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Pandemia política: da Inglaterra a Israel, os efeitos do vírus

Com Boris Johnson e ministro da Saúde contagiados, estabilizar comando torna-se primordial, passo que já foi dado com governo israelense de união nacional

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 30 jul 2020, 19h03 - Publicado em 27 mar 2020, 16h09

O herdeiro do trono, o primeiro-ministro, o ministro da Saúde e o principal assessor para assuntos médicos do governo estão fora de circulação.

Pelo menos pública, no caso de Boris Johnson e equipe. O príncipe Charles está isolado numa casa de campo na Escócia, sem contatos.

Esta situação única na Grã-Bretanha é o exemplo mais estrondoso, até agora, da potencial quebra na cadeia de comando provocada pela pandemia.

Como um primeiro-ministro particularmente expansivo, interessado em projetar uma imagem churchilliana em plena crise, Boris Johnson circulou intensamente nas últimas semanas, aumentando as possibilidades de contágio.

Faz parte da natureza da vida política, mas não tem quem não pergunte: quem será o próximo.

No caso britânico, com uma particularidade: no famoso endereço de Downing Street, há 275 anos uma mistura em expansão de sede do governo e residência, as salas de reunião são apertadas e corredores estreitos ligam os ambientes.

Quem mais está contagiado na cúpula do governo vai ser revelado ao longo dos próximos dias.

Quando Boris soube que tinha dado positivo?

Isso também ainda está por ser revelado.

Mas, por precaução, ele já tinha determinado que, em caso de incapacitação, Dominic Raab, o ministro das Relações Exteriores, seria seu substituto.

Data em que fez isso: no último dia 22.

Raab tem 46 anos e porte atlético, apesar de um ataque de tosse durante uma sessão do Parlamento. Já fez o teste duas vezes, com resultados negativos.

Ao contrário dos Estados Unidos, a cadeia de comando não é claramente estabelecida na Grã-Bretanha.

Daí a providência de indicar um “designated survivor”, como na série com Kiefer Sutherland.

Raab pode ter sido um nome escolhido pelo status de seu ministério – e também para acalmar as rivalidades internas.

Com vírus ou sem vírus, as ambições políticas são as mesmas.

Atualmente, a ciumeira está concentrada no ministro das Finanças, Rishi Sunak, por motivos óbvios: ele é o homem que está soltando o dinheiro, tentando segurar a devastação econômica.

Também passa uma imagem de segurança e energia, além de ser milionário e chamado pelo primeiro nome – mais ciumeira, claro.

Em Israel, ao contrário, a epidemia trouxe uma virada política impressionante: um governo de união nacional.

Parecia impossível, mas o maior rival do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez o que havia jurado nunca fazer.

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Para isso, Benny Gantz pagou um preço. Outros partidos que integravam a frente oposicionista de centro-esquerda, Azul e Branco, romperam e estarão na oposição.

Gantz é um ex-chefe do Estado Maior, um general estrelado que entrou um tanto desconfortavelmente para a política com o objetivo explícito de derrubar Netanyahu – no voto, bem entendido.

Em um ano, Israel teve três eleições, todas sem romper o impasse político: nenhum dos blocos conseguia formar maior no parlamento.

A guinada de Gantz pode ser interpretada como um sinal de que ele foi muito bem informado do tamanho da crise provocada pelo novo coronavírus e suas consequências econômicas.

Israel é um país preparado para situações de emergência, por motivos óbvios, mas está na mesma situação que o resto do mundo: os recursos existentes não vão dar conta. E os inimigos que pregam sua extinção continuam muito próximos.

Duas exceções no quadro geral de alerta vermelho são dois países completamente diferentes: o México e a Suécia.

Com seu estilo de guru popular, o presidente Andrés Manuel López Obrador faz muito mais do que o colega do outro gigante latino-americano.

Participa de comícios, abraça populares, beija crianças. Também continua com as entrevistas diárias, chamadas “mañaneras”.

Já recomendou: “Vamos manter a vida de sempre”.

Outro conselho: “Quem tem condições, deve continuar a levar a família para comer fora, isso fortalece a economia”.

O máximo que fez foi pedir a seus partidários que não façam concentrações nos aeroportos das cidades que continua a visitar para “não dar motivos” aos adversários.

Ninguém ainda o chamou de Nero, mas, obviamente, está sendo muito criticado.

“O comportamento do presidente López Obrador diante da crise do Covid-19 é um exemplo sumamente perigoso que ameaça a saúde dos mexicanos”, disse o presidente da Human Rights Watch para as Américas, José Miguel Vivancos.

Com cultura e estilo político exatamente opostos, o governo da Suécia também está fora da curva. Recomendou que, quem pudesse, passasse a trabalhar de casa. Escolas, comércios e restaurantes continuam abertos.

Quem ficar doente com os sintomas associados ao novo vírus, deve esperar dois dias, a partir do momento em que se considerar recuperado, para voltar a trabalhar.

As decisões são tomadas, em última instância, por órgãos de saúde pública, com o diretor de epidemiologia, Anders Tegnell, à frente.

Se a situação na Suécia piorar, como nos países europeus mais afetados? “Seremos muito criticados”, disse Tegnell ao Telegraph.

Com teimosia escandinava, acrescentou: “Mas eu me sentiria muito pior se tomasse decisões nas quais não acredito”.

Existe um universo paralelo onde as coisas tomam outro rumo na Suécia?

No México, podemos garantir com razoável grau de certeza que não.

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