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Palpiteiros amazônicos: de senador do Havaí a Mick Jagger

Como sempre, o alvo principal é Donald Trump, mas no festival de sandices sobra para o governo brasileiro; até ajuda inexistente querem cortar

A graça da vida são as surpresas e as do momento são imperdíveis. Um exemplo: nas bancadas progressistas – o termo que substituiu esquerda nos Estados Unidos – erguem-se brados para cortar a ajuda americana ao Brasil por causa dos incêndios na Amazônia.

A ajuda envolvida, através de uma parceria com a agência de desenvolvimento, Usaid, envolve o montante de 53 milhões de dólares, todos direcionados para projetos ambientais na Amazônia.

Só para dar uma dimensão: só o avião de Donald Trump vale o dobro. Atenção, estamos falando do avião particular, um Boeing 757 velhusco, mas turbinado, não do Air Force One, a formidável Casa Branca voadora.

Mais um pouquinho de dimensão: o Afeganistão está no topo da lista de recipientes de ajuda americana, incluindo armamentos no pacote, com 5,7 bilhões de dólares; depois vem o Iraque, com 3,7 bilhões; Israel, com 3,2: a minúscula Jordânia e o Egito, com cerca de 1,5 bi.

Dá para perceber os interesses estratégicos e geopolíticos envolvidos, incluindo a “mesada” para manter acordos de paz no Oriente Médio.

O principal defensor de sanções americanas ao Brasil é o senador Brian Schatz. Sem nenhuma coincidência, ele também está na primeira linha de ataque dos democratas que pregam o impeachment de Donald Trump.

A possibilidade de que a “ajuda” seja cortada ou, mais preocupante, abortado o acordo comercial, é próxima de nula.

Os republicanos têm uma maioria, apertadíssima, no Senado. E se o próximo presidente for um democrata?

A oposição ao governo brasileiro desaparece.

E uma das últimas coisas que um presidente americano, qualquer que seja, quer é confronto com o Brasil. Igualmente qualquer que seja o governo.

O Brasil não cria problemas para os Estados Unidos – basta ver a lista de encrencas dos países recordistas em ajuda. É tratado com a condescendência reservada a um filho mais novo, grandão e imaturo.

Até mesmo quando uma presidenta faz birra e adia uma visita de Estado a convite de ninguém menos que Barack Obama.

MACONHA E CAMISAS

No nível econômico, o que realmente importa, é apenas um rival, razoavelmente benigno, em matéria de exportações agrícolas e de carne.

Por outra incrível coincidência, a carta dos senadores americanos a Robert Lighthizer, uma espécie de ministro do comércio exterior, põe um dedinho nada sutil no assunto.

Os nobres senadores dizem que a batalha comercial com a China, um assunto top de Trump, “tem levado a China a depender cada vez mais do Brasil para carne e soja”. Tudo produto do desmatamento que o governo brasileiro deixa rolar solto.

Ah, senadores, nenhum governo brasileiro – aliás, nenhum governo – teria tanta capacidade.

Mas são evidentes as vantagens de espicaçar Trump, sapatear sobre um governo apresentado como vilão e ainda fazer uma gentileza aos produtores americanos dos cinturões da soja.

Por mais uma incrível coincidência, as zonas rurais apoiaram Trump em massa na primeira eleição. Em algumas áreas, o apoio está vacilando pelo corte punitivo de importações da China.

Os onze senadores são do cinturão progressista. Incluem dois pré-candidatos presidenciais, Kamala Harris e Corey Booker. Kirsten Gillibrand e Amy Klobuchar, ambas fracas e mais fazendo jogo para aparecer, desistiram da disputa.

Brian Schatz não é senador eleito, mas indicado pelo governador do Havaí, onde fez sua carreira política, para ocupar a vaga deixada pelo antecessor falecido.

Por uma combinação única de fatores, o prodigioso conjunto de ilhas vulcânicas no meio do Pacífico, só incorporado como quinquagésimo estado americano em 1959, é mais à esquerda do que a Califórnia, como se isso fosse possível.

