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O príncipe descalço: Harry discursa de pés nus para elites

Ele virou o ápice do politicamente correto e, claro, da hipocrisia; aliás, como todos os presentes na conferência de bilionários convidados pelo Google

Por Vilma Gryzinski 2 ago 2019, 08h16

Não existe nada mais batido do que reclamar dos muito ricos “conscientizados”, loucos para ganhar credenciais como defensores do meio ambiente.

Mas essa foi dose: o príncipe Harry apareceu descalço – nossa, que revolucionário – para discursar no Google Camp, uma reunião de bilionários interessados em salvar o planeta.

Praticamente todo mundo já sabe que nada menos que 114 aviões particulares baixaram no resort na Sicília, fora os que foram de iate, como Katy Perry e o namorado, Orlando Bloom. Nem precisa falar na pegada de carbono.

Como Leonardo DiCaprio, Harry Styles, Naomi Campbell e Priyanka Chopra vão salvar o mundo viajando como a plebe?

Os ricaços jantaram ao ar livre, diante do maravilhoso Templo de Hera, recebidos por Larry Page e Sergey Brin, os donos do Google, ao som de Chris Martin.

Não se sabe qual foi o conteúdo do discurso de Harry, mas dá para ter uma ideia com base com o que escreveu na edição especial da Vogue inglesa assinada por sua mulher, Meghan.

“Precisamos lembrar a todos que essas coisas estão acontecendo agora. Nós somos o sapo na panela e o fogo já foi aceso. O que é aterrorizante.”

Uau. Nunca ninguém imaginou que Harry fosse algum prodígio intelectual. Nem mesmo esforçado e bem informado como seu pai, Charles, um pioneiro do ambientalismo que nunca teve a ideia brilhante de aparecer sem sapatos para dar uma de antenado com a Mãe Terra.

O lance do príncipe descalço culminou uma sequência de dias seguidos de lições de moral passadas por Harry no resto da humanidade. Entre outras coisas, ele disse que tem planejados com Meghan apenas dois filhos para não acelerar o desequilíbrio ecológico planetário.

Além de ofensivo aos pobres, justamente os mais prolíficos, e de tolo, pelos riscos do encolhimento populacional de países avançados como a Grã-Bretanha, soou como uma indireta ao irmão, com quem está evidentemente perto da ruptura, e Kate, com seus três filhos.

Ele também perorou sobre o “racismo inconsciente” – nem precisa dizer por quê. Esta é uma das piores besteiras predominantes no pensamento politicamente correto no momento, fadada a produzir o resultado oposto ao da educação contra o racismo.

Se algo é inconsciente, é incontrolável. Sendo conceitualmente impossível dominar o inconsciente, melhor nem tentar.

Japoneses, por exemplo, podem continuar a desprezar coreanos sem sequer fazer um esforço para combater impulsos discriminatórios.

As pregações de Harry desenham uma mudança no perfil do príncipe ruivo. O filho caçula da princesa Diana, adorado pelos britânicos como um cara jovem que bebia, caía na farra e fazia outras besteiras, virou um chato.

Personalidades excêntricas, inclusive da aristocracia, que adotam causas exóticas fazem parte da mitologia nacional, mas a conclusão unânime, certa ou errada, é que Harry mudou por influência de Meghan.

Fulos da vida

Autora de um blog sobre superficialidades quando era uma atriz de televisão de uma série filmada no Canadá, ela trouxe para a família real todo o vocabulário progressista da moda nos meios artísticos e o ampliou.

Como duquesa de Sussex, casada com o filho do futuro rei, Meghan está criando uma imagem incompatível com o status ultraprivilegiado que ganhou.

Mesmo quando defendem causas apaixonadamente, como Charles, os membros oficiais da família real têm que ser mais isentos que juízes do Supremo Tribunal (hahaha).

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Como representam a nação e seus valores permanentes, têm que pairar acima da política, deixada aos representantes eleitos.

Meghan não pode, simultaneamente, entrevistar Michelle Obama, fazer desaforo a Donald Trump, passar sermão em todo mundo de seu país adotivo, viajar de jatinho com com Amal Clooney para um chá de bebê em Nova York, usar vestidos de 20 mil reais, desfrutar das mordomias únicas da realeza e proibir que o educadíssimo público do camarote real em Wimbledon tire fotos dela (esta a ofensa que deixou muitos ingleses fulos da vida).

Sem contar a proibição de que fossem divulgados os nomes dos padrinhos do filhinho de três meses, Archie.

Harry, como príncipe “de sangue”, tem mais latitude, inclusive para cair no ridículo do discurso descalço. Divórcio, escândalos e outras encrencas nunca farão com que perca seu status de filho, neto e mais uma longa linhagem de ascendentes monarcas.

Quando Edward seu tio avô VIII abdicou para se casar com a americana Wallis Simpson, em 1937, depois de ser rei por apenas onze meses, no maior escândalo da monarquia dos últimos séculos, continuou a ser membro da realeza.

Ganhou do irmão e novo rei, pai da futura rainha Elizabeth, o título de duque de Windsor e uma bela mesada, mas foi viver na França, sem palácios, castelos, cavalos, joias de estado, comitivas, segurança e outros salamaleques reservados ao monarca e sua família.

Perdeu também o espaço emocional ocupado no coração dos súditos, que se sentiram traídos.

Zoação

Os rasos envolvimentos em questões ideológicas podem ter consequências inesperadas. Depois da capa “militante” da Vogue, este bastião revolucionário, com mulheres que são “uma força para a mudança” – entre elas uma autodeclarada mulher trans -, a equipe de Meghan no Instagram propôs que seus seguidores sugerissem outros nomes.

Choveram respostas mencionando a duquesa de Cambridge, Kate Middleton ou a “futura rainha”.

Foram mais de 20 mil comentários, contra e a favor cada uma das cunhadas de Windsor, realimentando a rivalidade verdadeira ou percebida entre as duas duquesas, um assunto que parecia sob controle e é altamente prejudicial para a “Firma”, como é chamada a família real.

Dizia um dos comentários, nada sutil na indireta: “Catherine, duquesa de Cambridge, que se comporta com real dignidade em todas as circunstâncias e não passa sermão em seus súditos.”

É claro que o príncipe descalço e a “duquesa difícil”, designação dada a Meghan por exasperados funcionários da família real, vão fincar pé e ficar cada vez mais militantes.

O que o discurso de um príncipe a outros expoentes das elites globais, falando exatamente as mesmas coisas que seus congêneres acham, vai mudar em relação ao meio ambiente? Nada.

Para a plebe, pode ter até um efeito negativo, de raiva por um assunto tão importante ser monopolizado por ricões sem noção. Imaginem um príncipe pregando quantos filhos cada casal pode ter? Não pode dar certo.

Luis Felipe de Orleans, duque, príncipe e primo do rei Luís XVI, aderiu entusiasticamente à Revolução Francesa a ponto de mudar seu nome para Phillipe Égalité, ou Felipe Igualdade.

Como jacobino, votou pela execução do rei na guilhotina, em 1792. No ano seguinte, foi sua cabeça que rolou.

Como príncipes e reis não têm mais poder, não existe mais guilhotina e os impérios aos quais todos se curvam hoje são Google e similares, o risco maior de membros da realeza que se envolvem com política é ser zoados no Instagram.

A boa vontade e a simpatia por Harry, aumentadas pela emoção verdadeira que demonstrou no dia do casamento com Meghan e depois quando nasceu Archie, embora ele e a mulher estivessem escondendo ou mentindo sobre hora e local do parto, são enormes e podem ser reativadas com facilidade.

Mas não são inesgotáveis.

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