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O protesto pós-moderno: Hong Kong ganha taça do mundo

Com tantos surtos de manifestações, nenhum outro tem características tão contemporâneas quanto os do enclave rebelado contra o gigante comunista

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 2 dez 2019, 07h47 - Publicado em 1 dez 2019, 17h11

Os chilenos parecem muito com o pessoal do PSOL no Rio, com meninas de cabelo azul e performances feministas. 

Associados com black blocs e bandidos comuns, colocaram o governo de joelhos, mas nem isso parece que vai acalmar a situação.

Os bolivianos revelaram incrível agilidade na primeira onda de protestos e conseguiram, quase inacreditavelmente, tirar um presidente que pretendia se eternizar no poder. 

Os contramanifestantes demonstraram que a população indígena, majoritária na Bolívia, não pode ser ignorada.

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Os iraquianos são o retrato da desgraça de sempre: vinte, trinta ou mais mortos em cada manifestação, uma brutalidade inconcebível em outros lugares.

Ao contrário do roteiro habitual, porém, levaram a cabeça de um primeiro-ministro e estão tocando fogo nos intocáveis, incluindo consulados do Irã.

No próprio Irã, as notícias que atravessam a cortina de silêncio digital são estarrecedoras. Centenas de agências bancárias e sedes de órgãos públicos incendiados, o aiatolá supremo xingado de ditador, uma fúria explosiva contra um regime supostamente inexpugnável.

Nessa desconcertante onda de protestos em lugares tão diferentes, por motivos tão diversos, os manifestantes de Hong Kong conseguem um lugar único.

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Em nenhum outro lugar as reações são tão ágeis, tão antenadas com os tempos atuais, levando a criatividade dos memes da internet para as ruas com o espírito irônico que define tão perfeitamente o zeitgeist, o espírito cambiante da nossa era.

Enquanto jornalistas americanos e seus copiadores espumavam de raiva com o tuíte em que Donald Trump colocou a própria cabeça sobre o corpo de Rocky Balboa, o lutador interpretado por Sylvester Stalone, um raríssimo caso de de ator trumpista, manifestantes de Hong Kong transformaram o lobisomem em cartaz.

Produziram talvez a melhor imagem dos últimos e agitados tempos. 

Tem uma leitura imediata e inconfundível, típica da trolagem digital: Trump é mais forte, seus comunistas babacas. E muitas outras camadas de interpretação.

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No sentido mais amplo, mostra como a batalha do futuro está sendo travada no presente de Hong Kong. 

É uma batalha híbrida, com violência relativamente contida, em especial se comparada ao quebra-quebra de países até recentemente ordenados como o Chile.

Os dois lados usam a última palavra em tecnologia – obviamente, com os representantes do estado, e de um estado como o da China, tendo a preponderância avassaladora de recursos.

Inclusive para influenciar a opinião pública com exércitos virtuais que apresentam os protestos como uma gravíssima ofensa à pátria.

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A tática padrão é explorar os sentimentos nacionalistas e a divisão, muitas vezes não declarada, entre chineses propriamente ditos – os que falam mandarim e veneram devidamente os supremos líderes – e os de Hong Kong, que falam cantonês e inglês e se consideram mais sofisticados.

Mas o pessoal que vai para a rua tem seus truques.

“A cidade se transformou num campo de batalha pós-moderno, onde manifestantes mascarados esgrimem redes sociais e lasers para escapar da polícia encouraçada e da tecnologia de reconhecimento facial movida a inteligência artificial”, resumiu o colunista americano Matthew Continetti.

O Trump saradão foi uma homenagem ao presidente americano por assinar dois projetos de lei em apoio aos direitos humanos em Hong Kong.

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Exatamente os projetos que a oposição antitrumpista dizia que ele nunca, jamais, em tempo algum endossaria.

Quando, pela milionésima vez, contrariou os prognósticos, foi ignorado nos Estados Unidos, mas aclamado em Hong Kong.

Qual a melhor forma de, não só agradecer, como irritar o regime comunista chinês? 

Trump como Rocky Balboa, claro.

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E, para trolar mais um pouco, cantar de novo o hino nacional americano. 

Dá para sentir as vibrações de alta cúpula chinesa espumando de raiva, igualzinho os jornalistas americanos que odeiam Trump mais do que tudo. 

USA, USA”

É claro que o pessoal do enclave rebelde sabe que Trump tem uma posição dúbia. 

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Aliás, ele e muitos outros prefeririam que esse negócio de Hong Kong fosse resolvido logo para não atrapalhar “o negócio”, o que verdadeiramente interessa, com a China.

Mas Trump segurou seus instintos e os manifestantes de Hong Kong reagiram à altura.

É claro que não existe uma “taça do mundo” para os melhores protestos. 

Mas é claro também que todo mundo compara, nem que seja inconscientemente, tudo o que está acontecendo, em especial a onda de manifestações.

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Visualmente, são muitas coisas em comum: polícia bate em jovens que estão exacerbando.

Manifestantes do Chile tentaram imitar os de Hong Kong e usar um curativo no olho, pintado com tinta vermelha, em solidariedade aos que perderam a visão com balas de borracha.

A diferença é que os chilenos acreditam fervorosamente que os imperialistas americanos maus estão por trás de todos os seus males.

O pessoal de Hong Kong gritou “USA, USA”, entre um mar de bandeiras americanas durante o mais americano dos feriados, o Dia de Ação de Graças.

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Uns são comprados pela Venezuela e os outros pela CIA? Obviamente, não (sem ignorar, um dedo aqui, outros mais ali).

Mas obviamente também não existe comparação moral entre manifestação de protesto em uma democracia, com absurdos como a destruição de bens públicos e particulares como acontece no Chile, e a rebeldia contra um regime comunista, mesmo com ações condenáveis como ataques físicos contra autoridades comunistas ou simpatizantes.

Mesmo constrangido pelas particularidades e as liberdades excepcionais de Hong Kong, o aparato do regime comunista chinês vai tecendo pacientemente sua rede.

A repressão é focalizada, dirigida, inteligente, nada da tática de terra arrasada do massacre da Praça da Paz Celestial. 

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Mas ninguém vai escapar.

Talvez por isso os manifestantes não afrouxem, mesmo depois do recuo no já quase esquecido motivo inicial dos protestos – um projeto de lei que permitia o envio de acusados de Hong Kong para desfrutar as delícias do sistema judicial chinês.

A tática do regime chinês de deixar que a vida seja transtornada constantemente no enclave também não tem dado certo.

O apoio da maioria da população aos protestos ficou claro. Na eleição da semana passada para o conselho consultivo, um órgão sem poder decisório, mas cuja escolha acabou funcionando como pesquisa de opinião pública, a oposição ganhou em 17 das 18 regiões eleitorais.

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Precisa desenhar, Xi Jinping?

Se precisar, uma manifestante levou um pequeno cartaz com a bandeira americana e a frase: “Thank you, americans”.

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