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Mundialista Por Vilma Gryzinski Se está no mapa, é interessante. Notícias comentadas sobre países, povos e personagens que interessam a participantes curiosos da comunidade global. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O mundo parou: o que é pior, coronavírus ou quebradeira?

Salvar vidas é a missão imediata de todos, mas a maior transfusão de todas é a de dinheiro, para impedir a economia de naufragar como um Titanic global

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 17 mar 2020, 10h48 - Publicado em 17 mar 2020, 08h07

A guerra “vai ser longa, vai ser violenta e vai mobilizar todas as nossas forças”.

As metáforas de guerra viraram linguagem corrente na era do coronavírus. Mas o ministro da Economia da França, Bruno Le Maire, estava falando da guerra econômica.

E a arma principal é o dinheiro. Le Maire anunciou 45 bilhões de euros, no plano “imediato”, para segurar a barra de empresas e assalariados. Mais um bilhão para microempresários e autônomos.

Três dias antes, seu colega alemão, Olaf Scholz, havia usado uma linguagem mais forte ainda.

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“Essa é a bazuca que estamos usando para fazer o que é necessário agora. Estamos pondo todas as armas na mesa para mostrar que somos maiores do que os problemas econômicos que possamos enfrentar.”

A bazuca alemã, claro, é bem maior do que a francesa: 93 bilhões de euros extras para o banco de desenvolvimento, acima do limite de 460 bilhões.

A projeção da devastação provocada pelo corona não tem precedentes na economia contemporânea, mesmo levando-se em conta a crise de 2008 e as antecessoras.

Talvez no futuro se fale em “corona” como se diz “1929”. Sem precisar acrescentar nada.

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A diferença é que os mecanismos são infinitamente mais sofisticados, os bancos centrais sabem o que fazer para salvar a pátria – ou a união – nessas horas e existe um consenso entre os principais países do mundo sobre o que e como fazer isso.

E entre os periféricos também. Do Brasil a Bangladesh, é juro zero e flexibilização quantitativa na veia entupida da economia. A tal flexibilização também é conhecida como dinheiro.

A pergunta é: será suficiente?

Seis trilhões de dólares já foram sugados do mercado financeiro americano desde que a crise do corona começou a repicar, em meados de fevereiro.

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Na prática, isso significa falências, desemprego, evaporação dos fundos de pensão com os quais os americanos garantem, individualmente, sua aposentadoria.

E, claro, recessão. Donald Trump já admitiu isso. Sabendo também que pode significar a implosão de suas chances de ser reeleito.

Já foi aplicado até um modelo para isso: com o índice Standard & Poor’s abaixo de 2.500 pontos, como já havia acontecido desde a quinta-feira passada (melhorou na sexta e o inferno se instalou esta semana), Trump perde a eleição.

A projeção é da Moody’s Analytics. Como todo mundo, ela já errou feio, principalmente na eleição de 2016.

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“Dá última vez em que o Standard & Poors teve três dias de oscilações violentas foi em 1929, na véspera da Grande Depressão”, comparou o analista econômico do site Politico, Ben White.

O que ele anda ouvindo no mercado: a situação é tão brava que demandaria simplesmente “fechar Wall Street, talvez durante dias”, até ter uma ideia mais clara de para onde vai a epidemia e o que vai ser feito, mais consistentemente, para tourear o tsunami econômico.

O assustador mundo novo criado pelo corona não é exatamente o ideal para projeções. Num quadro em que os acontecimentos mudam dia a dia, ou até em questão de horas, a incerteza é a regra.

Só para dar um exemplo da gravidade da crise: um senador republicano – repetindo, republicano –, Tom Cotton, propôs um programa de renda mínima de mil dólares por mês por cidadão americano, com efeito imediato.

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“É uma medida de emergência que só precisa durar algumas semanas se soubermos agir com a prudência necessária”, disse Cotton.

Ele acha que todas as outras medidas já tomadas para tentar amenizar o estrago, em acordo entre o Congresso e o governo (sim, estão agindo em conjunto, embora a Câmara tenha aberto um recente e não aprovado impeachment contra o presidente), são insuficientes, complicadas e lentas demais.

A parte menos ressaltada do discurso de ontem de Emmanuel Macron, apertando o confinamento de todos os franceses, reflete a urgência da crise.

As pequenas e médias empresas em “dificuldades” terão todos os desembolsos suspensos: impostos, contribuição social, aluguel, água, luz ou gás.

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Repetindo: todos.

Para microempresários e os chamados “artesãos” (de padarias a outras especialidades tão unicamente francesas), um abono imediato de 1.500 euros.

A França já calculou um crescimento negativo de 1% e a China, onde explodiu a epidemia, não cresceu pela primeira vez desde que começaram a extraordinárias reformas de Deng Xiaoping.

Detalhe importante: Hubei e sua capital, Wuhan, foram colocados em quarentena, mas o resto do país continuou a funcionar, pelos menos em matéria de linhas de produção, mesmo com limitações.

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Em países como Itália, Espanha e França, indústrias importantes como a automobilística, que deveriam se manter em atividade para evitar o colapso econômico, estão decidindo parar, por conta própria. Muitas vezes, por pressão de seus trabalhadores, assustados com as declarações de estado de emergência.

Um dos maiores, talvez o maior, dilemas dessa crise é como equilibrar as medidas de isolamento no campo da saúde com as consequências econômicas da semiparalisação da indústria em geral e da catástrofe pura e simples na aviação e no turismo.

“O medo é pior do que o vírus, disse um investidor de risco citado numa reportagem do New York Times sobre os “do contra”, pequenas ilhas de especialistas e pensadores que se preocupam com o que consideram reações excessivas.

Ninguém pode cravar uma resposta.

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