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Lições da “outra China” para entrar de leve e sair da epidemia

Com o número quase inacreditável de seis mortes desde a irrupção do novo vírus, Taiwan usou uma estratégia que deu certo, mas sabe que a saída é complicada

Por Vilma Gryzinski 21 abr 2020, 06h55

Ter um vice-presidente que é epidemiologista ajuda.

Chen Chien-jen é o vice da “outra China”, a ilha de Taiwan, chamada de Formosa pelos pioneiros navegadores portugueses quando a viram pela primeira vez – um nome que persistiu por mais de três séculos.

Foi para a ilha que fugiram os nacionalistas, derrotados pelos revolucionários comunistas depois de duas guerras simultâneas, contra o Japão e entre si.

A China comunista nem sequer reconhece a existência independente de Taiwan, no que é seguida, por obrigação realista, pelo resto do mundo.

Como poderia ser diferente quando os atores no palco são uma ilha de 21 milhões de habitantes e a ambiciosa, gigantesca e implacável candidata a superpotência, já encostando em 1,5 bilhão?

Nesse mercado completamente desigual, Taiwan tem uma mercadoria valiosa a mostrar: 422 casos diagnosticados de Covid-19 e seis mortes.

E, mais espantoso ainda, uma economia chamuscada – inevitável num país que é plataforma de exportação -, mas sobrevivente.

Tendo controlado a epidemia sem o lockdown, a paralisação irrestrita de todas as atividades exceto as mais vitais, Taiwan deve ter uma contração econômica de 4% este ano, segundo o FMI.

A S&P faz um prognóstico menos negativo: 1,2% de encolhimento. E, segundo o Financial Times, o governo e analistas do setor privado, não excluem um crescimento positivo.

O banco central reduziu a projeção de crescimento de 2,57% para 1,92%.

No mundo de catástrofes econômicas que estamos vivendo – e vamos viver mais ainda -, são perspectivas espantosas.

Só para comparar, a China já teve uma contração de 6,8% este ano – isso que, tendo gerado de forma ainda em estudos o novo vírus, conseguiu sair com um número relativamente baixo de vítimas (em torno de 4.000, se acreditarmos nas informações oficiais), mas ao custo da mais estrita das paralisações, em especial na província de Hubei.

Nos Estados Unidos, as previsões são angustiantes. De 10% a 14% de contração, segundo Mohamed El-Erian, o acatadíssimo guru da Alianz -, muito mais que  os 5,8% do FMI.

Como as placas tectônicas, tanto da epidemia quanto da economia, continuam ativas -, nem é preciso dizer que tudo pode mudar. A desgraça pode ser resumida em três palavras: colapso da demanda global,

Taiwan também está fazendo o que todo mundo tem que fazer, colocando dinheiro na economia para salvar grandes e pequenos em apuros.

Mas a linha que seguiu, similar à dos países asiáticos que salvaram a pele nessa crise, com machucados relativamente leves, está segurando a ilha. Sem parar tudo, o prejuízo, obviamente é menor.

“Estamos aprendendo agora que o custo econômico de um mês de paralisação total é uma contração de 3% do PIB anual”, disse ao Times o analista Shaun Roche. “Taiwan pode evitar isso”.

Viver tão perto de um gigante que planeja dia e noite engolir a ilha como se fosse um rolinho primavera, de alguma forma ajudou Taiwan. A Sars e as duas gripes aviárias obrigaram o país a se preparar.

“Toda a estratégia tem que estar preparada antes da irrupção”, disse ao Telegraph o vice Chen Chien-jen, com doutorado em genética e epidemiologia pela John Hopkins e ex-presidente do Conselho Nacional de Ciência.

Ter um plano e executá-lo se vacilar foi uma das lições aprendidas. Todos os passageiros procedentes de Wuhan, por exemplo, foram colocados em quarentena. E todos os que entrarem em contato com eles também.

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Chen lembra que na época da Sars, Taiwan enfrentou o mesmo problema que todo mundo está vivendo no momento: falta de máscaras e outros materiais de proteção. “Agora produzimos mais de 13 milhões de máscaras por dia e pretendemos chegar a 15 milhões”.

E menos de um dia e meio, atende toda a população do país.

  • A rede hospitalar com aumento de alas de isolamento “foi planejada muito antes” – desde que a Sars mostrou o perigo das infecções respiratórias hoje tragicamente magnificado. Taiwan tem hoje 20 mil quartos de isolamento e 14 mil respiradores.

    “Nós vivemos com uma bomba biológica”, explicou o vice-presidente sobre o estado de alerta constante de países asiáticos como Coreia do Sul, Singapura e Vietnã, muito menos devastados do que os gigantes da civilização ocidental.

    No caso de Taiwan, além da epidemia, foi preciso enfrentar a OMS, que se recusava a incorporar suas informações, considerando que o país não tem autonomia. Aliás, que nem é país.

    Talvez tenha ajudado em alguns aspectos. Taiwan não seguiu algumas recomendações da OMS, como não usar máscaras, não fechar fronteiras e não basear as projeções apenas nos casos graves.

    O diretor da OMS, Tedros Adhanom Gebreysus, denunciou que vinha sendo alvo de uma abjeta campanha virtual procedente de Taiwan, “onde me chamam de preto ou negro”. O governo pediu desculpas por atos sobre os quais não tinha controle. 

    O confronto entre Taiwan e a OMS, obviamente, tem a China como origem (e talvez até campanhas virtuais falsas). 

    Só para lembrar, a OMS faz parte da ONU, que não reconhece a ilha como uma república independente. Até os dados – e as restrições – sobre Taiwan eram incorporados ao material geral sobre a China.

    A epidemia piorou o clima já permanentemente bélico a ponto de a maioria da população apoiar a mudança do nome da ilha, de República da China, herança da época em que os nacionalistas lideravam a independência do país continental, para, simplesmente, Taiwan.

    Todos os países asiáticos que se deram menos mal têm um histórico autoritário, populações homogêneas, alta capacidade tecnológica – usada para controlar a epidemia e, agora, evitar os rebotes que podem pôr tudo a perder. Dois são, majoritariamente, chineses, Singapura e a própria Taiwan.

    O alto nível de organização permite iniciativas como o deslocamento de assessores financeiros que procuram os informais de Taiwan, nos mercados de rua, barracas de camelôs e outros que sequer têm conta bancária, para ajudá-los a conseguir os empréstimos emergenciais que estão jorrando.

    “Nosso objetivo é proteger as empresas e a força de trabalho para que se segurem e sobrevivam até que a economia global volte à vida”, disse ao Financial Times o ministro responsável pela coordenação da política econômica, Kung Ming-hsin.

    Em condições completamente diferentes, o Brasil encontrou uma alternativa de fazer a mesma coisa à sua maneira.

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    Cada um vai se virando, alguns, como Taiwan, com extraordinárias desvantagens competitivas que consegue transformar em vantagens comparativas.

    A mais recente bomba é a potencial reviravolta provocada pelo estado de saúde, real ou suposto, de Kim Jong-Un, o rubicundo ditador da Coreia do Norte, depois de uma cirurgia cardiovascular. 

    Qualquer alteração no equilíbrio de poder, um jogo no qual Estados Unidos e China são os agentes, implica em consequências tectônicas.

    A notícia vem da Coreia do Sul e tem sido tratada com muitas restrições.

    Mas é mais uma prova de que tudo que pode se complicar, se complica. Na era do coronavírus, vale até torcer pela saúde de Kim Jong-Un.

    Imaginem então numa ilha que vive à sombra de um gigante pronto para degluti-la.

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