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O império que nos domina: algoritmo é o caminho, a verdade e a vida

Ame ou odeie Mark Zuckerberg, a presença avassaladora das redes sociais revela muito sobre os gigantes tecnológicos e sobre nós mesmos

Por Vilma Gryzinski 6 out 2021, 08h10

As redes sociais são do bem ou são do mal? A resposta mais curta é: as duas coisas. 

A queda momentânea do Facebook, WhatsApp, Instagram e outras colunas de sustentação do império de Mark Zuckerberg, demonstrou isso. 

Através delas falamos, nos relacionamos, recebemos informação, trabalhamos, comemos, negociamos, compramos, vendemos, amamos, odiamos, escolhemos ou somos escolhidos. Ao algoritmo, todos nos curvamos, sabendo ou não disso. Voluntariamente, a ele entregamos nossos segredos, nossas aspirações, nosso eu.

Não têm apenas uma presença avassaladora em nossas vidas – em vários sentidos, transformaram-se na própria vida.

A queda que sugou sete bilhões de dólares da fortuna de Zuckerberg – não que muitos chorem por isso, considerando-se que ele passou a valer “apenas” 121,6 bilhões  – coincidiu com o depoimento a uma comissão do Congresso americano da denunciante, palavra menos pesada do que delatora, Frances Haugen.

A ex-gerente de produto do Facebook disse, em resumo, que a rede sabe muito, muito mais do que suspeitávamos sobre os efeitos deletérios do Instagram – a tribuna onde todos se comparam – sobre adolescentes que passam a odiar o próprio corpo depois de verem os paradigmas de perfeição que lá desfilam incessantemente.

O algoritmo, segundo Haugen, também alimenta as manifestações de ódio, um vício que faz com que usuários intoxicados por elas voltem de novo, de novo e de novo.

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Como em todas as questões de alta complexidade, os aplicativos de Zuckerberg também podem ser um instrumento para furar a censura de sistemas fechados e propagar a revolta contra eles.

São, ao mesmo tempo, instrumentos de escravização e de libertação. As palavras evocam o universo religioso não por acaso, pois existem muitas similaridades entre o poder das redes e as manifestações do divino.

Mark Zuckerberg e outros gênios da atual revolução tecnológica evidentemente não começaram do nada seus negócios fabulosos com a intenção de dominar o mundo. Que tenham chegado a isso, de uma forma que, de novo, só pode ser comparada à influência das grandes crenças religiosas, é uma mistura de processos históricos, de saltos tecnológicos e do poder de personalidades dominantes.

É melhor deixar forças tão grandiosas seguir seu próprio curso ou tentar regulamentá-las? Mecanismos de controle podem acabar se transformando num remédio pior do que a doença?

Frances Haugen é louca por um controle, mas fez uma proposta extremamente simples: aumentar de 13 para 17 anos a idade de acesso às redes sociais. 

Pais de pré-adolescentes ou adolescentes de todo o planeta provavelmente concordam com ela. Se existe um elemento tão poderoso que vicia e transtorna personalidades em formação, por que não cerrar as portas de acesso aos que estão em idade mais vulnerável?

Outros provavelmente sacodem a cabeça diante de tanta ingenuidade: as portas já foram arrombadas e o caminho é sem volta.

São questões que competem a nós todos responder. Ainda com o gosto amargo da síndrome de abstinência que acometeu o planeta durante algumas horas na segunda-feira, sabemos muito bem que não existem respostas fáceis.

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