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Os 72 anos do Dia D: Deus nos livre de uma guerra parecida

Os líderes políticos da Europa são anões comparados aos gigantes do passado, mas talvez isso não seja ruim

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h19 - Publicado em 5 jun 2016, 17h21

 

 O maior desembarque anfíbio da história: nos olhos, medo e “luz da batalha" (Photo by Roger Viollet/Getty Images)

O maior desembarque anfíbio da história: nos olhos, medo e “luz da batalha” (Photo by Roger Viollet/Getty Images)

“Os homens livres do mundo marcham juntos para a vitória. Tenho plena confiança na coragem, na dedicação à vitória e na capacidade de combate de vocês. Não aceitaremos nada menos do que a vitória total.”

Que líderes mundiais seriam capacitados a dizer palavras remotamente semelhantes a estas? Todas as gerações de pessoas historicamente conscientes, quando olham para trás, sentem-se apequenadas pela grandeza de seus antepassados em momentos decisivos.

Mas dificilmente existiriam hoje, na Europa e nos Estados Unidos, líderes mais dolorosamente ofuscados por aqueles que, como comandantes ou comandados, se lançaram há 72 anos, em 6 de junho de 1944, no ataque que, pelas dimensões físicas e simbólicas, nem as câmeras de Steven Spielberg conseguiram reproduzir em toda a sua complexa grandiosidade em Resgatando o Soldado Ryan.

As palavras acima foram ditas, em sua assustadora simplicidade, por Dwight Eisenhower, o comandante supremo dos aliados em guerra com a Alemanha nazista e demais países do eixo do mal.

Ike carregava sem nenhum drama em especial o peso de uma decisão mais difícil ainda do que a que o presidente Harry Truman tomaria no ano seguinte. Uma coisa é mandar bombardear uma cidade inimiga, mesmo que com uma bomba atômica, como fez Truman, outra é enviar a flor da juventude de seu próprio país para a morte.

Com a diferença crucial que os americanos não estavam defendendo seu país de uma ameaça existencial, como os ingleses e demais britânicos, inclusive os das colônias, e os soldados baseados no Reino Unido, vindos de países já ocupados, como França, Polônia, Bélgica, Holanda e outros.

O filme de Spielberg é a reconstituição mais fiel do desembarque na Normandia, o Dia D que abriu caminho para a batalha que levou os aliados de volta ao continente europeu e dali, quase um longo ano depois, até a rendição da Alemanha. O diretor usou o mesmo estilo das famosas fotos granuladas de Robert Capa e filmagens de época. Tudo é de um extremo realismo, os atores foram otimamente treinados, como sempre, e consultores militares não deixaram passar erro algum.

Mas como reproduzir o rugido dos 11 mil aviões usados no ataque aéreo, o movimento de 156 mil humanos atravessando o Canal da Mancha em 5 000 embarcações e a “luz da batalha” que Ike disse ter visto nos olhos da tropa? Uma luz muito mais próxima da mistura de medo e, na falta de alternativa de voltar para trás, às barcaças das quais os soldados desembarcavam, um espírito de ou vai ou vai.

Batalhas por terra costumam ser caóticas, com pouca definição do que está acontecendo mesmo com a avançadíssima tecnologia atual. A vantagem “cinematográfica” do Dia D é que aconteceu numa área bem delimitada: a faixa praiana de 80 quilômetros no tormentoso litoral da Normandia.

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Os cinco pontos de desembarque ganharam nomes legendários. Utah e Omaha, a cargo dos americanos. Gold, dos britânicos; Juno, com os canadenses, e Sword, britânicos de novo. Do alto de morros e falésias, o exército alemão tinha  vantagens incomparáveis, inclusive em matéria de experiência e treinamento, embora as forças de elite estivessem concentradas no outro extremo, enfrentando a contraofensiva soviética.

