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Mistério do vírus: agressividade está diminuindo na Europa?

Esta é a teórica novidade boa; entre as ruins, estão sequelas deixadas em recuperados, os repiques nos Estados Unidos e o tamanho da conta

Por Vilma Gryzinski - 25 Jun 2020, 05h22

“Ele era um tigre agressivo em março e abril, mas agora é um gato do mato”.

A comparação foi feita pelo infectologista italiano Matteo Bassetti.

Ele é o segundo médico italiano a levantar a hipótese de que a virulência que causa a Covid-19 está diminuindo.

“Os padrões eram outros em março e abril. As pessoas chegavam na emergência com uma doença muito difícil de administrar, precisavam de oxigênio e intubação”.

“Agora, até pacientes mais velhos, de 80 ou 90 anos, estão sentando na cama, sem suporte respiratório. Pacientes iguais, antes, estavam morrendo em dois ou três dias”.

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O infectologista credita isso a uma possível “carga viral mais baixa no trato respiratório, provavelmente devido a uma mutação genética do vírus que ainda não foi detectada cientificamente”.

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Quando outro médico italiano, o intensivista Alberto Zangrillo, levantou a mesma hipótese, foi desmentido pela Organização Mundial de Saúde.

Zangrillo chegou a dizer sobre o vírus, no começo do mês, que “clinicamente, ele não existe mais”.

É claro que os dois médicos estão falando da Itália, o primeiro país europeu a ser atingido em massa pelo novo coronavírus, chegando a quase 35 mil mortos.

Não é fácil falar em vírus enfraquecido com a conta mundial de vítimas fatais passando de 480 mil pessoas, mais do que os 405 mil que a malária levou no ano passado (sendo que que o parasita transmitido pelo mosquito Anopheles mata principalmente crianças abaixo dos cinco anos, africanas na esmagadora maioria dos casos).

Sem contar que o vírus mais estudado da história é esquadrinhado o tempo todo em sua estrutura diabolicamente simples.

Mas existe um outro argumento teórico pesando em favor  – tudo hipoteticamente – da tese da virulência enfraquecida.

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O crescimento de casos diagnosticados nos Estados Unidos seguia uma curva de formato exatamente igual ao de vítimas fatais até meados de maio. 

A partir daí, as curvas se separaram e a primeira cresceu mais. Esta semana, quatro estados atingiram o nível mais alto desde o início da pandemia no país.

O governador de Nova York decretou quarentena de quinze dias para pessoas provenientes de outros estados.

O aumento no número de testes é uma das explicações mais óbvias, sem contar o relaxamento das regras de circulação e isolamento social. 

Mas as mortes também podem estar caindo pela diminuição na virulência.

Num país de dimensões continentais como os Estados Unidos, com dois oceanos e um território onde cabem 30 países europeus, os ritmos da pandemia diferem naturalmente. 

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Ainda não dá para dizer que está havendo uma segunda onda ou mesmo se haverá.

Pelo tamanho, a diversidade geográfica, o índice de aglomeração e a repetitividade das manifestações desencadeadas a partir da morte de George Floyd, os Estados Unidos deveriam estar vivendo uma onda maciça de infecções e mortes.

Nos países europeus mais atingidos, a pausa para respirar e retomar a vida é incrivelmente palpável. Mas ela também está trazendo à tona um efeito negativo inesperado: as sequelas que a doença deixa entre até um terço das pessoas que se recuperaram, inclusive pacientes mais jovens do que o perfil característico.

Pulmões permanentemente prejudicados, fadiga crônica e um aumento do risco de Alzheimer são algumas delas.

Os idosos entubados, em quaisquer circunstâncias, têm sequelas importantes, mas o fenômeno que está sendo visto agora é diferente.

“São pessoas que eram independentes, podiam estar tocando seus próprios negócios, indo à academia, nadando, pessoas ativas que agora mal conseguem levantar da cama”, disse ao Telegraph a médica Hilary Floyd, diretora clínica de um centro de recuperação da Inglaterra.

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“Temos alguns pacientes agora na faixa dos 40 anos. Realmente não esperávamos isso”.

As sequelas da Covid-19 podem abranger as esferas física, cognitiva e psicológica. 

Entre as mais inesperadas estão os danos cardiológicos. As mais comuns são fadiga e falta de ar. Sem falar na ansiedade.

O vírus que submeteu quase o mundo inteiro a um teste de stress sem precedentes também assusta pelo tamanho impressionante da sua conta.

Aos repiques de infeções nos Estados Unidos, com efeitos de curtíssimo prazo como a queda nos mercados, soma-se o cálculo do Fundo Monetário Internacional de que a economia global sofrerá um baque de 12 trilhões de dólares.

O FMI aumentou de 3% para 4,9% a queda no crescimento global.

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Esperança: que a economia americana, a maior do mundo, se recupere mais rapidamente do que o previsto.

Um indício muito importante foi a criação, em maio, portanto em plena pandemia, de 2,5 milhões de empregos.

Com Donald Trump apostando sua reeleição no efeito V – cai, bate no chão e volta com a mesma força -, todas as injeções de dinheiro na veia vão ser mantidas. 

Trump prometeu mais um “checaço”, o dinheiro que será enviado aos contribuintes para compensar salários perdidos e outros prejuízos com a paralisação econômica.

O preço da dívida pública de 25 trilhões de dólares fica para depois.

Embora não faça tudo sozinho, dinheiro pode “comprar” uma recuperação econômica mais rápida. Principalmente se vier logo uma vacina, ou mais de uma. 

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Ou se o vírus colaborar e estiver mesmo virando um gato. Selvagem, mas menos mortífero e mais fácil de domar.

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