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Parem as máquinas: a imprensa pirou

Preguiça, esquerdismo infantil e ideias feitas na cobertura internacional do Brasil

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h20 - Publicado em 13 mar 2016, 17h03

 

Página do El País:  caso raro de reportagens melhores e mas frequentes

Página do El País: caso raro de reportagens melhores e mas frequentes

Tal como acontece entre nós, existem jornalistas estrangeiros mais à esquerda ou mais direita, os que declaram abertamente suas opiniões ou os que as escamoteiam, os autores de análises bem informadas ou os que se enrolam em conceitos pré-fabricados, os heróis do cotidiano que buscam reportar estritamente os fatos e fazer uma cobertura imparcial. E existem os preguiçosos, que pegam carona em qualquer ideia pronta. Em alguns casos, estes são mandados para o Brasil como correspondentes.

A cobertura da imprensa estrangeira sobre os dramáticos acontecimentos políticos no Brasil exemplifica todos os comportamentos descritos acima. Isso quando há cobertura: o encolhimento econômico do país diminuiu ainda mais um interesse que sempre foi mínimo.

O jornal espanhol El País, com seu viés em geral de esquerda e alta qualidade editorial, melhorou sensivelmente a cobertura e colocou três jornalistas para cobrir o protesto de hoje. Isso depois de dizer numa reportagem sobre as primeiras e vastas manifestações contra Lula-Dilma que seus participantes eram direitistas favoráveis a um golpe militar – nesse caso, a manchete deveria ter sido “Como o Brasil criou a maior direita do mundo sem ninguém perceber”.

Mesmo com as análises e reportagens mais qualificadas, o jornal espanhol cai no erro recorrente, repetido por muitos outros meios, de dizer que existe uma “polarização política” e o país está rachado, dividido ou algum outro adjetivo banal. É só olhar as pesquisas de opinião para ver a maioria massacrante de brasileiros que condenam o governo, o partido que o comanda e seus representantes mais conhecidos.

Isso não é país dividido, mas sim unido no repúdio à corrupção. O fato de que existam, obviamente, manifestações opostas não torna o adjetivo mais correto. E dizer , como fez o El País em reportagem no sábado pré-protestos, que o deputado Jair Bolsonaro é um “Donald Trump brasileiro” indica falta de recursos intelectuais. É claro que o deputado adorou a comparação deslocada. E é claro que Glauco Peres da Silva, professor de ciências políticas da USP que faz em seu blog análises políticas bem embasadas, sofreu do efeito truncamento quando a reportagem lhe atribuiu uma declaração simplista e tosca: “É natural que, quando a esquerda vem sendo atacada, como vem sendo aqui no Brasil, surjam esses candidatos com propostas mais conservadoras.”

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A revista The Economist  alterna reportagens bem informadas com besteiras espetaculares  a respeito do Brasil. As capas com o Cristo decolando e depois desabando, além daquela em que uma passista de escola de samba está presa num atoleiro, não se incluem nessa categoria, mas a previsão de uma debandada em massa de empresários com a primeira eleição de Lula se enquadra no grupo de reportagens sem-noção.

Na categoria sem-noção, mas com aquela arrogância imperial remanescente que soa tão encantadora quando aplicada a outros e nos deixa loucos da vida quando somos o alvo, está a do comentário de março do ano passado, quando a revista dizia que o impeachment da presidente seria “uma má ideia” e que os brasileiros estavam exagerando ao reagir de forma “emocional” ao tsunami de revelações sobre corrupção.

Brasileiros emotivos, entenderam a conexão? Prometemos não dizer que os ingleses estão reagindo de maneira emotiva ao apoiar, em números crescentes, a saída da União Europeia, pois a ideia parece cada vez mais convincente. E prometemos continuar usando a palavra ingleses em lugar de britânicos, só para ver aquele desconforto provocado entre os bem-pensantes por noções de nacionalismo – cuja eliminação forçada contribuiu para o aumento dos eurocéticos.

Voltando ao Brasil. O New York Times  também já embarcou na canoa furada de dar conselhos com base em argumentos equivocados. Em agosto do ano passado, escreveu que “forçar Rousseff a deixar o cargo sem evidências concretas de erros causaria grave dano à democracia” e que “nada sugere” uma condução melhor da economia se a presidente saísse.

Perguntas sem resposta que o preguiçoso editorial nem se deu ao trabalho de fazer: quem está forçando, onde está a falta de evidências, por quais motivos um processo legítimo de impeachment prejudicou a democracia americana quando Richard Nixon foi levado a renunciar e, embora tudo possa sempre piorar, como produzir um desastre econômico maior ainda do que o atual?

Num perfil da presidente, o jornal The Guardian  precisou de dois autores para dizer que a falta de vontade dela de “entrar para o clube dos meninos da política  brasileira, onde menos de 9% do Congresso é de mulheres e a corrupção reina, explica em parte seus problemas atuais”. Entenderam como uma mulher impoluta pode ser perseguida por sua, como diriam os autores, condição feminina? Ah, sim, dizem ainda eles que os brasileiros vão ter que aguentar a presidente até o fim do mandato,  pois “as alternativas – renúncia, impeachment ou um golpe – provavelmente seriam piores”.

Mencionamos até agora meios de comunicação sérios, que têm suas simpatias ideológicas mas fazem um trabalho vital de jornalismo. A título de diversão, vamos registrar agora a versão alucinada que o jornal argentino Página 12, o mais kirchnerista dos kirchneristas, deu sobre a condução coercitiva do ex-presidente Lula: uma fonte muitíssimo bem informada revelou que a Polícia Federal pretendia levá-lo de Congonhas para uma temporada no sistema prisional de Curitiba, mas por causa da “reação popular”, os militares, que controlam o aeroporto, não deixaram. Ufa, está garantido, portanto, que não haverá o golpe tão propagado pelas esquerdas, nacionais e até do estrangeiro.

Errar é humano, mas os jornalistas têm a obrigação de lutar contra suas limitações o tempo todo. A menos que, por vontade própria ou contra pagamento, se dediquem expressamente a mentir.

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