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Lições de Netanyahu: político que quer ganhar eleição vacina a população

Campeão de sobrevivência política, primeiro-ministro fez de Israel o país com programa mais avançado de vacinação do mundo

Por Vilma Gryzinski 18 jan 2021, 08h43

Com 25% de sua população já vacinada, o maior índice do planeta, Israel pode começar a dar um suspiro coletivo de alívio.

Mais importante, 75% dos cidadãos acima de 60 anos, o grupo mais afetado pelo vírus, já receberam a primeira dose e uma parte, a segunda.

Agora já começa a vacinação das pessoas acima de 45 anos.

“É o começo do fim”, resumiu o diretor de hospital Ronni Gamzu. “Estamos nos estágios finais do coronavírus”.

Gamzu foi o “czar do corona”, mas perdeu a posição, numa das muitas guinadas, epidemiológicas e políticas, que a Covid-19 provocou no país.

Com o governo de coalizão rachado, nova eleição em março (a quarta em dois anos), Benjamin Netanyahu levado a julgamento por corrupção, a perda do mais importante dos aliados com a derrota de Donald Trump e o Irã acelerando o programa nuclear, não de pode dizer que a epidemia encontrou um país unido e tranquilo para enfrentá-la.

Mas certamente deparou com gente acostumada aos princípios da realpolitik: o povo quer resolver logo a crise provocada pelo  vírus e quem fizer isso tem vantagens eleitorais.

Diante do avanço do programa de vacinação, Netanyahu se deu ao luxo de ser taxativo numa reunião fechada com representantes de um grupo de empresários mobilizados para protestar contra as devastadoras perdas sofridas: “Estamos falando agora de indenizações para compensar o que já passou”.

A crise do coronavírus “já acabou”, acrescentou.

Algumas das condições que propiciaram o sucesso do programa são irreproduzíveis. Israel é um país de nove milhões de habitantes preparado eternamente para o pior – atentados terroristas em massa, bombardeios – e com um alto índice de coesão social diante de crises existenciais, apesar das extremas divergências políticas.

Mas existem também lições que podem ser aproveitadas. Algumas delas:

1- “Na hora da verdade, as pessoas sabem quem trouxe as vacinas para elas e quem as está tirando da crise”. Palavra de Netanyahu, que vai enfrentar o teste das urnas, mais uma vez, no próximo 23 de março.

Quem quer ganhar eleição precisa mostrar serviço.

O pioneirismo na vacinação também está sendo amplamente utilizado na Inglaterra, onde a única coisa certa feita até agora foi acelerar o programa e conseguir todas as vacinas que o dinheiro pode comprar – migalhas diante do custo devastador em vidas e perdas econômicas provocadas pelo vírus.

O Reino Unido está em quarto lugar em matéria de vacinação (quase 5% da população), depois de Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

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2- Negociação e criatividade. Netanyahu negociou com a Pfizer trocar dez milhões de doses de vacina pela ficha médica de um número equivalente de vacinados.

Nada de invasão de privacidade: Israel fornece à Pfizer, e também à Organização Mundial de Saúde, idade, sexo, histórico médico, taxa de eficiência e eventuais efeitos colaterais.

É claro que a fabricante tem o maior interesse em saber os resultados de seu produto, inclusive para aperfeiçoar o que for possível.

3- Pegar o telefone. Os grandes laboratórios estão com fila na porta, por motivos óbvios.

Na negociação com a Pfizer, Netanyahu usou uma vantagem competitiva irreproduzível: apelou diretamente ao presidente da farmacêutica, Albert Bourla, nascido numa família de judeus gregos que conseguiram escapar de Tessalônica antes que a população judaica fosse enviada em massa para o extermínio, durante a ocupação nazista.

Mesmo sem esse tipo de elo, usar todos os métodos possíveis de persuasão ajuda. Angela Merkel, por exemplo, interferiu pessoalmente nos contatos com a BioNTech, uma empresa alemã, quando as negociações via União Europeia produziram resultados discutíveis.

4- Ter bons argumentos técnicos. Israel conseguiu se transformar num projeto piloto – e num ótimo instrumento de propaganda para a Pfizer – porque se preparou para a vacinação.

“Nós os convencemos de que se nos dessem a vacina primeiro, saberíamos exatamente como administrá-la no menor tempo possível”, disse ao site Politico o ministro da Saúde de Israel,  Yuli Edelstein.

“Nós nos preparamos logo, assinamos os acordos logo e dissemos aos laboratórios que veriam os resultados logo. É uma situação em que todos ganham”.

5- Israel também pagou caro para ter prioridade, mas ninguém diz quanto. Seja quanto for, não existe dinheiro que possa ter sido mais apropriadamente gasto.

6- Toda a retórica de “guerra ao vírus” foi encarada como uma situação bélica de verdade, não uma metáfora que se perde pelo caminho. Nessas horas, mentalidade militar ajuda. Militar do tipo que gosta de ganhar guerra, claro.

“Isso está sendo tratado realmente como uma guerra e Israel tem experiência em batalhas”, nas palavras de Allon Moses, especialista em doenças infecciosas. “É muito semelhante a uma batalha: existe um inimigo, você tem a munição e só precisa entregar”.

7- “O maior sucesso pertence ao povo de Israel, o público que foi se vacinar com grande convicção, mostrando que acredita na vacina”, elogiou Ronni Gamzu.

Mas quem ficou bem na foto – tirada na primeira hora do primeiro dia de vacinação – foi Netanyahu.

Isso vai influenciar o resultado da eleição de março? Impossível dizer nesse momento. Garantido, mesmo, é que não vai atrapalhar.

Com 3.800 mortes (429 por milhão de habitantes) desde o início da epidemia, Israel pode ser o primeiro país não-asiático a se livrar dela.

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