Os soldados americanos eram mal treinados, como ficaria claro nos combates subsequentes. A  supremacia de recursos e a superioridade aérea, que acabaram ganhando a guerra do lado ocidental, explicam apenas em parte como os americanos conseguiram avançar no local mais difícil de todos, Omaha. Eram 200 metros de praia minada e aberta à artilharia alemã. Depois, uma muralha íngreme de até 170 metros,  parecida com o  Morro da Urca. Foi o lugar onde houve mais baixas no desembarque: 2 400.

O aniversário de hoje do Dia D não é uma data redonda e os sobreviventes estão cada vez mais escassos, a maioria passando dos 90 anos. Não haverá celebrações excepcionais. A Europa, que nunca foi tão próspera, vive dias de pessimismo, às vezes incompreensíveis para quem é da periferia eternamente em derrapada.

Nascida do nobre desejo de evitar outras guerras através de laços econômicos inquebrantáveis, a União Européia ganhou um aspecto de labirinto burocrático, com uma casta que toma decisões jamais submetidas ao voto da plebe.

No próximo dia 23, os eleitores britânicos vão dizer se querem continuar fazendo parte dela ou não. Os principais defensores de ambos os lados usam argumentos retóricos de dar vergonha até em quem acompanhou embates recentes em Brasilia.

David Cameron, que prometeu o plebiscito para ser reeleito como primeiro-ministro, já disse que a saída da União Européia provocaria uma catástrofe econômica e até uma terceira guerra mundial. Por enquanto, ele está provocando raiva até entre partidários da continuidade.

Boris Johnson, o ex-prefeito de Londres que virou o maior defensor da saída, desafiou a lei de Godwin e disse que a última tentativa de unificar a Europa pela força foi feita por Adolf Hitler. Boris escreveu recentemente uma biografia argentária de Winston Churchill e deve ter se deixado arrebatar pelos incomparáveis discursos do maior líder político do século XX. Ou talvez esteja achando que pode tomar Pol Roger desde a hora em que acorda, uma prerrogativa para sempre churchilliana.

A França enfrenta os problemas de sempre, com greves e socialismo de boutique, acrescidos de uma ameaça terrorista que tira a graça até de campeonato de futebol. A Espanha está sem definição política desde o fim do ano passado. Angela Merkel praticamente sumiu das atividades públicas, esperado ver se passa a impopularidade provocada pela ordem de fronteiras abertas a estrangeiros e olhos fechados, por parte da policia, aos abusos sexuais por imigrantes.

Em fim de governo, Barack Obama parece achar uma chatice esse negócio de ser presidente dos Estados Unidos. Seus magos da manipulação da imprensa transformam em “históricos” até atos como a abertura do mercado vietnamita aos fabricantes de armamentos americanos. Obama acha que, agora, fala para a História – mas esta não parece estar respondendo. Será substituído por Hillary Clinton ou Donald Trump.

A inexistência de grandes líderes mundiais pode ser um sinal positivo. Nunca tantos tiveram condições materiais tão boas no planeta e os conflitos isolados são apenas isso, isolados, sem elementos para produzir hostilidades disseminadas, inclusive porque o fator dissuasivo dos arsenais nucleares ainda continua a determinar a ordem mundial.

Sob este ponto de vista, é bom que não precisemos ter um general Eisenhower, que não só disse esperar nada menos do que a vitória total, como foi lá e a obteve. Grandes lideres surgem em momentos dramáticos da história. O que será que Trump diria pelo Twitter no Dia D? Que seria um huuuuge day, com seu sotaque novaiorquino com o agá mudo? E Hillary, com seus e-mail ilegalmente secretos, que agora revelados mostram falta de inspiração e de ideias?

Só para lembrar: além de competência militar, os grandes comandantes também precisam ter sorte. Era isso que Napoleão exigia de seus generais. O comandante operacional do desembarque americano, Omar Bradley, um general introspectivo que fazia dupla com o exibicionista George Patton, a certa altura achou que o massacre em Omaha havia atingido um nível insustentável. Mandou uma mensagem por rádio a Eisenhower, seu colega de academia militar, pedindo para deslocar a tropa para outra praia. A mensagem nunca foi recebida.

 

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