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Israel desfecha campanha nada secreta de sabotagem contra Irã

Já foram seis explosões “acidentais” em locais estratégicos desde o começo do mês, com a intrigante probabilidade que sejam ataques cibernéticos

Por Vilma Gryzinski - 16 jul 2020, 07h49

Quase todo dia é dia de “explosões” ou “incêndios” no Irã. Em duas semanas, fora sete episódios.

As aspas são usadas para eliminar a possibilidade de que sejam acidentes ao acaso – o que transformaria o Irã no país mais azarado do mundo.

Para não admitir os golpes quase inacreditáveis, o regime iraniano atribuiu a sequência de incidentes iniciadas no começo do mês a “explosão de uma tubulação de gás” ou causas que “estão sendo investigadas”.

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Ontem, foram sete navios incendiados no estaleiro de Bushehr, com os rolos de fumaça preta vistas de Teerã.

Já foram atingidos uma fábrica de produção de combustível líquido para mísseis e, principalmente, a linha de montagem de centrífugas usadas para purificar urânio. 

Sem contar uma base da Guarda Revolucionária. Entre suas atribuições estão as operações de inteligência.

É o programa nuclear iraniano – sempre a poucos passos de passar para a produção de bombas atômicas e seus vetores – que está sendo sabotado.

Ninguém tem a ilusão de que Israel consiga detonar todas as instalações nucleares com a atual campanha. 

O objetivo é atrasar a potencial produção das armas que mudariam drasticamente o equilíbrio de poder no Oriente Médio, já tentado através do assassinato de cientistas nucleares iranianos e do vírus Stuxnet, produzido em conjunto com serviços de inteligência dos Estados Unidos e da Holanda.

O Stuxnet provocou o incêndio “espontâneo” de centrífugas do complexo nuclear de Natanz, agora novamente atacado.

O que levanta uma questão intrigante: se aviões israelenses não estão entrando no espaço aéreo do Irã para lançar bombas nas instalações estratégicas – o que equivaleria a uma declaração de guerra -, como elas estão explodindo?

Não está eliminada a possibilidade que de agentes infiltrados tenham participado de uma ou mais das sete explosões registradas em menos de três semanas, mas no total a operação é um novo caso de guerra cibernética.

Em abril, a inteligência iraniana lançou um ataque cibernético contra a rede de abastecimento de água, respondido com um contra-ataque de pequenas proporções contra um porto do complexo por onde sai o petróleo iraniano que não está sob embargo.

A campanha atual está muitos degraus acima desses episódios.

Como Israel não admite oficialmente a sabotagem, as fontes de inteligência de praxe ajudam a explicar a campanha, considerada uma mistura de ataques cinéticos e cibernéticos.

Disse ao Jerusalem Post um ex-oficial do ramo cibernético, general Yaron Rosen:

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“Operações desse tipo implicam num planejamento de muitos anos para torná-las sustentáveis. No espaço cibernético, é preciso investir em muitas vias. Elas exigem um nível muito, muito alto de informações de inteligência e uma equipe operacional que monitore a rede constantemente”.

“Só superpotências do espaço cibernético podem fazer esse tipo de investimento”.

Israel e, obviamente, Estados Unidos estão nesse time.

“Minha aposta é que foi uma operação conjunta Estados Unidos-Israel”, disse ao Post outro militar da reserva, americano, Jeff Bardin, hoje no ramo de serviços cibernéticos.

Não está descartada alguma participação saudita. O reino árabe, rival sunita ao xiismo iraniano, sempre sonha em “cortar a cabeça da serpente”, de preferência com as armas dos outros.

Além de não querer acusar o golpe, o regime iraniano não poderia espernear muito sobre os ataques contra suas instalações nucleares porque isso indicaria os projetos feitos “por baixo do pano” e chamaria a atenção dos organismos encarregados de fiscalizar o programa.

O acordo nuclear do qual Donald Reagan retirou os Estados Unidos ainda está em vigor com a Europa.

A inteligência iraniana é considerada acima do nível dos vizinhos, mas já teve que engolir muitos sapos.

O maior deles foi a explosão justamente do homem que a dirigia, entre outros atributos, Qassem Suleimani, atingido por dois mísseis disparados de um drone assim que desembarcou no Iraque.

Regularmente, são enforcados agentes recrutados pela CIA, que sofreu muitos golpes em sua rede de informantes no Irã.

Em compensação, agentes do Mossad conseguiram um feito quase inacreditável: em 31 de janeiro de 2018, entraram num depósito em Teerã, desativaram alarmes, arrombaram duas portas, abriram com maçaricos a 3.600 graus nada menos que doze cofres e levaram uma vasta documentação secreta sobre o programa nuclear.

Tudo isso em seis horas e 29 minutos, aproveitando o intervalo entre as trocas de seguranças.

O Irã disse que os documentos foram forjados – o que mais poderia fazer?

Mas é fato que a revelação feita por Israel provocou um impacto menor do que o esperado. Provavelmente, porque todo mundo sabe que o Irã quer produzir armas nucleares e os vetores que as transportem. 

E muitos prefiram fazer de conta que não, contando que o acordo nuclear atrase essa corrida.

Israel, evidentemente, não pode se dar a esse luxo.

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