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Natal politicamente correto: nem o Papai Noel escapa da praga

O bom velhinho vira metade velhinha e um clássico da época das festas, Baby It’s Cold Outside, ainda enfrenta boicote em rádios americanas

Por Vilma Gryzinski - 19 dez 2018, 16h12

É para rir ou para chorar?

Os surtos politicamente corretos da época natalina são cômicos, mesmo sem querer.

Em geral, como brasileiros, estamos acostumados a ver Papai Noel em toda diversidade de tons de pele e circunferência abdominal. Mas o que dizer do bom velhinho que foi colocado num shopping de Auckland, na Nova Zelândia?

Metade Mary Poppins, (bolsa, guarda-chuva e casaco, aproveitando o novo filme) e metade personagem de paródia de filme pornô, o Papai Noel de calçolas é um resposta direta ao líder da oposição de centro-direita, Simon Bridges.

Ele cometeu a loucura de associar Papai Noel ao sexo masculino, ou homem cis na novilíngua, apesar da suspeita ausência de mulheres em seus domínios na Lapônia.

Levou uma lapada. A assessoria de imprensa do shopping disse que o personagem metade homem, metade mulher  ambas pavorosas  traz “uma nova perspectiva à conversa sobre diversidade de gêneros”.

Alguns pais, de mentes não devidamente esclarecidas, reclamaram.

Na Inglaterra, na época de fim de ano são montadas muitas pantomimas, palavra usada no sentido de produção teatral para crianças.

Nada a ver com mímica, mas com muitas características circenses e piadinhas de duplo sentido, para diversão dos pais que acompanham os rebentos.

Uma palhaçada típica já caiu fora: a brincadeira do personagem masculino que levanta a saia de um feminino. “Todos estão ficando mais cuidadosos com estas coisas”, disse um produtor.

“Estas coisas” criaram uma situação surreal: humoristas procurados pela Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres para um espetáculo beneficente teriam que assinar um “termo de compromisso” de que só fariam piadas de “modo respeitoso”.

“Ao assinar este termo, o signatário concorda com nossa política de não-tolerância em relação a racismo, sexismo, discriminação por classe ou idade, homofobia, bifobia, transfobia, xenofobia, islamofobia ou antirreligiosidade ou antiateísmo.”

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Um dos comediantes que recebeu a proposta, o russo Konstantin Kisin, comentou: “Eu nasci na União Soviética e era exatamente disso que estávamos fugindo. O próprio conceito de humorismo é explorar e desafiar os limites.”

Ninguém duvida das boas intenções dos integrantes da faculdade, conhecida como SOAS – e muitos alunos célebres, incluindo o orientalista Bernard Lewis, a líder birmanesa Aung San Sou Kyi (que passou de heroína da resistência pacífica a vilã, pela perseguição da minoria muçulmana) e uma longa lista de políticos asiáticos e africanos.

O problema é quando as boas intenções criam um mecanismo politicamente correto que interfere a extremos ridículos na liberdade de expressão, o maior tesouro da civilização ocidental.

Este controle é especialmente forte no meio universitário e outras instituições de ensino da Inglaterra e dos Estados Unidos, onde predominam ideias esquerdistas com peso desproporcional em relação ao resto da sociedade.

As “questões de gênero”, obviamente, estão na linha de frente. Em Brighton, a cidade litorânea próxima de Londres, as escolas primárias foram instruídas a incluir o seguinte esclarecimento nas aulas de educação sexual: pessoas de “todos os gêneros” podem ter menstruação.

“Meninos e homens trans e pessoas não-binárias podem menstruar”, diz a orientação dirigida a alunos na faixa de oito e nove anos. É esta uma maneira correta de combater a discriminação ou uma maluquice pura e simples?

Os absurdos politicamente corretos também podem retroagir no tempo. A mais comentada “vítima” recente desse mecanismo foi a música Baby It’s Cold Outside, que virou um clássico da gélida época natalina no hemisfério norte.

Originalmente, a música apareceu num filme de 1949. Esther Williams, a nadadora que virou estrela de um subgênero maravilhosamente kitsch, o dos musicais aquáticos, e o mexicano Ricardo Montalbán, cantam o dueto com subentendidos quase cômicos para os tempos atuais.

Ela finge que tem que ir para casa, ele faz de tudo para que ela fique – daí a insistência no refrão sobre o “frio que está lá fora”.

O jogo de sedução mútua foi cantado por muitas duplas, incluindo Dean Martin e várias parceiras. Há alguns anos, a música começou a ser chamada de “hino ao estupro” do tipo praticado por um homem que sai com uma mulher e força o sexo.

Algumas rádios americanas proibiram a música este ano. A versão com Dean Martin gravada em 1959 estourou em downloads.

“Meu pai teria ficado louco com esta história”, disse a filha dele, Deana Martin.

Não é só ele não.

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