ministro e os ministros mais importantes, foi acusado de comportamento “arrogante e desrespeitoso”.  O Twitter caiu em cima.

Como o Parlamento, criado no formato atual em 1707 mas com primórdios que remontam a 800 anos, incluindo uma guerra civil e um rei decapitado por sua ordem, é bom manter um pouco de perspectiva quando se fala em momentos dramáticos.

Por isso, talvez seja melhor classificar a sessão de ontem de apenas melodramática, com toques de ópera bufa.

Boris Johnson estava discursando quando o parlamentar Philip Lee levantou-se do lado reservado aos conservadores, atravessou o curto espaço entre as bancadas e foi se sentar, no sentido literal e figurado, com a ala dos Liberal Democratas, um partido que ressurgiu da semi-extinção por causa da oposição ao Brexit.

Com isso, o governo perdeu a maioria que mantinha precariamente pela diferença de um único parlamentar. Some-se à virada os 21 “rebeldes” que votaram para que o Brexit a seco seja submetido à Câmara.

Lee acusou o governo de “manipulação política, bullying e mentiras”. Não se pode dizer que esteja muito longe da verdade.

Johnson e sua turma, especialmente Dominic Cummings, o artífice propagandístico da vitória do Brexit, assumiram uma tática agressiva, dirigida em especial ao próprio partido.

Sabendo o que os “rebeldes” armavam, propuseram a suspensão temporária das sessões parlamentares.

Como Rees-Mogg também ocupa a posição de Lorde do Conselho, foi ele que pegou um avião e levou o documento autorizando a suspensão à rainha Elizabeth II, em temporada de verão em seu castelo na Escócia.

A suspensão era uma espécie de golpe preventivo para impedir exatamente o que está acontecendo agora.

Para reforçá-la, o governo ameaçou expulsar do partido os parlamentares conservadores que votassem contra a linha oficial.

A situação é conhecida no Congresso brasileiro. Na Grã-Bretanha, com seu histórico emaranhado de tradições antigas e regras não escritas, a expulsão é chamada de “loose the whip”, perder o chicote ou relho. O dono do “whip”, encarregado da disciplina partidária, é o líder do governo.

Quando isso acontece, o parlamentar, obviamente, não perde o cargo, mas passa a ficar na turma dos independentes.

A ameaça de expulsão foi espetacularmente mal recebida por “rebeldes” de primeira linha, como Philip Hammond, ministro da Economia do governo de Theresa May.

Outros conservadores que fazem oposição ao Brexit a seco reclamaram que foram destratados por Dominic Cummings (Benedict Cumberbatch no filme sobre a campanha pela saída da União Europeia).

Vestido como sempre – camisa branca amarfanhada, cabelos restantes despenteados -, Cummings recebeu os parlamentares de má vontade e chegou a dizer que nem sabia quem era quem.

Seja no Parlamento mais antigo do mundo, seja na modernista Esplanada dos Ministérios, todo mundo sabe o que nobres representantes do povo fazem quando se sentem ignorados, descartados ou mal tratados.

O governo Johnson perdeu a votação de ontem por 301 a 328, uma pancada. Votaram contra ele os partidos de oposição – Trabalhista, Liberal Democrata, os representantes da Escócia e da Irlanda do Norte, além dos “rebeldes” internos.

Para se vingar, o governo ameaça lançar outros candidatos conservadores nos distritos dos rebeldes, como Hammond e até John Bercow, o presidente da Câmara que se autoconcedeu poderes muito além da função e manipula as votações sempre para prejudicar qualquer caminho que leve ao Brexit.

Nossa, um integrante de um poder que exacerba suas funções e avança sobre território que não é de sua competência, já ouviram falar nisso?

Boris Johnson está ouvindo. Para seus adversários, é um momento de glória.

Um deles sugeriu que fosse mantido exatamente assim: no governo, mas incapaz de governar, incapaz de ganhar votações no Parlamento e incapaz de convocar eleições gerais que, teoricamente, lhe dariam maioria para virar o jogo.

Dessa maneira, a data final de 31 de outubro passaria sem que nada acontecesse, exceto mais uma prorrogação do Brexit.

O fato de que a maioria dos eleitores não quer isso e não suporta mais a situação de paralisia que dura mais de três anos, evidentemente não é levado em consideração.

Existe ainda outra alternativa: fartos do impasse e da incapacidade dos conservadores para resolvê-lo, uma parte dos eleitores migraria em número suficiente para dar uma vitória a Jeremy Corbyn, o líder esquerdista do Partido Trabalhista.

Seria mais ou menos como se Sauron, o senhor de Mordor, tomasse o poder em toda a Terra Média.

Está faltando só um anel.

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