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Os loucos para reviver Roosevelt e Keynes na era do vírus

Intervenções maciças dos governos são medidas emergenciais que talvez deem certo; se transformadas em permanentes, é garantido que darão errado

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 22 maio 2020, 09h34 - Publicado em 22 maio 2020, 07h25

O culto e chique lorde Keynes só não está se revirando no túmulo porque o irmão, ignorando sua vontade, mandou cremar o corpo e jogar as cinzas na idílica propriedade campestre da família.

Se estiver acompanhando o debate atual de algum lugar no plano superior, Franklin Delano Roosevelt talvez esboce um sorrisinho e coloque mais um cigarro na piteira diante das confusões que seu legado evoca nesse momento de crise.

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Tanto o economista inglês quanto o presidente americano estão sendo responsabilizados por coisas que nunca fizeram ou pensaram em fazer. 

Seus sacrossantos nomes são repetidamente evocados para justificar a transformação das medidas de emergência diante de uma crise catastrófica em um sistema permanente de intervenção em massa do Estado via economia dirigida.

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Ou, nas infelizes palavras de um certo ex-presidente, que depois teve a decência de se retratar:

“Ainda bem que a natureza criou esse monstro chamado coronavírus para que as pessoas percebam que apenas o Estado é capaz de dar a solução”.

Mais um pouco de aula de economia e história do universo bizarro:

“Imagina quando Roosevelt teve que agir na guerra. Você acha que ele estava preocupado com orçamento? Não! Ele tinha que fazer armas para vencer a guerra”.

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Desconte-se o fato de que é compreensível confundir o New Deal, o programa de obras públicas e outras iniciativas para reverter a economia em recessão, que foi de 1933 a 1939, com o esforço de guerra, quando o capitalismo mais clássico foi desencadeado – e bancado por bônus vendidos à população, com uma ajudazinha de estrelas do show business.

Roosevelt desenvolveu por conta própria suas ideias de como tirar os Estados Unidos da crise – queda de 30% do PIB entre 1929 e 1933.

Foi, assim, um keynesiano precoce. Quando foi eleito, em 1933, recebeu a famosa carta, sugerida pelo New York Times e escrita com a elegância e precisão que eram a praxe para Maynard, como o chamavam os amigos.

Se fracassasse em “consertar os males de nossa condição”, a “mudança racional será gravemente prejudicada em todo o mundo, abrindo caminho à ortodoxia e à revolução” para decidirem a parada.

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Até hoje as duas escolas, a liberal e a intervencionista, discutem se o New Deal realmente salvou a América ou se, ao contrário, atrasou uma recuperação que já estava escrita em linhas tortas pelo mercado. 

Talvez os dois lados tenham argumentos válidos.

As cenas de miséria e desemprego haviam sumido da paisagem americana, mas a economia ainda estava em retração – 3,3% em 1938.

A explosão de riqueza que o esforço de guerra trouxe foi puxada pelo afrouxamento das regulamentações impostas pelo New Deal, não o contrário.

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As grandes indústrias que se tornaram sinônimo de capitalismo – Ford e os dois generais, Motors e Electric – passaram a ganhar mais e ter menos regulamentação quando entraram na produção de material bélico.

Roosevelt, que a direita pura e dura até hoje considera um neossocialista, republicanos para o governo e para o Conselho de Produção Bélica.

Em 1941, o PIB teve crescimento de 17,7%. O aumento real entre 1940 e 1945 foi de 72%. 

O dirigismo não desapareceu, ao contrário, atingiu níveis impensáveis, hoje, como a conversão forçada das indústrias para a produção bélica. 

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O governo desviou 10% da força de trabalho para o serviço militar com soldos abaixo do salário mínimo. 

Para priorizar as forças armadas, a população civil passou a sofrer racionamento de carne, gasolina, querosene, nylon, seda, sapatos, açúcar, café, queijo, leite e todos os alimentos processados.

Mais: o aumento de impostos foi geral, chegando a 90% nas faixas mais altas.

E o endividamento atingiu 105% do PIB – nível alcançado tranquilamente por países fiscalmente desequilibrados antes mesmo do novo vírus.

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Guerra é guerra.

Dá para imaginar racionamento e dirigismo no presente, quando só haverá escassez de produtos se a força de trabalho não for reintegrada a tempo de salvar as cadeias de produção?

Mas é fato que a grande crise econômica provocada pela pandemia ressuscitou os neokeynesianos. 

Ou os simplesmente loucos por estourar um orçamento. O que coloca o novo fã de Roosevelt na mesma liga que Donald Trump (previsão de estouro de 3,8 trilhões de dólares este ano).

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Com a superação gradual da epidemia nos países europeus, o debate entre negacionistas e histéricos – nem precisa explicar que é a respeito da quarentena – vai sendo substituído pela discussão sobre o que fazer com as economias lascadas e o desemprego galopante.

Escreveu o autor britânico Nick Tyrone na Spectator:

“Um dos temas polîticos dominantes do momento é que o Estado grande, juntamente com um modelo econômico de alta taxação e endividamento, está aqui para ficar. Os que advogam por um pouco mais de mercado e menos gastança pertencem a uma era do passado”.

“Em termos de sair da crise atual, a ideia de que o Estado deve ser o motor principal para a recuperação econômica é perigosa”.

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“Para começar, o governo não pode continuar pagando tudo para sempre. Em algum momento o mercado tem que reassumir”.

A grande dúvida, claro, é quando. Só saberemos quando o tamanho do estrago de médio prazo for sendo desenhado por economias reativadas.

Os países que já passaram pelas políticas econômicas anticíclicas na versão tropical, que horrorizariam o bom lorde Keynes, pelo menos não podem dizer que ignoram seu resultado. 

Toda vez que alguém disser “Somos todos keynesianos agora” estará ligado ao conhecido desastre acima mencionado.

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Tanto para os fãs quanto para os desafetos, John Maynard Keynes legou uma obra de respeito e tiradas preciosas pela capacidade de síntese e simplicidade de estilo.

Uma delas, para terminar: “O maior problema político da humanidade é combinar três coisas: eficiência econômica, justiça social e liberdade individual”.

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