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Máquina russa: rainha é bebum; Trump, militarista e Lula, herói

Como a formidável propaganda sob o controle de Vladimir Putin usa múltiplos meios, inclusive os inocentes úteis, para criar uma realidade paralela

O seguinte diálogo acontece no inferno:

“Nos países parlamentaristas, quase sempre é através da imprensa que os governos acabam. Pois bem, eu entrevejo a possibilidade de neutralizar a imprensa através da própria imprensa”, diz Maquiavel.

Em seguida, ele faz uma longa explanação sobre a arte negra de desnortear a opinião pública, desacreditar os adversários e explora emoções profundas do inconsciente coletivo, utilizando “três ou quatro folhetins” para manipulações simplesmente, bem, maquiavélicas.

Seu interlocutor, Montesquieu, tece considerações sobre separação de poderes, estado de direito e outros pilares da democracia. Maquiavel só pensa naquilo: como conquistar e manter indefinidamente o poder.

O diálogo imaginário foi escrito em 1864 pelo advogado Maurice Joly  para satirizar o golpe de Napoleão III. Sobrinho do original, ele havia sido eleito pelo voto direto como primeiro presidente da República francesa só para rasgar a confiança do povo e se proclamar imperador, prometendo e, em vários aspectos realizando, um “império liberal”.

A sagacidade do panfleto de Joly, com argumentações brilhantes sobre o uso de fake news, trolagem e outros truques, foi praticamente copiada numa obra infame por Matvei Golovinski, agente provocador a serviço da polícia secreta czarista, a Okhrana.

Radicado em Paris, ele escreveu em 1901 sobre um plano secreto dos judeus e maçons para dominar o mundo. Título: O Protocolo dos Sábios de Sião.

O clássico do antissemitismo tinha apenas um leitor em vista, o czar Nicolau II. O objetivo era convencê-lo dos perigos da conspiração capitalista comandada, obviamente, pelos judeus.

Ardilosamente bem escrito, apesar do absurdo da proposta, é levado a sério até hoje por muitos que querem acreditar na  maior de todas as teorias conspiratórias.

Golovinski pôs seus serviços à disposição do lado exatamente oposto ao dos conspiradores capitalistas que supostamente ameaçavam o czar, os bolcheviques responsáveis pelo  golpe nas outras correntes rebeladas na Rússia.

As táticas de manipulação da informação transformaram-se num dos pilares do regime comunista e sua polícia política.

NKVD, Tcheka, GPU e KGB foram diferentes encarnações  dessas gigantescas organizações, tão poderosas que ameaçavam os outros chefões do regime e precisavam ser expurgadas periodicamente. Apenas um de seus dirigentes chegou ao poder máximo, Yuri Andropov, já no declínio da União Soviética.

Seu pupilo mais conhecido, Vladimir Putin, virou presidente já na Rússia pós-comunista. A máquina de propaganda sob seu comando rivaliza e até supera a dos tempos soviéticos, por cima e por baixo do pano.

Por cima, funcionam órgãos de imprensa como o canal de televisão em inglês RT (Russia Today) e a agência de notícias Sputnik. Por baixo, exércitos virtuais. Todos dedicados  a “neutralizar a imprensa através da própria imprensa”, como recomendava o Maquiavel fictício de Maruice Joly.

Uma amostra do que “os russos” estão dizendo nesse momento de alta agressividade, uma reação à revolta provocada pelo uso de armas químicas em duas circunstâncias completamente diferentes, mas igualmente graves.

Uma, aconteceu no interior da Inglaterra, com o emprego do agente químico Novichok para envenenar Sergey Skripal, ex-agente do serviço secreto militar que havia colaborado com a espionagem britânica.

Ele e a filha, Yulia, foram contaminados pelo pó finíssimo do agente neurotóxico que só existe, clandestinamente, na Rússia. O veneno foi colocado na maçaneta da porta da casa dele na cidade de Salisbury.

Ambos sobreviveram e Yulia já recebeu alta do hospital. Para tentar neutralizar a reação do governo britânico e dos aliados ocidentais em geral, que expulsaram diplomatas russos como punição por um ato praticamente de guerra, a máquina de propaganda russa soltou os cachorros.

Um senador russo alinhadíssimo com o governo disse que as duas mulheres mais poderosas do Reino Unido, a primeira-ministra Theresa May e a rainha Elizabeth II, enfiam o pé na jaca.

