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O futuro rei de cofrinho de fora, entre outras coisas

Morto o pai, o príncipe herdeiro da Tailândia vai assumir o trono com passado escandaloso e guarda-roupa duvidoso

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 5 dez 2016, 11h21 - Publicado em 14 out 2016, 18h23
A namorada, o lulu e o príncipe com calça de cintura baixa: pelo menos, tatuagens eram temporárias

A namorada, o lulu e o príncipe com calça de cintura baixa: pelo menos, tatuagens eram temporárias

Para um homem com aura de divindade, vindo de uma linhagem de reis que eram considerados avatares, ou encarnações do deus Vishnu, ou dignos de ser chamados de Bodhisattva, ou iluminados, o próximo rei da Tailândia está bem despencado.

Em julho passado, o príncipe herdeiro Maha Vajiralongkorn, um playboy mulherengo de 62 anos, foi fotografado na Alemanha, onde tem residência fixa, com calça jeans de cintura perigosamente baixa, sandálias tipo papete, camisetinha regata de barriga de fora e tatuagens no peito, nas costas e nos braços.

Pelo menos, parece que as tatuagens mais ao estilo japonês, e não da escola tailandesa de decoração corporal, são decalques temporários. O jornal alemão Bild publicou as fotos, proibidas na Tailândia, onde subsiste a figura dos crimes de lesa-majestade.

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Embora a monarquia seja constitucional – isto é, quando a constituição está em vigor e não submetida a agravos por sucessivos golpes militares –, o monarca do antigo reino de Sião é venerado pela população mais apegada a tradições do budismo tal como praticado no Sudeste Asiático, com pitadas de hinduísmo.

O pai do príncipe largadão, o rei Bhumibol, que morreu aos 88 anos, está sendo velado no palácio real de Bangkok. A procissão fúnebre entre o hospital e o palácio, com todos os muitos milhares de participantes usando roupas escuras, demonstrou o respeito quase religioso com que era tratado.

O país está de luto, com música fúnebre nas televisões, fotos só em preto e branco nos jornais e até uma suspensão temporária no notório ramo do entretenimento noturno. Supostamente, era esta a especialidade da terceira mulher do futuro rei, Srirasmi. Quem tinha coragem ou muita vontade de fofocar, dizia que membros da nobreza não se prostrariam, como é da tradição, diante de uma rainha com um passado assim. O casamento foi mantido em segredo durante muitos anos.

Em 2007, vazou um vídeo grotesco do príncipe herdeiro com ela, que ainda ocupava o posto de amante. Ele fez uma festa para seu poodle de estimação, Foo Foo, que tinha até o título de brigadeiro da Força Aérea, com direito a uma pequena farda de gala. Srismami aparece só com salto alto e uma tanga minúscula, abaixada no chão, cantando Parabéns para o cachorrinho.

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O assunto foi resolvido quando Vajralongkorn se divorciou da ex-princesa Srirasmi, em 2014. Vários membros da família dela foram presos por corrupção. Na foto tirada na Alemanha, quem está com ele é a namorada atual, ex-aeromoça promovida a tenente-general da guarda real. O poodle, idêntico a Foo Foo, atende pelo nome de Fee Fee.

É claro que Vajralongkorn tem uma péssima reputação e durante muito tempo pairou a possibilidade de que o príncipe, mais interessado em morar em Munique e desfrutar do patrimônio real de 52 bilhões de dólares, nem assumisse o trono.

Com a morte do pai, ele voltou ao país e fez a declaração exigida pelo protocolo de que vai “aguardar” para assumir o trono. Como outros integrantes da família real, o príncipe tem suas preferências políticas. É muito ligado ao milionário Thaksin Shinawatra, que foi primeiro-ministro, derrubado em golpe militar em 2006.

Exilado em Dubai, o populista Shinawatra continua a ter influência política na Tailândia. Ele patrocina o movimento dos camisas-vermelhas, uma estranha aliança entre trabalhadores rurais e esquerdistas, e promoveu a irmã como uma espécie de avatar politico.

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Seus adversários, também adeptos de grandes paralisações, são os camisas- amarelas, monarquistas. Uma irmã do futuro rei, a princesa Chulabhorn, assumiu abertamente o partido dos camisas-amarelas.

Apesar do histórico de golpes, da localização propícia ao tráfico de drogas, da indústria do sexo e dos problemas com minorias, a Tailândia é um país relativamente estável. Escapou dos confrontos quentes que durante a Guerra Fria provocaram enorme destruição e sofrimento em vizinhos como Vietnã, Camboja e Laos.

O atual governo militar nasceu de um golpe dado em 2014, com apoio tácito do rei Bhumibol. Ao contrário dos anteriores, não prometeu rápida restauração do processo democrático. Continua a ter o apoio dos camisas-amarelas.

A questão é saber se o futuro rei irá manifestar alguma simpatia pela oposição. E se ele vestir, ainda que metaforicamente, uma camisetinha vermelha, mesmo que sem barriga e cofrinho de fora, como apareceu na Alemanha?

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