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Missão Yellen: empregos, recuperação da economia e até GameStop

Tudo o que a secretária do Tesouro fizer vai afetar a economia - dos Estados Unidos e, portanto, do mundo e até a nossa; ela vai dar conta?

Por Vilma Gryzinski 3 fev 2021, 07h58

Janet Yellen quer gastar dinheiro, Muito dinheiro.

Keynesiana até a ponta dos dedos, ela está no mundo ideal para os economistas que partilham ideias nessa linha.

“Os economistas nem sempre concordam”, disse, ao ser ouvida na sabatina do Senado, subestimando deliberadamente as brigas de foice da categoria.

“Mas acho que existe um consenso hoje: sem novas iniciativas, corremos o risco de uma recessão mais longa e dolorosa agora e, mais tarde, cicatrizes de longo prazo na economia”.

Não que seu antecessor do governo Trump, Steve Mnuchin, tenha economizado no combate à derrocada causada pela pandemia. Mas o nível de gastos que a nova secretária do Tesouro fala vai além. Para começar, mais um pacote, esse de 1,9 trilhão, num país onde o endividamento já está em quase 100% do PIB, um exagero até para a potência americana.

Manter os gastos lá em cima e jogar os juros lá para baixo, sem se importar com “um pouco” de inflação, foi uma filosofia que ela seguiu sistematicamente como presidente do FED, o banco central americano que presidiu durante o governo Obama – cargo que não manteve depois que Donald Trump foi eleito porque o novo presidente achava, diz a lenda, que ela, com seu 1,60 metro, era baixinha demais.

O mundo pós-corona é, evidentemente, outro e Janet Yellen estreou seu retorno institucional quase ao mesmo tempo em que explodiu um fenômeno da nova era, o dos pequenos investidores que se interessaram pela bolsa durante o lockdown e, a partir de um fórum de discussões, levantaram artificialmente os preços das ações de negócios dados por acabados, como as lojas de venda de games da rede GameStop e a rede de cinemas AMC.

Não foi uma estreia feliz. Sua prestação de contas postou que faturou uma bolada de 7,2 milhões de dólares em palestras às maiores instituições financeiras de Wall Street. Entre elas, o Citadel, fundo de hedge que suspendeu os negócios com papéis da GameStop, uma intervenção altamente duvidosa.

Por uma única palestra, Yellen ganhou 800 mil dólares do Citadel. Soa excessivo até para uma ex-presidente do Federal Reserve. Só para comparar: o venerado Barack Obama ganha na faixa de 500 mil dólares por palestra.

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Se fosse seguir o princípio ético mais estrito, a ministra teria que se declarar impedida de interferir em qualquer medida relacionada ao Citadel. Mas também estaria na mesma situação em relação a outros gigantes, como Citi, Goldman Sachs, Google, Barclays, Credit Suisse etc. Ou seja, de mãos e pés amarrados.

O caso da GameStop é tão bizarro que conseguiu o prodígio de bagunçar o coreto ideológico. Do lado dos gamestopistas congregaram-se a esquerda mais ao estilo Bernie Sanders e a direita não-convencional.

Contra, todas as forças institucionais, à beira de vários ataques de nervos com a inversão de papéis, sem trocadilhos – ou talvez com -, com os pequenos manipulando os grandes.

O governo Biden em geral e Janet Yellen em particular vão aumentar os mecanismos regulatórios, relaxados por Trump para bombar a exuberância econômica pré-vírus. Vai sobrar para todo mundo, inclusive os poderosos fundos de hedge, que foram atacados e contra-atacaram no caso da GameStop.

Ainda esta semana Yellen vai se reunir com os principais reguladores do mercado para tratar da volatilidade criada pelo caso GameStop.

O veredicto sobre a atuação da secretária da Fazenda ainda terá alguns anos – ou meses, na realidade aumentada que vivemos – para ser decidido. Regulamentar, gastar muito e desencanar, moderadamente, da inflação são métodos melhores, para beneficiar a maior quantidade possível de pessoas, do que deixar as feras do mercado à solta? Política monetária melhora salários?

Em 2018, ela fez uma espécie de declaração de princípios, referindo-se a seu mentor, James Tobin, Nobel de Economia e professor em Yale, nos seguintes termos: 

“O que me impressionava não era apenas suas habilidades analíticas e seu conhecimento de macroeconomia, mas seu forte compromisso com a justiça social e sua visão de que a economia é mágica e trata de fazer o mundo um lugar melhor”.

Magia e nobres princípios estão passando, e vão passar mais ainda, por um teste de realidade daqueles.

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