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Joe Biden tem condições de ser presidente dos Estados Unidos?

Para 59% dos americanos, o democrata de 77 anos nem vai completar o mandato se for eleito; por isso, escolha da candidata a vice vira assunto dominante

Por Vilma Gryzinski - 11 ago 2020, 08h24

Os psiquiatras que contrariaram a ética profissional e, publicamente, consideraram Donald Trump inepto para ser presidente devem estar estragando as páginas do Manual de Psiquiatria Clínica.

Comparado ao narcisista que consegue ver o mundo apenas a partir de seu ego estrondoso, e possivelmente frágil, Joe Biden parece mais um candidato a uma vaga numa casa de repouso especializada em doenças da senilidade do que o candidato mais cotado no momento à Casa Branca.

Os dois têm uma diferença de apenas três anos, Biden com 77 e Trump com 74. Ambos também fizeram intervenções cirúrgicas para reforçar os topetes. 

E, como os peixes, correm o risco de morrer pela boca, tamanha a quantidade de material verbal que costumam produzir para complicar a si mesmos.

A diferença é que Trump é considerado “doido”, no sentido de dizer e fazer coisas que nunca foram vistas num presidente americano.

Já Biden é considerado senil, no sentido literal, sem aspas.

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Numa pesquisa que não pode ser tratada como a palavra final, mas mostra uma tendência curiosa, foi perguntado a mil pessoas o que  acham da hipótese de que a candidata a vice-presidente teria assumido a presidência ao fim dos quatro anos de mandato: muito provável, razoavelmente provável, nada provável e absolutamente não provável.

As duas primeiras possibilidades foram cravadas por 59% dos pesquisados. Dentre estes, 39% cravaram a hipótese mais extrema.

Pior: 49% dos pesquisados que são eleitores do Partido Democrata cravaram as mesmas categorias.

A incerteza sobre a saúde, física ou mental, a curto prazo de Biden tornou a escolha da candidata a vice-presidente um exercício de kung fu político, manipulado pelas mais felpudas raposas: desfechar golpes rápidos para o adversário não identificar suas fraquezas e planejar o que de pior pode acontecer lá na frente.

A vice não pode aparecer demais, não pode ofuscar Biden e não pode tramar muito ostensivamente para se colocar como futura candidata a presidente.

Ao mesmo tempo, tem que parecer apta a assumir o papel principal.

E, acima de tudo, não atrapalhar a campanha.

Quem carrega muita bagagem do passado entra nessa categoria.

Aconteceu isso quando George McGovern foi candidato a presidente, no momentoso ano de 1972. Ele era da ala de esquerda, em proporções da época. Os adversários aproveitaram um artigo de imprensa para chamá-lo de candidato três A: “Anistia, aborto e ácido”.

O escolhido para ser candidato a vice era um senador respeitável, Thomas Eagleton. O candidato não revelou que sofria de depressão profunda e transtorno bipolar, tendo sido hospitalizado e passado por duas sessões de eletrochoques.

Em duas semanas teve que ser substituído. Richard Nixon ganhou a eleição de lavada, como aconteceria de qualquer maneira, mas Eagleton entrou como clássico do que não deve ser um candidato a vice.

Outra falta de “varredura”, daquele tipo que deve começar pelo currículo profissional, provocou encrencas altamente indesejáveis à candidata a vice de Walter Mondale, Geraldine Ferraro.

Hoje ela é tratada como uma espécie de mártir da causa feminina, por ser a primeira mulher numa chapa presidencial, mas na época da campanha de 1984 o problema mesmo foi o emaranhado financeiro de seu marido e sócio, John Zaccaro.

Mondale perderia de qualquer maneira para a onda desencadeada por Ronald Reagan, mas na vida real dos estrategistas de campanha o nome de Geraldine Ferraro não tem nada de inspirador.

É importante para a candidata a vice de Biden não passar a imagem de ter sido escolhida por cota, tipo mulher e negra.

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A candidata que preenche os dois quesitos, mas tem projeção, postura e vida própria é Kamala Harris.

Problema: sapateou em Biden quando disputava a indicação pelo partido justamente num assunto racial (o transporte de alunos negros para forçar a integração em escolas em bairros brancos).

Se fosse qualquer outro candidato, e não o cavaleiro ungido para missão sagrada de derrubar Trump, Joe Biden estaria mais do que encrencado por vícios de linguagem – e de pensamento – em questões raciais.

A um músico e apresentador do mundo do hip hop, afirmou, numa tentativa de imitar a linguagem oral das minorias negras, que “tu não é negro” se não votar nele.

Pior ainda, a um repórter negro da ABC que perguntou se faria um exame de capacidade cognitiva, respondeu com uma pergunta confusa na linguagem e humilhante na premissa: “Você faria um exame de cocaína antes dessa entrevista, hein?”.

A droga deve estar num lugar importante do subconsciente de Joe Biden, uma vez que seu filho Hunter teve que sair da Marinha depois de testar positivo para cocaína.

Imagem o que aconteceria se Donald Trump, que nunca fez uma única declaração pública racista embora seja tratado pelos adversários como o “comandante-chefe da supremacia branca”, disse algo remotamente parecido.

Trancado no porão e só saindo para ocasiões altamente controladas e coreografadas, Joe Biden está bem na frente das pesquisas simplesmente por não ser Trump.

Apesar de uma estagnação nas últimas semanas, está com 48,9% contra 42% para Trump, na média das pesquisas do site RealClearPolitics.

Trump enfrenta os seguintes elementos adversos: o coronavírus (entrará na eleição de novembro com mais de 200 mil mortos); a demolição dos empregos causada pela doença; a mídia, com exceção parcial da Fox News; além de todo o establishment artístico e cultural. Sem falar na capacidade de sabotar a si mesmo

Os protestos, saques e atos violentos desencadeados desde a morte de George Floyd podem funcionar nos dois sentidos: trazer eleitores assustados com a degeneração da segurança pública nas grandes cidades ou afastar os que atribuem o clima de divisão nacional ao estilo e à personalidade de Donald Trump.

A situação de Joe Biden hoje nas pesquisas é similar à de Hillary Clinton na mesma época do ano em 2016 – uma situação que dá frio na espinha de qualquer democrata.

Para ganhar nos estados-gangorra importantes, os que garantem mais votos no Colégio Eleitoral, Joe Biden precisa dar duro. 

Ou, como sua candidata a vice, não atrapalha: não ter falhas de memória flagrantes, não enrolar o discurso com palavras incoerentes e não falar o que lhe passa pela cabeça, sem filtros – um dos sintomas clássicos de deficiência cognitiva.

Seus recentes ataques de sincericídio não ajudam a consolidar o voto das minorias.

Obviamente, mais de 90% dos eleitores negros não querem saber de Trump. 

Mas 65% deles terão que sair de casa e comparecer à cabine de votação para cravar o nome de Biden e fazer a diferença nos estados-gangorra.

Esta é uma das incógnitas que tornam a eleição presidencial tão instigante.

E provoca o silêncio profundo dos psiquiatras que qualificaram Donald Trump com o rótulo de sociopata.

Uma palavra feia dessa eleição, acompanhada por outra mais feia ainda: gagá.

Quem já achava perigoso Donald Trump ser sempre acompanhado pela “maleta nuclear”, a pasta com os códigos ativando o complexo de mísseis em terra, mar e ar no caso da guerra do Juízo Final…

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