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‘Morte aos mentirosos’: a indescritível coragem dos iranianos

Contra tudo e contra todos, inclusive os antitrumpistas que decretaram prematuramente sua morte, manifestantes iranianos desafiam regime brutal

Por Vilma Gryzinski - 13 jan 2020, 14h57

As coisas que estão acontecendo no Irã são extraordinárias, quase surreais.

Nas mesmas cidades onde milhões de iranianos surtaram coletivamente com a passagem do cortejo fúnebre de Qasem Soleimani, outros cidadãos, em número menor, mas com incomparável coragem, estão fazendo o exato oposto.

Gritam “Abaixo do ditador”, referindo-se ao octogenário que supostamente deveriam venerar como o Líder Supremo da revolução islâmica.

Pedem “Morte aos mentirosos”, todos os integrantes do regime que negaram, negaram e negaram, até não dar mais, que um míssil disparado por engano incinerou 176 vidas inocentes no avião ucraniano que, absurdamente, confundiu com um foguete supostamente americano.

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Rasgam cartazes com Qasem Soleimani, consagrado como mártir não só por todo o regime e as forças que o apoiam – e chega, absurdamente, até meios de comunicação dos Estados Unidos.

Entre os manifestantes, muitas mulheres que mandam não só o shador, o véu preto obrigatório na cabeça, como a prudência para o espaço.

Mais inacreditavelmente ainda, estudantes da universidade Beheshti tomaram deliberadamente o cuidado de se espremer contra as laterais da entrada do conjunto de prédios.

Objetivo: não pisar nas bandeiras dos Estados Unidos e de Israel pintadas no chão exatamente para serem ultrajadas diariamente.

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Vaiaram os que fizeram o que já foi feito tantos milhares de vezes e andaram sobre as bandeiras pintadas no asfalto.

Alguns gritaram: ”Os inimigos estão no Irã”.

Como é obrigatório hoje, as redes sociais bombaram com comentário que refletem uma imagem completamente contrária de coesão no luto nacional por Soleimani.

“Estou acreditando mais no Satã”, dizia uma delas, em referência ao nome habitual usado para os Estados Unidos.

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O catalisador das manifestações foi a derrubada do avião, cinicamente negada contra todas as evidências, mas a revolta contra o regime já vem de muito tempo.

O onipresente Soleimani armou a repressão que matou iranianos por não gostarem do governo e levou o modelo para o Iraque, onde a revolta era muito maior.

Uma quantidade extraordinária de jornalistas americanos garantiu que os mísseis que incineraram Soleimani e sua turma, sem provocar nem uma única baixa colateral, significavam a morte dos protestos no Irã e no Iraque.

Todos estariam unidos na revolta contra a morte de Soleimani ou não ousariam se manifestar num momento tão perigoso.

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Errados, errados e errados.

Com uma coragem extraordinária para quem tem alguma ideia dos perigos que correm, iranianos e iraquianos nem pediram licença para discordar.

Simplesmente, voltaram para as ruas.

CORREÇÃO: No post intitulado “Oriente Médio: dez fatos para esfriar a cabeça depois do susto”, o primeiro-ministro iraquiano é chamado de Nuri Malik. Errado, errado e errado. O primeiro-ministro é Adel Abdul-Mahdi. E parece que está fazendo uma conhecida encenação: pede em público a retirada dos americanos, mas diz o oposto em particular.

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Aos leitores, mil perdões pelo erro.

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