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Novo dilema: e se adultos jovens fossem vacinados primeiro?

Com as vacinas chegando, surgem questionamentos sobre ordem de imunização e propostas menos óbvias sobre como deveria ser

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 26 nov 2020, 14h47 - Publicado em 25 nov 2020, 08h13

Se você tem acima de 60 anos e filhos adultos, dificilmente haveria dúvida: sendo possível, cederia de bom grado seu lugar na fila de vacinação a eles.

Extrapolar para a população em geral é mais complicado. Seguindo a lógica elementar, a maioria dos países já estabeleceu suas ordens de prioridade começando com os grupos de risco: os mais idosos, cuidadores e funcionários da área de saúde, portadores de patologias de risco e assim vai, em ordem decrescente, até chegar aos mais jovens e, felizmente, mais protegidos da doença e suas complicações.

Mas outro tipo de lógica pode ser aplicado, visando sempre o princípio ético de favorecer a maior quantidade possível de pessoas. 

Foi isso que fizeram pesquisadores da Universidade Khalifa, dos Emirados Árabes Unidos. O estudo foi dirigido pelo espanhol Jorge Rodriguez e divulgado pelo medRxiv, um site que publica estudos da área de saúde antes do processo de revisão pelos pares.

Com base em modelagem matemática desenvolvida pelos pesquisadores, o estudo sustenta que vacinar primeiro trabalhadores dos setores essenciais e adultos jovens seria a metodologia com resultados mais positivos.

“Nossos resultados contradizem os planos de vacinação para a população geral e recomendam uma ordem por idade quase contrária à que está sendo proposta”, disse Rodríguez, engenheiro químico especializado em modelos de processos biológicos, ao jornal El País.

“Nosso modelo indica, de forma inequívoca, que a vacinação prioritária aos grupos populacionais com maior interatividade poderia conseguir, num país como a Espanha, enormes reduções nos óbitos totais em comparação com a vacinação pelos critérios de alta mortalidade”.

Mais: os autores sustentam que a priorização dos grupos com mortalidade maior e interatividade reduzida produz “números significativamente maiores” de óbitos.

Os critérios éticos, por motivos óbvios, são de alta complexidade. Como os testes com vacinas não incluem um número proporcional de idosos acima de 65 anos (três quartos dos óbitos por Covid 19) e portadores de patologias que os colocam nos grupos de maior risco de vida, não é possível assegurar a eficácia e a segurança da vacina para estas categorias.

Existe ainda o caso específico dos pacientes com imunodepressão grave que não podem ser vacinados – e dependem da “muralha protetora” fornecida pelos já imunizados.

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A lógica da vacinação dos mais jovem está justamente nessa muralha: como saem mais para trabalhar e frequentar lugares aglomerados como bares e restaurantes, podem ser também os maiores transmissores.

Vários estudos recentes avaliam os lugares onde é mais provável ser infectado. O CivicMeter entrevistou 27 epidemiologistas para fazer sua lista.

Em ordem crescente, os 21 lugares mais vulneráveis são: reuniões ao ar livre, hotéis, áreas ao ar livre de restaurantes, museus, banheiros públicos, lojas e supermercados, locais fechados de trabalho, táxis ou veículos por aplicativo, salões de beleza, transportes públicos, escolas, hospitais, aviões, aeroportos, reuniões ao ar livre sem distanciamento, academias, estádios de esportes, restaurantes fechados, cinemas ou igrejas, e casas de repouso. Em primeiro lugar, empatados, bares e prisões.

Ou seja, praticamente tudo o que se faz fora de casa.

Anthony Fauci, o epidemiologista-estrela dos Estados Unidos, ressaltou recentemente o perigo dos bares fechados: os frequentadores não usam máscara e ficam muito próximos e o ar não circula.

“Também estamos vendo muitos casos – não hipoteticamente, mas na realidade – em que famílias e amigos se reúnem inocentemente e aquilo se transforma em local de transmissão do vírus”, avisou.

Estudando os contatos de pessoas que testaram positivo para o corona, a entidade de saúde pública da Inglaterra incluiu no alto de sua lista os supermercados.

Entre 128.808 pessoas, 18,3% tinham ido a um supermercado na fase contagiosa da doença.

Vacinar primeiro os que circulam mais, os que trabalham em lugares mais expostos ou os que sofrem mais sofrem complicações graves?

Dificilmente os mais jovens estarão no começo da fila, mas propor questões complicadas é obrigação da ciência. 

E o maior experimento mundial de vacinação em massa, prestes a começar, ainda vai trazer novas – e complexas – questões.

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