Como recomenda a arte negra do ramo, o senador misturou informações reais com propaganda. A rainha realmente costuma tomar antes do almoço um coquetel feito com gim e Dubonnet, um hábito que aprendeu com a mãe. Também termina o dia com uma taça de champanhe.

Mas chamar de bêbada a venerada rainha, com 91 anos de vida impecável, é um assombro. Sem contar o ridículo da acusação contra Theresa May – embora, como política de carreira, ela já tenha ouvido coisas piores de seus próprios pares.

A tática de fazer uma alegação tão absurda que parece improvável ter sido deliberadamente inventada também está em alta diante do recente ataque com armas químicas feito na Síria pelo regime de Bashar Assad, o mais infame protegido da Rússia.

Usando nicks que soam mais ingleses do que a rainha, diligentes soldados do exército virtual russo inundaram as áreas de comentários das publicações britânicas.

Um exemplo: “Militares americanos, britânicos e israelenses presos na Síria disseram que o ataque químico em Guta foi feito por encomenda pelo Estado Islâmico”.

Outro “argumento” frequente é dizer que os governos ocidentais vão acabar provocando uma guerra nuclear que levará à destruição do planeta – um medo plantado na psique de todos que têm uma ideia mesmo que apenas aproximada do poder das armas envolvidas, mas pouca noção do “equilíbrio do terror” que impede seu uso.

Quando o conspiracionista e esquerdista Michael Moore, diretor de documentários mentirosos, mas aparentemente convincentes, disse que Donald Trump vai “matar todos nós”, estava usando um dos mais frequentes argumentos dos trolls russos.

Encontrar tolos como Michael Moore não é nada difícil para a RT e a Sputnik. Na cobertura sobre o Brasil, por exemplo,  a Sputnik entrevistou, entre outros luminares, o economista Alfredo Saad-Filho, com hífen e tudo, para “explicar o que realmente está acontecendo”.

Disse o professor formado na Universidade de Brasília, que dá aulas no centro de estudos sobre Ásia, África e Oriente Medio da University of London: o apenado é alvo de “lawfare”, o uso ilegítimo de instrumentos jurídicos, “para destruir Lula politicamente e destruir o seu partido”. O qual, evidentemente, “sofreu um golpe em 2016”.

Será que alguém já ouviu algo parecido antes?

Com a sagacidade conhecida de sua tribo, acrescentou o professor hifenado: “A centro-direita achou que, ao perseguir a esquerda, conseguiria dominar o campo político, mas estava totalmente enganada”.

Uma vez consumada a perseguição, disse em outra contribuição a Sputnik, “o Brasil enfrenta vários perigos”. O país “entra em uma era de turbulência” e de “indignação popular com o fato de um líder que mostrou grandes qualidades, um líder do povo, se encontrar na prisão”.

A avaliação é de outro acadêmico, o professor Aleksander Chichin. Por causa da distância entre Brasil e Rússia, ele deve ter confundido aquele foguetório todo com manifestações de protesto.

O nível tosco da cobertura sobre Brasil revela a desimportância do país para a Rússia, mas difere apenas em escala e grau de sofisticação do resto da máquina de propaganda.

Dá pena ver um diplomata do quilate de Sergey Lavrov, o ministro das Relações Exteriores, desperdiçar seus notáveis talentos em mentiras abjetas.

Maria Zakharova, a diretora de Comunicações da chancelaria russa, poderia chefiar brilhantemente  qualquer empreendimento, público ou privado, em qualquer lugar do mundo.

O próprio Vladimir Putin é talvez o mais esperto, ágil e espetacularmente habilidoso líder político em atividade no mundo. É incontestável que colocou a Rússia de volta no lugar de destaque que merece.

O patrimônio russo em literatura, música e ciência é de uma riqueza admirável e, em vários aspectos, incomparável.

Ver tudo isso ser usado de forma até grotesca, não para engrandecer o maior país do mundo, mas defender posições absurdas, só aumenta o sentimento de tristeza.

O fictício Maquiavel veria, em seu lugar privilegiado no inferno, que o excesso de esperteza mascara fragilidades profundas, não a força dos sábios.

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  1. “Ver tudo isso ser usado de forma até grotesca, não para engrandecer o maior país do mundo, mas defender posições absurdas, só aumenta o sentimento de tristeza.”

    Qualquer semelhança com a Alemanha do período entreguerras NÃO É mera coincidência: o revanchismo russo pós-Guerra Fria assemelha-se muito ao revanchismo alemão daquele período.

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