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Nova York contra o crime: futuro prefeito foi capitão da polícia

A escolha do democrata moderado Eric Adams na eleição primária mostra que a população está com medo do aumento da criminalidade

Por Vilma Gryzinski 9 jul 2021, 07h35

“Nós não vamos recuperar o turismo na cidade se tiver turistas levando tiros em Times Square”. A frase é tremendamente óbvia, mas o fato de ter sido dita por Eric Adams, cuja escolha como candidato democrata garante que será eleito, implica numa silenciosa revolução.

Pelo clima político vigente nos círculos mais liberais, principalmente depois dos acontecimentos desencadeados pelo assassinato de George Floyd por um policial, falar em necessidade de combater o crime pode ser um atestado do mais horrível e virulento conservadorismo.

Eric Adams tem currículo para enfrentar o problema sem medo de parecer um brucutu de direita. Entrou para a polícia motivado por abusos que sofreu quando jovem negro e pobre, mas não apoia o “desfinanciamento”, o corte de verbas que a esquerda prega como solução para os casos de violência policial. 

Aposentou-se como capitão da polícia, foi senador estadual e se elegeu para a subprefeitura do Brooklyn. Como compete a alguém saído do centro irradiador de todos os modismos, é vegano. Escreveu um livro sobre a dieta radical que o salvou da insulina quando recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2.

Tem um bom capital de simpatia com o sorriso contagiante e nunca poderá ser acusado de “privilégio branco” se propuser melhorias no combate ao crime. Ao contrário, pode dizer durante a campanha que as políticas mais esquerdistas defendidas por “muitos jovens brancos e afluentes” prejudicam primordialmente as minorias “negras e marrons” – virou moda nos Estados Unidos usar uma cor feia como marrom para definir latinos e outros não-brancos.

Como no Brasil, o grosso da criminalidade nas grandes cidades americanas afeta acima de tudo os centros urbanos empobrecidos e bairros onde vivem minorias raciais. Todas estas cidades têm prefeitos democratas há muitas décadas e oferecem um bom argumento à oposição republicana como exemplo de fracasso administrativo. 

A pior de todas é Chicago, onde mais de cem pessoas foram baleadas no feriado do último Quatro de Julho. A prefeita, Lori Lightfoot, e o chefe de polícia, David Brown, são negros. Em lugar das acusações habituais de racismo e discriminação social, ambos agora apontam para o judiciário por soltar criminosos indiscriminadamente – outra situação que se parece com a do Brasil.

Em Nova York, apesar de uma queda entre o ano passado e este – provavelmente atribuível à pandemia -, assaltos e homicídios têm aumentado desde que Bill de Blasio, da ala esquerdista dos democratas, assumiu a prefeitura, em 2014. 

Pequenos comerciantes costumam estar entre os mais afetados – e muitos se revoltaram com a leniência da justiça, que enquadrou apenas por invasão de propriedade, uma infração sem maiores punições, os saqueadores que se aproveitaram dos protestos antirracistas do ano passado. Outro caso de confusão entre “justiça social” e justiça criminal.

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A situação é quase cômica em São Francisco, a ultraliberal cidade em torno da qual vivem bilionários high tech e cujo centro abriga uma grande quantidade de sem-tetos. Em 2014, foi aprovada uma lei estadual segundo a qual não é processada como furto a subtração de mercadorias até o valor de 950 dólares. 

Outro caso em que boas intenções redundam em maus resultados. Vídeos recentes mostram a facilidade com que ladrões entram em lojas e, na maior tranquilidade, pegam mercadorias. Um deles entra de bicicleta numa farmácia da rede Wallgreens e se serve à vontade enchendo um saco de lixo de produtos. Os seguranças já desistiram de chamar a polícia, sabendo que nada será feito.

“Enquanto ativistas liberais orientam suas políticas para combater a supremacia branca e reivindicar justiça racial, progressistas estão descobrindo que eleitores de cor parecem pensar de maneira um pouco diferente”, escreveu o New York Times, pisando em ovos, com medo de ofender suscetibilidades raciais.

Um cientista político consultado pelo jornal descreveu como os eleitores negros “são mais Eric Adams do que AOC” – ou Alexandria Ocasio-Cortez, a deputada estrela da esquerda americana que apoiou uma candidata afinada com ela para a prefeitura de Nova York.

O próprio Eric Adams reivindicou uma posição relativamente centrista como a saída para o Partido Democrata na eleição de novembro do ano que vem, com o risco real de que o partido perca a maioria atual na Câmara, o que afetaria gravemente os projetos de Joe Biden.

“Eu sou a nova cara do Partido Democrata”, disse Adams depois da primária, cujo resultado levou semanas para ser confirmado. “Se o partido não reconhecer isso, vai ter problemas”.

É claro que o futuro prefeito não vai ressuscitar a política das “vitrines quebradas”, ou de tolerância zero com qualquer infração, celebrizada por Rudy Giuliani nos anos noventa por ter conseguido reduzir drasticamente a criminalidade em Nova York.

Os tempos são outros. Eric Adams não tem a simpatia de muitos de seus ex-colegas da polícia e vai pegar uma cidade duramente afetada pela pandemia, com mais crime, mais população de rua, menos turistas e menos crença em sua posição de centro urbano mais poderoso, rico e influente do mundo. 

No ano passado, Pequim alcançou por um a posição de cidade com maior número de bilionários – 100, contra 99 em Nova York. É um reflexo da ascensão econômica da China, o maior fenômeno mundial do planeta dos últimos anos. Nada que um prefeito possa mudar. Mas continuar a ter tiroteios em Times Square não vai ajudar em nada a cidade legendária a se recuperar.

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