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O irlandês da Federal que está apertando Hillary Clinton

O diretor do FBI que reabriu investigação sobre a candidata quase eleita vira um elemento vital da campanha

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 5 dez 2016, 11h20 - Publicado em 30 out 2016, 16h26

 

Mãos de lenhador e coração de procurador: James Comey convulsiona a reta final

Mãos de lenhador e coração de procurador: James Comey convulsiona a reta final

Desagradar a direita e enfurecer a esquerda, em geral, embora não sempre, são bons indicadores de que alguma coisa certa está sendo feita. Por este critério, James Comey, o diretor do FBI que abalou a campanha de Hillary Clinton ao anunciar que o caso dos e-mails está sendo reavaliado, tirou nota máxima em imparcialidade.

Quando Comey anunciou que o caso estava fechado, dizendo que Hillary havia sido “extremamente descuidada” ao usar um endereço eletrônico pessoal quando era secretária de Estado, mas não negligentemente criminosa, o Partido Republicano uivou de raiva.

E boa parte da opinião pública concordou que qualquer outro funcionário, sem a projeção de Hillary, levaria processo e até cadeia se desrespeitasse os regulamentos de segurança, abrindo um flanco à espionagem de segredos de estado.

Democratas e simpatizantes aplaudiram Comey como uma reencarnação da divindade da justiça. Tudo se inverteu depois que ele anunciou, em carta ao Congresso, que a investigação estava sendo reaberta devido a novas informações referentes ao caso, encontradas num dos lugares mais sujos do mundo: o computador de Anthony Wiener, marido abandonado de Huma Abedin, a importante assessora de Hillary, e investigado por diálogos sexuais com uma menor.

De vendido, ele se transformou em herói justiceiro para republicanos e trumpistas. Aos olhos dos democratas, passou a ser nada menos do que uma ameaça à democracia por soltar uma revelação tão bombástica faltando poucos dias para a eleição presidencial de 8 de novembro.

“É bem estranho colocar uma coisa assim com tão pouca informação pouco antes de uma eleição”, discursou Hillary, depois da estupefação inicial. “Na verdade, não é só estranho, é sem precedentes e profundamente perturbador.”

Tirando as conotações conspiratórias, Hillary tem razão. Realmente, o anúncio de Comey é um caso sem precedentes e contraria recomendações do Departamento da Justiça e do FBI. Todo cidadão pode e deve ser investigado, mas existe uma moratória de 60 dias antes de primárias e eleições em relação a informações sobre candidatos investigados. A ideia, evidentemente, é não interferir ou criar a aparência  de intervenção eleitoral – inclusive pela presunção de inocência.

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O fato de que Comey tenha quebrado a norma é interpretado de duas maneiras – nenhuma delas favorável a Hillary. A primeira, e mais óbvia, é que pode ser uma bomba de tamanho teor explosivo que o diretor do FBI se sentiu obrigado a expor publicamente a reabertura do caso. A segunda, consequência da primeira, é que Comey ficou com medo das consequências jurídicas para ele próprio.

Quando anunciou que o caso dos e-mails estava encerrado, Comey teve que prestar depoimento ao Comitê de Justiça do Congresso – onde, é bom lembrar, os republicanos têm maioria. Se não comunicasse a reabertura do caso, certamente teria que dar satisfações a deputados furibundos e com capacidade de retaliação.

Ao mesmo tempo, se não tiver e divulgar um motivo muito bom para o anúncio público, terá provocado uma comoção eleitoral injustificável. Até a bolsa caiu na sexta-feira passada, quando ele anunciou a reabertura. Um grupo pró-Hillary entrou com queixa contra Comey no Departamento da Justiça.

Os diretores do FBI, a polícia federal americana, são nomeados pelo presidente da República para mandatos de dez anos, uma espécie de garantia de imparcialidade. Barack Obama nomeou este irlandês de mãos de lenhador e cabeça de procurador em 2013.

Embora seja registrado como eleitor republicano, caiu nas graças dos democratas por causa de um escândalo do governo Bush. Um resumo: o Departamento da Justica, chefiado pelo linha-dura John Ashcroft, havia declarado a ilegalidade de um programa de espionagem no âmbito doméstico.

Para reverter a decisão, dois dos principais assessores de Bush foram até o hospital onde Ashcroft estava internado com pancreatite. Ashcroft se recusou, com o apoio de dois altos funcionários do Departamento. Um deles era Jim Comey, que o substituía interinamente. Se o governo não recuasse, Comey iria se demitir.

Peitar um governo inteiro é uma das funções da polícia federal e do Departamento de Justiça, embora nem sempre isso aconteça. Comey mostrou coragem e integridade no caso Ashcroft e foi recompensado por Obama, apesar das reclamações sobre seu perfil republicano.

De família irlandesa, católico, casado, cinco filhos, Comey fez faculdade de Química e Estudos Religiosos, uma formação algo incomum. Depois, evidentemente, cursou Direito.

Como procurador, conseguiu por na cadeia uma celebridade da televisão, Martha Stewart, acusada de informações privilegiadas num negócio com ações. Meteu-se numa encrenca  por causa de um discurso no Museu do Holocausto no qual comparou a perseguição aos judeus na Polônia ocupada e desmanchada como nação à Alemanha nazista. Uma barbaridade contra a história e a verdade pela qual Comey teve a dignidade de pedir desculpas.

É esse o caráter do irlandês da Federal americana  que está convulsionando a mais dramática e bizarra campanha eleitoral dos Estados Unidos. Os destinos de Hillary Clinton, Donald Trump e Jim Comey agora estão interligados.

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