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Lições para o ano novo: aprendendo com os erros de Churchill

Quase tão monumentais quanto suas virtudes, os tropeços do maior estadista do século 20, relembrados em nova biografia, ajudam profissionais e amadores

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 31 dez 2018, 08h12 - Publicado em 31 dez 2018, 08h07

Ele era racista, imperialista, xenófobo, islamofóbico. Cometeu um erro militar estratégico tão catastrófico que custou 45 mil vidas entre seus comandados.

Gastava muito mais do que tinha, aceitava favores de amigos ricos. Trocou de partido duas vezes.

Por qualquer padrão, seria alcoólatra, exceto pelo fato de ter chegado aos 90 anos – um pouco mais, até, do que deveria uma lenda viva.

Ter um livro de Winston Churchill à vista nunca sai de moda e é vantajoso para qualquer político que quer parecer sério, principalmente se for mais à direita.

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Mas Jair Bolsonaro provocou outro ataque de fúria no esquerdista Guardian ao “se pintar como o Churchill brasileiro” quando apareceu com um exemplar de Memórias da Segunda Guerra Mundial na primeira entrevista como presidente eleito – um exagero do jornal, explicável pelo estado de choque que a vitória do próximo presidente provocou entre as hostes progressistas.

Não que o próprio Churchill desça fácil para a intelectualidade de esquerda, especialmente na própria Inglaterra, onde acontece um fenômeno interessante.

Quanto mais longe fica a II Guerra, mais gigantesca é a imagem de Churchill entre a opinião pública, inclusive por filmes recentes que levaram a uma espécie de redescoberta do homem que enfrentou “sozinho” a avassaladora força da Alemanha nazista quando a Segunda Guerra ainda não era mundial.

Ao mesmo tempo, mais avançam as forças politicamente corretas e os historiadores de esquerda para tentar diminuir ou até desmontar sua estatura épica.

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Um das táticas é reforçar os erros de julgamento, tropeços morais e outros defeitos de Churchill.

Nada disso é diminuído no livro saudado como a melhor biografia já escrita sobre o estadista a respeito do qual mais livros foram escritos em toda a história.

Mais de mil, segundo  o historiador Andrew Roberts, o autor que pegou à unha o desafio de um tema supostamente esgotado e  escreveu Churchill: Caminhando com o Destino, que entrou em todas as listas de melhores livros de 2018.

Como mensagem de fim de ano aos que não conseguem ficar longe de Churchill por muito tempo e aos que estão chegando agora, vamos fazer um rápido exercício de aprendizagem com os erros do mito.

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  1. EXCESSO DE AUTOCONFIANÇA

Personalidade agressiva, certeza de que podia construir a própria história de grande homem e talento para a autopromoção foram as características mais evidentes que levaram Churchill ao lugar onde chegou.

Churchill foi militar, correspondente de guerra, escritor, político e ministro de nove pastas diferentes antes do momento para o qual tinha se preparado toda a vida, o dia 10 de maio de 1940, quando assumiu como primeiro-ministro.

Três dias depois, proclamou diante da Câmara dos Comuns: “Não tenho nada a oferecer a não ser sangue, sofrimento, lágrimas e suor.” Em menos de três semanas, fez o discurso da “rendição nunca”, com os britânicos tirados, derrotados, da França subjugada.

Prometer sacrifícios e jurar resistência na hora do maior isolamento é só para os muito grandes e certos da vitória final.

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Mas foi justamente a excessiva autoconfiança que havia provocado o maior desastre da carreira de Churchill, durante a I Guerra Mundial.

A fracassada invasão da Turquia, já em plena transição do império otomano, através do estreito de Dardanelos, foi uma tentativa ambiciosa de pegar de surpresa as Potências Centrais – os impérios alemão e austro-húngaro – e aliados.

Como comandante civil da Marinha, nomeado com apenas 36 anos, Churchill achava que uma segunda frente quebraria o cruento impasse da guerra de trincheiras.

O desembarque em Galípoli – tão complicado que o comandante das forças navais sofreu um colapso nervoso – e a protelada campanha terrestre, encerrada em 1916, depois de nove desastrosos meses, fizeram um total de 250 mil baixas de cada lado. Morreram 45 mil ingleses, franceses, australianos e neozelandeses.

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Churchill foi rebaixado, mas preferiu renunciar e ir pagar os pecados como major do Exército no front na Bélgica. Adotou um comportamento de tão alto risco, como exigia o manual dos oficiais e cavalheiros, nem sempre seguido por todos, que acabou conquistando a simpatia dos soldados comuns com atos de bravura no limite da insanidade.

Em quatro meses estava perdoado e de volta ao governo, como ministro do Suprimento Bélico, mas a sombra de Galípoli o acompanhou por muito tempo. “Dardanelos”, gritavam os opositores, como é típico do Parlamento britânico, cada vez que ia discursar.

Churchill engrossou ainda mais o couro e passou a responder que a campanha fracassada “poderia ter salvado milhões de vidas” e ele se orgulhava disso.

