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Personalidade e estilo brigão: o que fez a diferença contra Trump

Com um público espetacular e um oponente opaco, ele poderia ter sido facilmente reeleito - e nos livrar da agonia da apuração voto a voto

Por Vilma Gryzinski 6 nov 2020, 07h51

Donald Trump teve 69 milhões de votos – cinco milhões a mais do que em 2016.

Contrariou todas as expectativas de derrota acachapante criadas pelas pesquisas. 

Despertou um fervor popular que nem de longe se compara aos sentimentos mornos provocados por Joe Biden.

Teve 18% dos votos de eleitores negros do sexo masculino, 28% dos gays e denominações correlatas e 32% dos latinos, apesar de ser pintado incessantemente como um ogro racista e homofóbico.

O massacre antecipado para o Partido Republicano no Congresso não aconteceu.

Isso tudo ainda no meio da crise do coronavírus, com seus 240 mil mortos e 12 milhões de desempregados.

Com tantos trunfos, Trump poderia estar comemorando a vitória, sem processos na justiça, clamores por interrupções da contagem dos votos e alegações conspiracionistas.

Também seríamos poupados da tortura prolongada da apuração de voto a voto nos estados ainda sem definição incontestável.

O que poderia ter influenciado esse resultado mais favorável a Trump?

Tudo vai ser minuciosamente dissecado quando baixar a poeira e dermos um suspiro de alívio com qualquer resultado que seja, contanto que seja definitivo.

Mas já é razoável dizer que o mesmo tipo de personalidade incendiária que ganha uma eleição impossível também pode levar a uma derrota, mesmo que apertada, na hora da reeleição. 

As conclusões sobre as lições das dificuldades enfrentadas por Donald Trump estão aí para todos verem. 

Se Trump fosse um pouco menos Trump, principalmente ao tratar de uma crise impactante como a do coronavírus, teria sido beneficiado? É impossível dizer que não.

Os americanos que votaram nele em 2016 apostaram num sujeito diferente, estridente, espalhafatoso, abusado, simultaneamente vendedor de apartamentos superluxuosos e showman, totalmente fora dos padrões tradicionais – e dos limites – da política. 

Levaram para casa exatamente o que haviam comprado. 

Agora, a maioria dos eleitores decidiu, pelo menos no voto popular, retomar um produto mais convencional – e é difícil encontrar algum modelo mais acabado de político do que Joe Biden.

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A tensão entre o “contra tudo o que está aí” e um representante de “tudo que está aí” é um clássico da política. 

Entre 2016 e 2019, a parte do “contra” definiu um arco de eleições que explodiu com Trump, passou pelo Brexit, impulsionou Emmanuel Macron na França e alavancou Jair Bolsonaro no Brasil.

Da mesma forma que a “árvore da liberdade de tempo em tempo deve ser regada com o sangue de patriotas e de tiranos”, na sanguinária frase de Thomas Jefferson, a árvore da democracia também precisa ser chacoalhada periodicamente para não atrofiar. 

Quando o chacoalhão é forte demais, ela sofre uma correção de rumo.

Como primeiro presidente do apogeu da era das redes sociais, Trump ecoou com estridência no mundo todo, criando antipatias viscerais e também inesperados admiradores. 

O estilo fora do padrão deu voz a amplos setores mais conservadores da sociedade, ignorados e excluídos pelas elites dirigentes dos centros do poder.

A capacidade de provocar amor e ódio atingiu níveis cada vez mais apopléticos, deixando os Estados Unidos numa espécie de fervura permanente.

Em outros tempos, seu estilo confrontacional e suas idiossincrasias iriam para o gabinete de curiosidades da história, como o aligátor que John Quincy Adams mantinha numa banheira na Casa Branca, as amantes em rodízio por outros cômodos da mansão presidencial nos anos de John Kennedy ou as pistolas carregadas que Martin Van Buren levava para sessões no Senado. 

Ronald Reagan seguia as instruções de uma astróloga convocada por sua mulher depois do atentado que o deixou a poucos minutos da morte. 

“Espero que sejam todos republicanos”, brincou ele com a equipe médica, na mesa de cirurgia do hospital George Washington. “Hoje, senhor presidente, todos somos”, respondeu o chefe da emergência, Joseph Giordano, democrata de carteirinha.

É esse tipo de comportamento elegante, de graça sob pressão – e que pressão pode ser maior do que uma bala no pulmão? – , que muitos americanos gostam de ver num presidente. 

Mesmo acreditando, majoritariamente, segundo as pesquisas, que Trump seria melhor para recuperar a economia do tiroteio da pandemia, votaram por um fio de cabelo em Joe Biden, um “presidente normal” para acalmar o clima de confronto permanente .

Um dos maiores chavões da política é dizer, depois de uma eleição presidencial, que fulano de tal ganhou, mas terá sob seu comando uma nação dividida, com metade do eleitorado amargurada ou até desconfiada do resultado. 

Apesar da obviedade, tudo isso é verdade em relação aos Estados Unidos. Com um agravante: a promessa de que o imposto de renda vai ficar mais doloroso com Biden. 

“Quem vota para aumentar impostos?, perguntava um indignado eleitor de Trump no dia da votação. 

Quando a personalidade explosiva que foi bônus vira ônus, vale até mordida do Leão.

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