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Outra volta do parafuso: na China de Xi Jinping, aumenta a censura

De boatos sobre personagens menores, mas cultuados oficialmente, a temas históricos relevantes, pode dar cadeia contestar a versão oficial

Por Vilma Gryzinski 3 nov 2021, 07h25

Os regimes autoritários são prolíficos em criar piadas involuntárias. Na China de Xi Jinping, que está dando uma guinada forte à esquerda em todas as esferas, a última “piada” é igualar, na censura, questões históricas de grande importância a brincadeiras que mencionem os heróis da narrativa oficial do regime comunista.

O levantamento dos casos que redundaram em penas de prisão desde que entrou em vigor a nova lei, em março, foi feito por Steven Lee Myers para o New York Times.

O mais absurdo envolve uma mulher identificada apenas como Xu, de 27 anos. Ela fez um post ridicularizando os “machistas do teclado”, homens que ficam fazendo reclamações misóginas pela internet e “se acham um Dong Cunrui”.

O personagem mencionado faz parte dos livros de história usados nas escolas, onde aparece como um herói da revolução comunista: preferiu explodir a si mesmo junto com um bunker das forças nacionalistas, em 1948, para não perder a oportunidade de um ataque aos inimigos na guerra civil.

A mulher mencionada não criticou o herói oficial. Ao contrário, usou-o como exemplo de grandeza para zoar os celibatários involuntários que não têm a mesma estatura. Mesmo assim, ela foi condenada a sete meses de prisão.

Outro caso, mais conhecido de “difamação de mártires e heróis” , é o do blogueiro Qiu Ziming. Em junho, ele pegou oito meses de cadeia, além de uma sessão pública de arrependimento transmitida pela televisão, por contestar se realmente apenas quatro militares chineses haviam sido mortos num confronto com a Índia numa fronteira disputada entre os dois países no alto das montanhas do Himalaia.

O choque aconteceu em junho do ano passado e azedou as relações entre os dois países mais populosos do mundo. Como as respectivas forças fronteiriças têm o compromisso de não usar armas de fogo, os chineses atacaram usando mas, barras de ferro e uma profusão de armamentos primitivos, mas eficazes. A Índia admitiu ter sofrido vinte baixas.

Não é impossível que os dois países tenham mentido sobre as respectivas perdas. Prender um blogueiro por contestar os números é um ato do mais perfeito autoritarismo.

A censura a posts considerados provocativos é feita pela Agência Chinesa de Ciberespaço, que criou até um disque-denúncia para patrulhar os desvios.

A Agência também publicou uma lista dos “dez boatos” que é proibido discutir. A lista inclui banalidades, como debater se os “cinco heróis da montanha Langya” realmente saltaram para a morte para não serem feitos prisioneiros depois de infligir muitas baixas aos inimigos, ou apenas escorregaram na região escarpada.

Historiadores chineses pesquisas fontes primárias do Japão e não encontraram registros de baixas no episódio mencionado. O caso ganhou conotação política e provocou o fechamento de uma revista mensal dedicada a temas histórico, em 2016.

Na lista dos assuntos proibidões também constam temas de abrangência e importância muito maiores,  como debater se as tropas do Exército Vermelho pouparam forças contra os japoneses durante a II Guerra Mundial para poder se concentrar mais no combate aos nacionalistas – finalmente derrotados em 1948.

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Outro tema explosivo: a Guerra da Coreia, celebrada como um dos grandes acontecimentos nacionais da historiografia oficial, foi desfechada sob o falso pretexto de que os americanos pretendiam invadir a China comunista?

É absurdo colocar assuntos tão relevantes – que, obviamente, devem ser estudados e perscrutados por historiadores – ao lado de boatos como o de que o filho de Mao Tsé Tung, Mao Anying, foi morto por um bombardeiro americano durante a mesma Guerra da Coreia porque acendeu um fogareiro para fazer arroz chop suey e deu a pista de sua localização.

“Esse chop suey foi a melhor coisa que aconteceu na Guerra da Coreia”, zombou um comentarista de  de Nanchang, devidamente preso no mês passado.

A campanha contra a “difamação de mártires e heróis” faz parte do grande reajuste político que Xi Jinping está imprimindo em todas esferas do país. De forma geral, ele obedece à lógica de voltar aos princípios originais do “comunismo ao estilo chinês” e segurar o espírito capitalista  que começou a se disseminar desde as grandes reformas lançadas por Deng Xiaoping.

A abertura para a propriedade privada e a livre iniciativa, sob supervisão e com participação do estado,  liberou as forças econômicas que impulsionaram o milagre chinês, um dos maiores acontecimentos da história recente.

Agora, Xi Jinping e a cúpula comunista querem fazer uma correção de rota, sabendo que a prosperidade econômica traz inevitavelmente um desejo maior de liberdades individuais e políticas.

O grande arco de retorno aos princípios comunistas inclui desde a condenação de jovens blogueiros que adotam trajes e estilos “feminilizados” até o enquadramento dos bilionários que começaram a aparecer demais, como Jack Ma.

Exatamente há um ano,  homem mais conhecido do país, Jack Ma,, cuja empresa, a Alibaba, a “Amazon da China”, chegou a valer um trilhão de dólares, desapareceu durante vários meses. A oferta pública de ações que faria sumiu do mapa. Ma ressurgiu depois de receber uma  multa de 2,8 bilhões por formação de monopólio e não abriu a boca desde então.

Embora menos conhecidas, outras intervenções espalharam-se por empresas de alta tecnologia, finanças e até do ramo das aulas particulares onde pais zelosos colocavam seus filhos para melhorar as chances em escolas mais disputadas.

Outro sinal de que o parafuso está apertando: todos os integrantes do judiciário e dos contingentes da polícia e dos órgãos de segurança – de dimensões chinesas – voltaram a fazer sessões de doutrinação política, inspirada em exemplos de Mao Tsé Tung.

Xi Jiping dá a entender que tudo está relacionado ao objetivo da “prosperidade para todos” – e possivelmente muitos chineses mais pobres não fiquem exatamente condoídos com os apertos em empresários e executivos no topo da pirâmide.

Mas, como em todos os regimes autoritários, a prioridade número um de Xi Jinping é preservar o próprio poder. Manter o controle do Partido Comunista Chinês, cujas rédeas ele concentra, é a forma mais lógica de não ser ultrapassado por forças poderosas, sejam bilionários com ideias próprias, historiadores que ousam investigar a história ou blogueiros atrevidos.

Nada é suficientemente pequeno ou irrelevante para escapar do regime que tudo vigia. Até discussões sobre a exata extensão da Longa Marcha, o deslocamento que Mao liderou para tirar as forças comunistas da ofensiva pesada dos nacionalistas e colocá-las  em posição de, anos depois,  ganhar a guerra civil. Discutir se ela realmente se estendeu por nove mil quilômetros também está na lista que pode dar cadeia.

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