Ter sangue frio para, três décadas depois, mandar centenas de milhares de jovens para a guerra contra a tirania, tendo “gravado na minha mente” o preço em vidas humanas de operações de contraofensiva, foi particularmente impressionante no Dia D, o desembarque das forças aliadas na Normandia.

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Coragem com a vida dos outros só é fácil para os desprovidos de compaixão humana. Além de não ser dessa estirpe, Churchill também só foi impedido de ir com as tropas na primeira onda quando o rei George VI, pai da rainha Elizabeth, ficou sabendo de seu plano secreto e o impediu.

2. POLITICAMENTE INCORRETO

Mesmo para um homem nascido na era vitoriana e impávido defensor da superioridade do império britânico, Churchill dizia e escrevia barbaridades.

Por exemplo: os indianos “procriam como coelhos”. Isso em plena “fome de 1943” em Bengala, uma devastadora crise de abastecimento na Índia sob domínio britânico, agravada pelas restrições da Segunda Guerra.

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Churchill também não suportava Gandhi, “um advogado de Middle Temple, agora posando de faquir e andando seminu pela escadaria do palácio do vice-rei”. Middle Temple é a tradicionalíssima associação de advogados da City de Londres.

Na questão da Índia, Churchill estava à direita da direita e achava que qualquer concessão, como autonomia administrativa, levaria à independência e ao fim do império britânico, no que não estava inteiramente errado.

Sem contar que o “faquir seminu” também se mostrou tão bom quanto ele, à sua maneira, em projetar a própria imagem, transformando-a em retrato da nação insubmissa.

Sobre a religião muçulmana, escreveu num livro de 1899: “Hábitos imprevidentes, sistemas agrícolas desleixados, métodos comerciais indolentes e insegurança sobre a propriedade existem onde quer que os seguidores do Profeta dominem ou vivam.”

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“A influência da religião paralisa o desenvolvimento social dos que a seguem. Não existe força mais retrógrada no mundo. Longe de estar moribundo, o maometanismo é uma fé militante e proselitista.”

Isso hoje é crime. Literalmente: um militante de extrema-direita e candidato fracassado foi detido em 2014  ao ler em público o trecho acima.

John Charmley, historiador da corrente revisionista, diz que Churchill acreditava em hierarquias raciais, com os brancos protestantes no topo da pirâmide. “Churchill via a si mesmo e à Grã-Bretanha como os vencedores de uma hierarquia social darwinista.”

Lição? Falou besteira, está falado. O melhor é não reincidir no erro. Se nem Churchill escapa do julgamento da história, outros tampouco escaparão.

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Detalhe importante: ele escreveu sobre o Islã no contexto da campanha de reconquista do Sudão, na qual lutou como jovem  tenente de 23 anos. Ingleses e egípcios enfrentaram a resistência das forças do Mahdi, uma espécie de Antonio Conselheiro sudanês seguido por fanáticos sufistas.

Quanto foi para o ministério das Colônias, envolveu-se tanto com as questões do Oriente Médio que uma cunhada escreveu a ele implorando que “não se convertesse ao Islã”.

Churchill acreditava, como muitos depois dele, que era uma boa ideia criar novos países mais ou menos alinhados com as lealdades tribais, finalmente independentes do domínio otomano – inclusive ou principalmente porque o império britânico os manteria sob tutela. E ainda tinha o petróleo.

Contratou como assessor para o Departamento do Oriente Médio um certo T. E, Lawrence, apaixonado pela causa da independência árabe.

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3. DINHEIRO, DINHEIRO, DINHEIRO

Churchill era neto de duque – e de ninguém menos que o duque de Marlborough. O primeiro da linhagem recebeu os títulos e as terras em sinal de agradecimento da rainha Anne por serviços prestados no campo de batalha, no começo do século 18.

Nasceu no fabuloso Palácio de Blenheim, o único castelo não pertencente à família real ou à Igreja Anglicana que pode ser chamado de “palácio”.

Mesmo assim, devido à estrita lei da primogenitura, seu pai, como  filho caçula, ficou com uma herança magra. Casou-se por dinheiro com a americana Jennie Jerome, sem atentar para o fato de que o pai dela jogava alto em Wall Street, com todos os riscos inerentes – um traço herdado pelo neto.

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“Churchill não tinha dinheiro nenhum”, resume o biógrafo Andrew Roberts, identificando nisso um dos principais fatores do espantoso e precoce sucesso dele.

Escrevendo para viver, Churchill praticamente foi um autodidata em história e literatura. Aproveitava qualquer experiência pessoal e chegou a propor um artigo sobre um acidente que havia sofrido em Nova York. Coisa de “2 400 palavras”.

Problema: entrava menos dinheiro do que gastava. Comprava vinhos bons e cavalos ruins para o polo. Usava ceroulas de seda cor de rosa. Jogava muito, em cassinos e na bolsa.

No histórico maio de 1940, quando assumiu o governo e, depois, a heróica resistência aos bombardeios alemães, tinha uma preocupação adicional: pagar o alfaiate que fazia suas camisas.

