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Kissinger volta a ser o ‘Doctor Evil’: bastou elogiar Trump

Proximidade com Putin e até antigas suspeitas de espionagem são usadas contra o ex-secretário de Estado por, como sempre, flertar com o poder

Por Vilma Gryzinski 26 dez 2016, 17h39

Henry Kissinger tem 94 anos e tanta experiência sobre política internacional que ocupa uma posição sem paralelos no mundo. Provavelmente, ninguém entende mais do que ele sobre o assunto. Kissinger também tem uma consultoria. Ou seja, continua a cortejar o poder — aquele mesmo que famosamente definiu como “o maior afrodisíaco”.

Discretamente, encontrou-se com Donald Trump algumas vezes antes da eleição presidencial. Depois da vitória, apareceu bem publicamente cruzando o hall da Trump Tower como uma versão relativamente humana de Yoda, o antiquíssimo mestre Jedi de Guerra nas Estrelas.

Ao contrário da grande maioria dos outros especialistas do ramo, Kissinger não acha que Trump está necessariamente do lado negro da Força. “Acredito que ele tem a possibilidade de entrar para a história como um presidente bastante considerável”, disse Kissinger numa entrevista, escolhendo as palavras com mais cuidado do que se fossem constar de um tratado de paz.

“Temos aqui um presidente que está fazendo muitas perguntas incomuns”, argumentou. “Algo de extraordinário e novo pode sair disso.” Nem é preciso dizer que ele reiterou o condicional “pode”, uma possibilidade bem solta no ar.

Nenhuma outra personalidade com peso sequer parecido ao de Kissinger já disse algo semelhante sobre Trump. Por causa de sua análise, positiva apesar de cautelosa, Kissinger voltou a sentir um gosto dos velhos tempos, quando era considerado uma espécie de “Doctor Evil”, em suas encarnações como secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional nos governos Nixon e Ford.

Kissinger já foi o homem que tramava maldades desde o Sudeste Asiático (embora tenha aberto caminho à retirada americana do Vietnã) ao Cone Sul (embora o Chile de Salvador Allende tenha cometido todos os erros por conta própria). Foi também o mentor da aproximação com a China e da política de distensão com a União Soviética, jogadas de alcance mais gigantesco do que os arranjos diplomáticos de um de seus inspiradores, o príncipe Metternich, o arquiteto da grandeza do império austríaco.

O elogio a Trump desencavou um dos aspectos mais curiosos de Kissinger: os contatos relativamente frequentes com Vladimir Putin. O presidente russo gosta de conversar com ele e sempre o elogia.

O ex-secretário de Estado, grão-mestre do pragmatismo (e também da consultoria Kissinger Associates, é bom não esquecer), defende um entendimento entre Estados Unidos e Rússia que leve em consideração as preocupações russas — uma proposta razoável, se as tais preocupações não provocassem intervenções como a anexação da Crimeia.

“Os interesses de longo prazo de ambos os países demandam um mundo que transforme a turbulência e o fluxo contemporâneos em um novo equilíbrio que seja crescentemente multipolar e globalizado”, disse Kissinger numa cerimônia no começo do ano. Tradução: é melhor abrir espaço para a Rússia do que continuar a atual política de hostilidade — provocada, lembre-se, por Putin.

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Até que ponto Kissinger fala como estadista ou como parte interessada, ou até paga, por intermédio de seu escritório de lobby, como insinua o site Politico?

O mesmo Politico lembra um episódio descrito num livro sobre Putin. Nos anos 90, quando conheceu o ex-agente da KGB em ascensão no cenário político russo, Kissinger perguntou sobre sua experiência. “Eu trabalhei em inteligência”, respondeu Putin, usando o termo comum para serviços secretos. “Todas as pessoas decentes começam assim”, retrucou Kissinger. “Eu também”.

O surpreendente comentário lembra o início de carreira de Kissinger. Alemão de família judia que fugiu para os Estados Unidos, o jovem Kissinger foi recrutado já no fim da II Guerra Mundial e acabou num destacamento de contra-inteligência encarregado de governar uma pequena cidade na Alemanha vencida e ocupada.

É dessa época que vem uma acusação jamais comprovada, mas agora relembrada: a de que ele trabalhou na época como agente duplo para o serviço de inteligência do Exército soviético, o GRU.

O clima que cerca a eleição de Trump é tão sem precedentes que o conspiracionismo, habitualmente mais forte entre a extrema direita, agora trocou de lado. O presidente eleito dos Estados Unidos é acusado de ser manipulado pelos russos e até um fantasma de origem suspeita sobre o passado de venerável Henry Kissinger foi desencavado.

Kissinger prestou serviços voluntários de aconselhamento a todos os governos americanos mesmo depois de deixar o poder. Parou em 2010, no meio do primeiro governo Obama. Sua capacidade de influência sobre Trump ainda é desconhecida.

Mas é bom levar em consideração o fato de que Putin mantém um relacionamento de proximidade com apenas três americanos. Um é Kissinger, outro é Rex Tillerson, o presidente da Exxon que Trump escolheu para ser secretário de Estado. O terceiro é Steven Segall, ator e mestre real de artes marciais. Recentemente, Segall, descendente de judeus russos por parte de pai, foi contemplado com a cidadania russa, consagrada em passaporte entregue em mãos por Putin.

Já pensaram se Trump indica Segall para ser embaixador em Moscou? Nem Kissinger conseguiria administrar uma reviravolta dessas.

 

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