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Negroni envenenado: como agentes russos tentaram matar Navalny

Um drinque com Novichok, brutal substância química, pode ter sido o meio usado no atentado contra o homem que ousa desafiar Putin

Por Vilma Gryzinski 18 dez 2020, 08h18

Vladimir Putin disse que seus agentes teriam “feito o serviço direito”. Sergey Lavrov, o ministro das Relações Exteriores, achou “engraçado ler” a reportagem do site Bellingcat, o incrível “escavador” de informações que se associou a veículos como a CNN para fazer o que faz de melhor: garimpar dados públicos como manifestos de passageiros e registros de chamadas por celular.

Putin e Lavrov podem se dar ao luxo de ironizar as denúncias que embasam o que todo mundo já sabia por um motivo muito simples: não haverá consequências para eles.

Ao contrário da cínica política de doping generalizado que rendeu à Rússia uma proibição a participar por quatro de eventos esportivos internacionais como as Olimpíadas e a Copa do Mundo, tentar eliminar desafetos não provoca mais sanções do que as já vigentes contra a Rússia.

Não há o que perder, portanto – fora a humilhação “profissional” por outro atentado que não deu certo.

Por que agentes da espionagem russa, com sua reputação de eficiência, teriam fracassado nas três ultimas tentativas conhecidas com Novichok, contra Alexei Navalny, em Tomsk, na Sibéria: Sergey Skripal, ex-agente duplo, em Salisbury, na Inglaterra; e o fabricante de armas Emilian Gebrev, em Sofia, na Bulgaria?

O atendimento médico rápido provavelmente está na base dos três casos, que deram a Putin a desculpa para dizer que, se fossem os serviços russos os responsáveis, os envolvidos não teriam sobrevivido.

No caso de Navalny, foi provavelmente o piloto do avião que fazia um longo voo entre Tomsk e Moscou. Quando o dissidente tombou no corredor, literalmente aos uivos, o piloto revolveu fazer um pouso de emergência e Navalny, até então desconhecido para os socorristas, recebeu atendimento médico na pista mesmo.

Depois, sob pressão, o governo russo liberou Navalny para ser tratado na Alemanha, onde foi comprovado o envenenamento por Novichok, um agente químico que funciona como um agrotóxico superturbinado.

Alexei Navalny contou ao Bellingcat suas suspeitas. Em 20 de agosto passado, voltou com seu pequeno grupo ao hotel de Tomsk, cidade siberiana onde fazia campanha pelo voto em candidatos que promovessem algum tipo de oposição à hegemonia de Putin.

No bar do Hotel Xander, pediu um Bloody Mary. O bartender disse que não tinha os ingredientes para o drinque feito com suco de tomate, vodka e temperos. Ofereceu, como alternativa, um Negroni.

Navalny disse que aguentou apenas um gole “da coisa mais repulsiva que já tomei na vida”.

Estaria aí o Novichok?

Impossível não lembrar do caso de Alexander Litvinenko, outro ex-agente russo, envenenado em 2006 com polônio-210 colocado em seu chá num encontro, no hotel londrino, com antigos colegas de profissão.

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Com os recursos mais ricos hoje à disposição, num mundo mergulhado em informações que podem ser garimpadas pelos obsessivos, como os pesquisadores do Bellingcat, foi possível uma investigação, no caso de Navalny, melhor ainda do que a feita pelas autoridades britânicas na época de Litvinenko.

Navalny, nada surpreendentemente, era seguido por agentes do FSB, o substituto da KGB, constantemente. Em mais de trinta viagens, suas “sombras” o acompanharam, geralmente seguindo o método de tomar voos paralelos.

O Bellingcat identificou três agentes que seguiram Navalny na viagem a Tomsk. Os três usavam identidades falsas seguindo o mesmo método comum à FSB: primeiro nome verdadeiro, patronímico e sobrenome inventados, muitas vezes copiados das esposas ou namoradas; e data de nascimento com diferença de um ano.

São eles: Alexey Alexandrov, codinome Alexey Frolov, médico e possivelmente o chefe da operação do FSB em campo; Ivan Ossipov, ou Ivan Spiridinov, também médico e agente secreto, e Vladimir Panyaev, também ligado à FSB. 

Numa coincidência “surreal”, Panyaev morava no mesmo prédio que Navalny, em Moscou. Depois do envenenamento do dissidente, seu endereço mudou: passou a ser o mesmo da sede da FSB, a Lubyanka de passado historicamente tenebroso durante a era soviética.

O Bellingcat identificou mais cinco agentes, inclusive o chefe da operação, o coronel Stanislav

Makshakov, que trabalhou no instituto militar secreto onde o Novichok foi desenvolvido em contravenção aos acordos internacionais de controle de armas químicas.

“A maior parte da informação que usamos para nossas investigações nunca estaria disponível na maioria dos países ocidentais, mas na Rússia podem ser acessadas gratuitamente ou por uma quantia bastante modesta”, escreveu o Bellingcat.

Uma identidade real proporciona, em questão de minutos, data de nascimento, número do passaporte, casos na justiça, placa do carro, o equivalente russo ao CPF, multas de trânsito e lugares frequentes de estacionamento.

Identidades criadas têm um “vazio”, com histórico inexistente ou mal e mal encenado.

Isso não foi uma investigação, mas “uma armação para pegar pessoas importantes”, disse Putin. E os dados do Bellingcat e associados são a prova de que a inteligência americana está por trás de tudo, acrescentou. Sem contar que agentes russos “provavelmente teriam feito o serviço”.

Talvez Putin esteja certo em pelo menos uma dessas afirmações.

De qualquer maneira, os que ousam desafiar Putin deveriam prestar atenção na origem dos drinques que pedem em locais desconhecidos.

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