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Mulher de bandido, influencer e perigosa: Emma Coronel vai falar?

Presa nos Estados Unidos, onde o maridão El Chapo ficará trancafiado para sempre, ela tem a opção de entregar tudo - ou ficar dez anos longe das filhas

Por Vilma Gryzinski 25 fev 2021, 08h09

Emma Coronel é uma bomba ambulante. Não pelo marido ou os cúmplices dele no cartel de Sinaloa – Joaquín Guzmán, o notório El Chapo, cumpre prisão perpétua numa supermax no Colorado.

A clone de Kim Kardashian, de quem copiou cabelo, boca, nariz, seios e outros atributos, foi presa e deixou em posição desconfortável muita gente do penúltimo governo mexicano, de Felipe Calderón.

O mais de desconfortável é Genaro García Luna, ex-ministro da Segurança Pública, igualmente preso nos Estados Unidos – o único país onde o avassalador poder de corrupção do narcotráfico não impede algo pelo menos parecido com justiça para os poderosos chefões e seus asseclas.

“Não se sabia onde terminava a delinquência e começava a autoridade”, espetou o presidente Andrés Manuel López Obrador, que fez a ligação entre a prisão de Emma, a ex-rainha do Café e da Goiaba de uma cidade do interior que enlouqueceu o chefão tampinha (Chapo), e o ex-ministro.

“Pode ser que o governo dos Estados Unidos dê mais informações, é um assunto deles”, desconversou AMLO.

Com seu estilo peculiar, o presidente já lamentou a “desumanidade” da prisão perpétua do traficante numa penitenciária de regulamentos extremamente rígidos. Também fez um desvio numa cerimônia oficial para falar com a mãe de El Chapo. Era o inicio da pandemia e ela ficou dentro do carro. 

Pior ainda: numa atitude quase inacreditável, até mesmo para os padrões do México onde reina o narcotráfico, o presidente deu ordem para soltar o filho de El Chapo, Ovídio, preso numa operação do Exército em Culiacán. Asseclas do traficante tomaram a cidade de assalto e provocariam “uns duzentos mortos” se Ovídio não fosse solto, segundo o motivo alegado por AMLO.

A debilidade, quando não a cumplicidade, das instituições do Estado estão na raiz do enorme poder do narcotráfico no México, impulsionado pela proximidade com os Estados Unidos, o grande mercado consumidor, e um “modelo de negócios” altamente bem sucedido.

El Chapo, por exemplo, especializou-se em entregar a cocaína vinda da Colômbia, rápida e eficientemente, por qualquer meio imaginável, desde caixas de bananas com frutas recheadas de pó até submarinos improvisados.

Suas fugas espetaculares não teriam ocorrido sem cumplicidade de autoridades constituídas. Uma das acusações contra García Luna é que facilitou as coisas para que o traficante cavasse um túnel sob o banheiro de sua cela na penitenciária teoricamente de segurança máxima. O diretor do serviço penitenciário recebeu dois milhões de dólares para olhar para o outro lado.

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Suspeita da intermediação: Emma Coronel, acusada também de levar um relógio com GPS para posicionar exatamente a escavação do túnel.

É esse tipo de informação que a torna explosiva. O marido já está preso mesmo, poderia raciocinar diante da hipótese de pegar no mínimo dez anos de cadeia e, no máximo, prisão perpétua. Como será a vida das filhas gêmeas, María Joaquina e Emali, hoje com nove anos, sem pai nem mãe?

Quando foi extraditado e julgado nos Estados Unidos, El Chapo assistiu, inabalável e com o apoio diário de Emma, a sucessão de testemunhos sobre as atrocidades que mandou cometer ou cometeu pessoalmente, transformando centenas de rivais, cúmplices ou desafetos em “carne assada” – a terrível expressão usada para designar os corpos dos mortos pelos cartéis.

Tudo o que o traficante fazia era regularmente transmitido para o DEA, a polícia americana de combate às drogas que havia cooptado seu técnico de informática, um jovem colombiano que convenceu El Chapo a aderir ao mundo digital com o argumento de que poderia controlar as comunicações das inúmeras amantes e da jovem esposa, Emma.

Com dupla nacionalidade, mexicana e americana, ela levava até o dia em que foi presa uma vida de celebridade. Chegou a abrir uma loja digital para vender roupas e acessórios com a marca JGL, as iniciais de EL Chapo.

Como  influencer do mundo digital, era paparicada com presentes e outros mimos. No Dia dos Namorados, recebeu flores, chocolates e bijuterias de interessados em ver seus produtos divulgados. 

Suas últimas fotos no Instagram foram com um vestido de noiva de um estilista conhecido. Estava loira. Foi presa ao desembarcar no aeroporto de Dallas. Acusação: formação de quadrilha para o tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e correlatos. 

As acusações conhecidas mais diretas contra ela foram feitas por Dámaso López Nuñéz, conhecido como El Licenciado, ex-braço direito de El Chapo que está colaborando com a justiça americana.

Contou em detalhes como se encontrou “com minha comadre” e planejou a fuga de El Chapo em 2016.

Os três filhos de El Chapo continuam a dominar o cartel de Sinaloa, mas com o cabeça afastado não faltam concorrentes. Em algum momento, o império vai ruir e Emma Coronel ficará sem a proteção dada à mulher – ou mulher principal – do chefe. 

A perspectiva de passar anos na cadeia e sair dela para um status diminuído não deve ser muito animadora. Pelas leis da omertà, não pode falar uma palavra contra ele ou seus asseclas, mas muitos outros envolvidos não devem estar dormindo tranquilos.

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