É o estado natal de Obama, que voltou lá para estudar e registrou em livro as sessões de maconhice com os colegas de colégio.

Maconha, surfe, tatuagens, camisas estampadas e colares floridos são associações imediatas com o Havaí.

Brian Schatz só é usuário dos dois últimos, pelo que se sabe publicamente. Nasceu em Michigan e, como bom filho de pais judeus, fez faculdade direitinho no Pomona College, sem desvios por pranchas e outros perigos.

Não é exatamente brilhante, mas nutre um ódio tão absoluto por Donald Trump que cavou um lugarzinho onde mais interessa aos políticos, na frente das câmeras de televisão.

A bronca com Trump e a preocupação ambiental também desencadeou estranhas manifestações de Mick Jagger.

Multimilionário que coleciona quase tantas casas quanto filhos (oito), o roqueiro reclamou do lugar muito ruim onde “toda essa polarização, falta de polidez e mentiras vão nos levar”.

A ironia não escapou ao próprio, ao reconhecer que “nem sempre” foi um ativista das boas maneiras e da urbanidade.

Pelo menos o veterano do rock – e das más maneiras – estudou num lugar bom e numa época boa, na London School of Economics, embora sem completar o curso.

O mundo perdeu um político ou jornalista e ganhou Mick Jagger, ainda firme no palco tocando eternamente as mesmas músicas.

Jagger também se declara conservador, não no sentido de apoiar o partido britânico de mesmo nome, e monarquista. Agora, revela-se como especialista em assuntos ambientais, como tantos outros do show business.

“Vivemos uma situação difícil no momento, especialmente nos Estados Unidos, onde os controles ambientais que existiam, e eram apenas corretos, foram revertidos pelo atual governo a ponto de serem varridos do mapa.”

JOGOS VORAZES

É uma sandice absoluta. Trump realmente flexibilizou a exploração de petróleo e outros tipos de combustíveis fósseis, tornando os Estados Unidos a maior potência energética do mundo. inclusive independente de encrenqueiros que vão da Venezuela ao Irã.

Mas nem se quisesse conseguiria “varrer do mapa” os controle ambientais.

Nem ele nem Gêngis Khan.

As empresas americanas seguem, na maioria, regras ambientais estritas, atendendo a demandas dos próprios acionistas e da opinião pública.

Sem contar que existe uma palavra que começa com agá para quem apoia as manifestações da turma de Greta Thunberg e mantém um estilo de vida completamente oposto, pelo consumo em escala galática, às restrições espartanas pregadas pela adolescente sueca.

Dar declarações simpáticas ao pessoal que “invade” o tapete vermelho do festival de cinema de Veneza para fazer fotos fofinhas é bem diferente de usar roupas de segunda mão, não viajar mais de avião e, horror dos horrores, não ter um chef para preparar suas refeições saudáveis.

Ao lado de Mick Jagger, outra sumidade em pesquisas bioenergéticas, estudos políticos e análises comparativas internacionais, o ator Donald Sutherland, fez a sua contribuição para o debate.

“Mick está certo, os controles na época de Obama mal davam conta e agora estão sendo eliminados. É a mesma coisa no Brasil e eles serão destruídos na Inglaterra.”

Qual a solução?

“Votar contra essa gente no Brasil, em Londres e Washington”, explicou Sutherland, um ator carismático que, com a idade, agora 85 anos, se especializou em interpretar estadistas malvados como o de Jogos Vorazes (derrubados, por traição, por seu filho, Kiefer, na inesquecível série 24 Horas).

Ah, seria pedir demais que o cara, além de ser Donald Sutherland e pai de Kiefer Sutherland, soubesse qual é a capital do Brasil.

Que outro ator poderia dar lições sobre em quem uma população somada de mais de 600 milhões de pessoas deve votar?

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  1. Felizmente, os prognósticos do Mick Jagger sempre são furados.

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