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May Day: sem saída e, ainda por cima, na mão dos franceses

Duas reles semanas de prazo para resolver o que não conseguiu em quase três anos foi tudo o que Theresa May arrancou de seu novo algoz, Macron

Um Emmanuel Macron falando grosso e uma Angela Merkel em tom suavezinho são algumas das contradições provocadas pelo nível quase alucinado a que o debate sobre o Brexit chegou.

Para Theresa May, foi praticamente um dia normal. Pediu o que disse 108 vezes que jamais pediria (um novo prazo), foi humilhada mais uma vez na reunião de cúpula dos outros 27 países da União Europeia e voltou para casa, com novas humilhações domésticas já engatilhadas, com míseras duas semanas a mais.

O Parlamento tem até 12 de abril para aprovar a proposta elaborada por May que já rejeitou por amplas maiorias. Caso os parlamentares se convençam de que a alternativa – o divórcio litigioso, sem acordo nenhum – é pior ainda e aprovem a proposta, contra todas as expectativas, o prazo para legislações complementares vai até 22 de maio.

O durão do encontro em que Theresa May foi convidada a sair do jantar de cúpula e teve que dividir pizza com a delegação britânica foi Emmanuel Macron.

Há vários motivos para o presidente francês assumir o papel de poodle que rosna como pitbull.

Primeiro, uma questão de calendário. A eleição para o Parlamento Europeu vai de 23 a 26 de maio. O Reino Unido não pode, simultaneamente, continuar na união e não participar da eleição.

Segundo, foi uma boa oportunidade para Macron demonstrar capacidade de comando já que a coisa desandou de novo com os coletes amarelos. E vários assessores deles foram direcionados à justiça por uma comissão especial do Senado por envolvimento no estranho caso do guarda-costas que, mesmo demitido por fazer hora extra batendo em manifestantes, continuou a mexer pauzinhos.

Terceiro, ele deu a Theresa May um instrumento a mais para forçar a barra na Câmara dos Comuns, onde a oposição de esquerda e a parte eurocética do próprio Partido Conservador da primeira-ministra não aceitam por motivos diferentes a proposta dela de jeito nenhum. Outra ala dos conservadores sonha dia e noite com uma fórmula mágica para cancelar o Brexit.

Isso mantém a insuportável agonia de votações contraditórias e mutuamente paralisantes dos últimos meses.

Theresa May, que parecia uma líder política confiável e preparada para comandar um processo de alta complexidade como a saída do mercado comum e da união tarifária, mostrou não ser nada disso.

Hoje, 90% dos britânicos acham que a negociação, na qual ela entrou como se tivesse planos secretos e sofisticados, virou uma humilhação nacional.

Talvez o fato de que a primeira-ministra sempre fosse, em segredo, contra o Brexit, embora considerando seu dever inegociável cumprir a decisão popular manifestada pelo referendo de junho de 2016, tenha influenciado inconscientemente as armadilhas que ela montou para si mesma e para todo o Reino Unido.

A ideia de que o Brexit, ao trocar as vantagens do livre acesso a um mercado de mais de 500 milhões de consumidores, recuperaria vantagens competitivas de uma histórica potência comercial como a Grã-Bretanha sequer é mais discutida.

As divisões dos políticos também se refletem na opinião pública em geral. Nenhuma das alternativas – um segundo referendo, adiamento, saída sem acordo ou a proposta de Theresa May – consegue chegar nem perto de uma maioria.

A única coisa que aumentou foi o apoio dos partidários do Brexit ao altamente imperfeito plano da primeira-ministra, muito provavelmente por medo de que não haja saída nenhuma onde uma ruptura catastrófica.

As notícias vazadas com o intuito de aumentar o clima de ansiedade – convocação do Exército, reativação de abrigos nucleares, formação de estoques essenciais para o caso da ruptura a seco – contribuem para “empurrar” o apoio ao ruim com ele, pior sem ele.

Na hipótese, ainda bem hipotética, de que Theresa May consiga na base da pura persistência compulsiva, com uma ajudazinha dos “frogs” franceses – ou comedores de rã –, o que parecia tão impossível, deve ser recompensada com o bilhete azul.

Seus correligionários mais próximos falam e repetem cada vez mais que basta, chega, fora: May não pode passar de maio.

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