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“Oi, todo mundo, eu sou o marido de Joe Biden”, diz Joe Biden

Mesmo em situações altamente controladas, o candidato democrata derrapa na linguagem - e ainda assim, continua à frente nas pesquisas

Por Vilma Gryzinski 20 ago 2020, 08h27

Joseph Robinette Biden Jr. passou quase cinquenta anos na política e já estava aposentado quando o cavalo selado da sorte trotou à sua porta.

Demorou tanto que, agora, consagrado como o candidato do Partido Democrata, está irreconhecível.

O político matreiro, simpático e nada contrário a fazer um populismo básico, dá sinais de escorregar, diante dos Estados Unidos e do mundo, rumo ao território onde a senilidade expande lentamente o seu triste domínio.

Um dos indícios mais dolorosos é a confusão serial que faz com a mulher, Jill Biden.

“Oi, todo mundo, eu sou o marido de Joe Biden”, disse na participação gravada dela na esquisita e fria convenção virtual do partido.

Em ocasiões anteriores, apresentou a irmã como se fosse a esposa e chegou a dizer “Oi, eu sou Jill Biden”.

Trancado no porão de sua casa, o ex-senador e ex-vice-presidente é constantemente cercado por um cordão de isolamento: a ideia é protegê-lo de si mesmo.

Como um candidato nessas condições pode ser presidente dos Estados Unidos?

A resposta, até agora, é simples: tendo como oponente Donald Trump.

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Para os americanos visceralmente antitrumpistas ou desiludidos com o presidente, no meio de uma pandemia que não passa e de um tombo econômico sem paralelos, Biden é a solução, não o problema.

Isolado pelo vírus diante do qual um homem que fará 78 anos em novembro é de altíssimo risco, ele vem sendo até beneficiado pelo distanciamento.

Pode representar várias coisas para diferentes tipos de eleitores que relevam os sinais de confusão mental.

Nas primárias, foi categoricamente escolhido pelos eleitores democratas como um candidato de centro, o único nome viável diante dos principais concorrentes bem mais à esquerda.

Agora, faz jogo de cena para agradar a esquerda do partido, ainda conectada com seus favoritos, como Bernie Sanders ou Elizabeth Warren.

Um exemplo disso foi a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, a grande e jovem sacerdotisa dessa ala na Câmara, que votou em Sanders só para marcar posição. 

O igualmente veterano senador socialista já estava fora da parada.

A transformação algo incômoda de Joe Biden num político esquerdista pode ser explicada por uma frase famosa de Mario Cuomo, o pai já falecido do governador de Nova York: “Campanha se faz com poesia e governo, com prosa”.

Na interpretação mais benigna, a campanha pode acomodar muitas promessas, mas depois da eleição é preciso governar com pragmatismo.

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Na menos benigna, significa que os políticos prometem a Terra e o Céu também e mentem o quanto podem quando estão na briga para ser eleitos. 

Depois, viram oportunistas. Fazem de tudo, até alianças esquisitas, tipo água e óleo, imaginem só.

Ressalve-se: oportunismo não é, de jeito nenhum, banido durante a campanha.

Só um exemplo: na fala que antecedeu a entrada do marido em cena, e seu escorregão verbal, Jill Biden lembrou como se apaixonou pelo homem viúvo e seus dois filhinhos órfãos – a mãe tinha morrido com a irmãzinha caçula num horrível acidente de automóvel.

Usar familiares falecidos para ganhar simpatia poderia alcançar o grau máximo na escala de 0 a 10 de oportunismo. Obviamente, se o candidato fosse Trump ou aliado.

Muitos americanos estão apostando que, como presidente, Joe Biden seja, exatamente, pragmático e arquive promessas irrealizáveis como “cortar pela raiz o racismo estrutural” ou boas intenções declaradas no “Plano Biden para a Mudança Climática”, o “Plano Biden para Acabar com a Violência contra a Mulher” e outros blá-blá-blás – são quarenta, no total.

Comportar-se de acordo com a liturgia do cargo já estaria muito bom.

Sobre suas confusões verbais ou mentais, até que são engraçadas. Ser casado consigo mesmo não é tão estranho assim quando se trata da narcisista e egocêntrica espécie dos políticos de carreira.

É só manter a maleta com os códigos da guerra nuclear longe dele.

E escapar da artilharia pesada do pessoal de Trump. 

Com a agressividade brutal característica das campanhas americanas, Joe Biden está sendo comparado consigo mesmo em cenas de um filmete para televisão que o mostram cheio de energia há poucos anos, na época da candidatura de Hillary Clinton, e hoje, confuso e perdido.

Entre discursos dos grande nomes do partido, sobrou fogo pesado contra Trump. 

Barack Obama rompeu o voto de silêncio que é o acordo tácito entre presidentes que saem e os que ficam em seu lugar e desceu o relho em Trump. Falou, como outros democratas em “salvar a democracia” que Trump mostra querer estraçalhar – uma tolice que pega bem em palanque, nem que seja virtual. Chegou a ficar com os olhos marejados.

Em próximas etapas, a campanha republicana vai mostrar o emaranhado esquisito de ótimos negócios que Hunter Biden, o filhão que acompanhou o pai, vice-presidente, em viagens à China e à Ucrânia, voltando com contratos de cair o queixo.

Hunter tem uma biografia complicada. Teve que sair da Marinha por testar positivo para cocaína, foi morar junto com a viúva do irmão depois da morte precoce dele por câncer e se envolveu numa briga por pensão com uma ex-stripper.

Vida particular pode ser escavada nas agressivas campanhas americanas, mais a encrenca foram os negócios sob a sombra poderosa do vice-presidente dos Estados Unidos.

Foi tentando expor os contatos ilegítimos de Hunter na Ucrânia que Trump se enrolou em pressões além do aceitável e, por causa da maioria democrata na Câmara, acabou submetido a um processo de impeachment que deu em nada.

Diante disso, um candidato que se acha casado consigo mesmo – brincadeira, as confusões decorrem da semelhança, maior ainda em inglês, dos nomes Joe e Jill – é um dos menores problemas.

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