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Parece filme: vários mistérios cercam assassinato do presidente do Haiti

Em vez de diminuir, aumentam as dúvidas com a prisão de mercenários colombianos que mataram Jovenel Moïse na residência oficial

Por Vilma Gryzinski 12 jul 2021, 07h20

Um golpe dado por um médico que viaja de jatinho particular para o Haiti? Mercenário que posta nas redes sociais mostrando o país onde tem a missão de fuzilar o presidente? Ex-militares escolados que planejam e executam um espetacular assassinato político, mas não pensam nas rotas de fuga? E uma polícia que “demonstra eficácia jamais vista e prende os criminosos em menos de doze horas” – este, comentário de um leitor desconfiado de um jornal haitiano.

Estes são alguns dos elementos que tornam ainda mais intrigante o assassinato de Jovenel Moïse, fuzilado em casa com doze balas de calibre 380 e 9 mm, ao lado da mulher, atingida por dois tiros e levada de jatinho para Fort Lauderdale.

A eficácia da polícia, ironizada pelo leitor, foi facilitada pelos mercenários colombianos. Eles estavam com seus documentos originais e vários voltaram aos endereços onde se hospedavam, em casas no mesmo bairro do presidente. Outros três entraram em confronto armado e foram mortos. Onze entraram na embaixada de Taiwan e saíram presos.

Também demorou apenas poucos dias até a prisão de Christian Emmanuel Sanon, médico radicado nos Estados Unidos que foi para o Haiti dias antes do atentado fatal. “Foi a primeira pessoas para quem os mercenários ligaram”, disse a polícia haitiana.

Sua atuação política anterior se limitava a vídeos denunciando a corrupção no Haiti. Segundo a polícia, foi ele quem contratou a empresa de segurança CTU, baseada na Flórida, pertencente a um exilado venezuelano.

Ao todo, a polícia apresentou 20 colombianos e dois haitianos com cidadania americana e uma história altamente implausível: disseram ter sido contratados como intérpretes e que a operação na qual se envolveram supostamente era para prender Moïse e entregá-lo a um tribunal. Foram eles os “agentes” filmados na entrada da casa do presidente, dizendo que era uma operação da DEA, estratagema para afastar curiosos.

Os colombianos chegaram ao Haiti em dois grupos, a partir de maio, via República Dominicana. Eram contratados por quatro empresas de segurança que pagaram as passagens aéreas. Quando foram presos, tinham armas, munição e quantias em dinheiro vivo, variando entre dois mil e dez mil dólares. Também levavam seus passaportes.

A mulher de um dos detidos, Francisco Eladio Uribe, ligou para uma emissora de rádio e disse que o marido tinha sido contratado por uma empresa para trabalhar na segurança de um xeque árabe. Ganharia um salário de 2.700 dólares.

Às dez da noite da quarta-feira passada, pouco mais de duas horas antes do assassinato do presidente, ele disse que estava de plantão e tudo ia bem. No dia seguinte, mandou uma mensagem dizendo que estava sendo atacado e não entendia o que estava acontecendo. Dias antes, o sargento da reserva Manuel Antonio Grosso, considerado por especialistas colombianos como um dos mais treinados do grupo, divulgou fotos turísticas via redes sociais.

Existiria a possibilidade de que pelo menos parte dos  colombianos tivessem sido manipulados e atraídos para uma operação mal explicada? Fontes do jornal colombiano El Tiempo disseram que  os colombianos foram enganados.

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“O presidente foi assassinado por seus próprios guarda-costas, não pelos colombianos”, disse o político oposicionista Steve Benoit, colocando lenha na fogueira das especulações.

Outra hipótese cinematográfica: os colombianos na verdade teriam a missão de proteger Moïse e chegaram ao local do crime quando ele já tinha sido executado.

A pessoa que tem mais condições de testemunhar o que aconteceu, Martine Moïse, que estava no quarto ao lado do marido e levou três tiros, mandou uma mensagem gravada antes de ser submetida a cirurgia no hospital na Flórida.

“Num piscar de olhos, mercenários entraram na minha casa e crivaram de balas meu marido”, disse ela. A mando de quem? “Eles enviaram os mercenários”, disse Martine vagamente, referindo-se a inimigos políticos de Moïse.

Ex-militares colombianos são valorizados no mercado mundial de segurança por terem alto nível de treinamento – muitas vezes dado por americanos – e experiência no combate a guerrilheiros e narcotraficantes.

Com tantos presos, muitas histórias ainda vão acabar vazando sobre um atentado de enormes dimensões políticas e repercussões.

Jacobo García, do El País, que se o Haiti fosse um filme e o investigador perguntassem a testemunhas quem teria motivo para assassinar o presidente, acabaria com uma longa lista de suspeitos. Entre eles, seja por excesso de imaginação, seja porque o próprio Moïse se pintou como uma vítima de oligarcas poderosos, está a família Vorbe, que controla as usinas de fornecimento elétrico do Haiti .

Uma das promessas irrealizadas – e irrealizáveis – de Moïse tinha sido fornecer energia elétrica para toda a população – apenas 15% da população rural têm luz em casa.. A família Vorbe foi deixada de fora dos planos de eletrificação.

A elucidação do assassinato do presidente pode tropeçar no ambiente quase insano de instabilidade política. Partidos do governo e de oposição elegeram como presidente interino o presidente do Senado, Joseph Lambert, mas há dúvidas sobre sua viabilidade. O país estava justamente na transição de um primeiro-ministro para outro e agora ambos se proclamam chefes de governo.

Claude Joseph, o que estava de saída, não demonstra a menor intenção de largar o poder que caiu em seu colo na vigésima-quinta hora. Ele se proclamou presidente interino, o que faz com que o país tenha dois presidentes no momento. Entre outras e profundas encrencas.

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