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O relato consta de um livro de título autoexplicativo, No More Champagne, onde David Lough esmiuça os detalhes da caótica vida financeira do homem que chegou a dever, em dinheiro atualizado, o equivalente a 3,75 milhões de dólares.

Fez lobby, numa das fases em que quando perdeu  cargos políticos, para duas petrolíferas britânicas, mas não deu certo.

Na crise das camisas (além dos fornecedores de vinho, de relógios e de seus próprios editores, que cobravam livros com adiantamento já pago, mas não escritos), foi salvo por uma discreta “contribuição” de um admirador cheio de grana, Henry Strakosch, banqueiro judeu originário da Áustria.

O cheque, equivalente hoje a 375 mil dólares, foi feito em nome de outra pessoa.

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Sim, Churchill usou um laranja, embora o doador jamais tenha cobrado qualquer favor ou sequer mencionado o assunto. Seu interesse supremo era o antagonismo a Adolf Hitler e o papel único de Churchill.

Isso foi naquela época. Hoje, não passaria.

4. SEDE AO POTE

Churchill bebia e fazia guerra como se não fosse sobrar mais nem uma garrafa de Pol Roger, sua champanhe predileta – era uma inteira na hora do almoço, embora possivelmente menor do que o atual, depois de uma taça durante o café da manhã.

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Também começava o dia “lavando a boca” com um uísque. O “drinque do papai”, como diziam seus filhos, o acompanhava a partir dali. Um fundinho de Johnny Walker e o resto do copo cheio com soda. Iam uns cinco ou seis.

Xerez antes do jantar, mais champanhe ou vinho tinto, e conhaque Hine para terminar (a marca foi criada por um inglês na França, onde continua sendo pronunciada “ine”).

O abstêmio Hitler o chamava de “maluco bêbado”, mas a capacidade de enfiar o pé na jaca o ajudou quando foi a Moscou para uma conferência com Stálin, em pleno ano de 1942.

Acostumado a obrigar todos os sicofantas à sua volta a beber sem parar em banquetes intermináveis, Stálin partilhou um jantar tardio com Churchill. No fim da noitada, o subsecretário das Relações Exteriores, Alexander Cadogan, foi resgatar o chefe.

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Depois, anotou: “Winston com certeza ficou impressionado e acho que o sentimento foi recíproco.”

Ao longo da conferência, Stálin pressionou, como sempre, por um desembarque na frente ocidental, que aliviaria a pressão alemã na frente russa. Ainda não era a hora.

Stálin só se animou quando Churchill prometeu que, se necessário, os aliados bombardeariam “todas as casas em praticamente todas as cidades alemãs”. Chegou perto disso.

Foi Hitler quem iniciou a barbárie da guerra total, sem distinção entre militares e civis, mas os bombardeios aliados em massa mostraram como o lado do bem chega perto do lado do mal quando são travadas lutas existenciais.

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Durante a Primeira Guerra, Churchill jactou-se a Margot Asquith, mulher do primeiro-ministro à época: “Eu não perderia por nada nesse mundo essa delícia de guerra.” Depois, pediu que ela não espalhasse a palavra “delícia”.

Em 1919, como ministro da Guerra, Churchill defendeu “fortemente o uso de gás venenoso contra tribos não civilizadas” no Afeganistão e no Curdistão, para salvar vidas de soldados britânicos.

“O efeito moral seria tão bom que a perda de vidas se reduziria ao mínimo. Não é necessário usar só os gases mais letais: podem ser usados gases que causam grande incômodo e se espalham como o terror personificado e ainda assim não deixam sequelas sérias para a maioria dos afetados.”

Lição: Deus nos livre de uma guerra, como dizia algo acidamente o general Ernesto Geisel, e das escolhas terríveis que exigem.

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Sobre a capacidade de beber, não define caráter nem estabelece distinção entre aristocratas ingleses, tiranos georgianos ou operários pernambucanos.

Mas só um Churchill para responder, quando perguntado quanto de vermute queria no seu martini: “O suficiente para que eu veja a garrafa do outro lado da sala.”

O martini Churchiil, portanto, é gin puro.

5. BOBEOU, DANÇOU

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Churchill aprendeu com seus erros – e com seus acertos também., e com os erros e acertos de seus inimigos.

Sua vida e sua obra já seriam consideradas prodigiosas mesmo antes do “momento crítico e sublime”, na definição de Conrad Black, os trinta meses em que resistiu e inspirou os britânicos a resistir, sozinhos,  à máquina nazista.

Em 1941, Hitler cometeu o maior de todos os erros: desencanou da Grã-Bretanha e invadiu a União Soviética. O resultado da Segunda Guerra, olhado a posteriori, foi definido aí. Mas foram necessários mais quatro terríveis anos até a rendição alemã, em maio de 1945.

Dois meses depois, Churchill e o Partido Conservador, famosamente, perderam a eleição. O mito estava banhando pela glória da vitória, mas os eleitores se preocupavam com o que aconteceria depois.

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“A política é mais perigosa do que a guerra porque na guerra só se é morto uma vez”, foi uma das frases memoráveis que deixou, de uma lista que não acaba nunca.

Vale para todas as épocas e todos os lugares do mundo.

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